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Das filas aos preços, ainda queremos visitar monumentos em Lisboa?

Filas junto aos Jerónimos ou ao Castelo de São Jorge tornaram-se dissuasoras para lisboetas que querem de ser turistas na cidade. Mudanças estão a facilitar ou dificultar visitas, consoante o monumento.

Rute Barbedo
Escrito por
Rute Barbedo
Jornalista
Mosteiro dos Jerónimos
Rita Chantre | Mosteiro dos Jerónimos
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Em 2024, quando os residentes em Lisboa ainda podiam entrar no Castelo de São Jorge sem pagar (o regime mudou em Julho deste ano por decisão judicial, mas já lá iremos), apenas 19.896 pessoas decidiram fazê-lo, ou seja, 1,1% do público total, que foi de 1,7 milhões. A fracção era mínima, mas, em Junho deste ano, o Tribunal Central Administrativo Sul aceitou uma providência cautelar interposta pelo Ministério Público para terminar com a “prática discriminatória” que permitia aos moradores em Lisboa não pagarem bilhete, ao contrário dos restantes residentes nacionais.

A consequência poderia ter sido a gratuidade para todos os residentes em território nacional, mas, ao invés disso, os lisboetas passaram a ter de pagar 15 euros para aceder ao monumento, como todos os outros. Ainda não foram avançados números relativos aos residentes que, ainda assim, terão decidido ir na mesma ao Castelo. Mas, certamente, aqueles 15 euros são dissuasores. A EGEAC fez logo saber que discorda da decisão (que abarca também a Casa Fernando Pessoa, monumento nacional gerido pela empresa municipal de cultura lisboeta) e que avançaria para recurso. Mas enquanto nada acontece, e desde o dia 3 de Julho, todos pagam. 

Castelo de São Jorge
Rita ChantreCastelo de São Jorge

Vamos então para a porta do Castelo perceber como são as esperas. À chegada, há duas entradas: a primeira, para quem comprou o bilhete online, não tem ninguém à espera, enquanto a segunda, destinada aos que vão à bilheteira física, compõe-se de uma fila razoável. Quem gere o Castelo recomenda que se compre o bilhete online “com antecedência para evitar a espera na fila da bilheteira”, responde-nos por escrito o gabinete de comunicação da estrutura. No local, porém, não há indicações sobre a existência de uma "fila do online", apenas um segurança à porta, aguardando que as pessoas mostrem os seus ingressos electrónicos para poderem passar. A quem se aproxima e pergunta explica que, naquela porta, de facto, basta apresentar o ingresso digital. Esperar, portanto, seria desnecessário para muitos dos que ali estão, mas nem todos o sabem. 

Jerónimos mais curtos, mas sem certezas

A espera é o que nos faz dirigir ao Mosteiro dos Jerónimos, em Belém, outro best-seller do turismo em Lisboa, muito associado à imagem de filas intermináveis e que teve quase um milhão de visitas no ano passado (foram 946.014, com precisão). A 18 de Setembro, a Time Out recebeu a mensagem de Fernando Jorge, um visitante que acompanhou um casal de cidadãos seniores ao monumento e que começava assim: “Comprámos os bilhetes online, 24 horas antes do dia pretendido” e “quando chegamos a Belém deparamo-nos com uma fila com centenas de pessoas, todas com bilhete pré-comprado, tal como os nossos”. Tendo procurado uma fila para “cidadãos seniores ou com necessidades especiais”, os seguranças tê-lo-ão informado de que tal não existia, sendo que a hora estimada de entrada no mosteiro seria dali a duas a três horas, “ao sol”. “Perguntei a duas funcionárias se seria possível dar prioridade aos cidadãos seniores, mas responderam laconicamente que não porque estava assim decidido superiormente”, concluiu.

Em declarações à Time Out, a Museus e Monumentos de Portugal (MMP) explica que as prioridades no acesso ao equipamento são as previstas na lei (para todas as entidades públicas e privadas com atendimento presencial ao público, é obrigatório dar prioridade a pessoas com deficiência ou incapacidade, pessoas idosas, grávidas e acompanhadas de crianças de colo) e que, embora não exista uma fila específica para pessoas com mobilidade reduzida ou maiores de 65 com limitações, os funcionários têm indicação para estarem atentos às suas presenças. “Quando esses visitantes são identificados pelos nossos funcionários na fila, e caso não se dirijam directamente à entrada, são acompanhados até à entrada do monumento”, detalham.

Mosteiro dos Jerónimos
Rita ChantreMosteiro dos Jerónimos

Por causa das filas, do desconforto e, deduzimos, das reclamações, a 23 de Setembro a MMP alterou o modelo de acesso ao Mosteiro dos Jerónimos (e não só) e reduziu o limite máximo diário de visitantes do monumento para 3.000. Agora, “o tempo de espera depende da afluência de cada dia, mas a experiência das primeiras semanas de aplicação das slots mostra que a grande maioria das pessoas com bilhete para uma determinada slot entra de facto naquele período horário”, declara a entidade à Time Out, através do gabinete de comunicação. Quanto à minoria que não consegue entrar na sua janela horária, tem de esperar pela seguinte.

No terreno, em dia de chuva, perguntamos a dois turistas quanto tempo aguardaram na fila para entrar: “45 minutos”, respondeu um, “pouco mais de uma hora”, respondeu outra. Mas “as pessoas esperam porque querem”, diz-nos um funcionário junto à entrada. E explica: “Se comprar um bilhete para a slot das 12.30 às 13.30, não é preciso vir logo para aqui às 12.30. As pessoas vêm, porque têm medo de perder o lugar.” Talvez com alguma razão, porque nem todas conseguem entrar na sua "slot". Em suma, o sistema pode não ser perfeito, mas ainda assim melhorou.

Por último, perguntamos como deve fazer um português ou residente em Portugal, que tem acesso gratuito ao monumento ao abrigo do regime de gratuidade durante 52 dias por ano, que entrou em vigor em Agosto do ano passado. Não sendo possível reservar online, é necessário ir à bilheteira física no dia programado da visita. Mas os bilhetes, fica o aviso, costumam esgotar antes das 13.00. Ao fim-de-semana, mais cedo ainda. Há, portanto, o risco de chegar ao local e já não conseguir entrar.

Em Sintra, sem reservas

É preciso, ainda, sair de Lisboa para enfrentar um dos núcleos turísticos com maior pressão em toda a área metropolitana. Em Sintra, onde os diferentes monumentos geridos pela Parques de Sintra recebem um total de 3,5 milhões de visitantes por ano, o Palácio Nacional da Pena é uma das principais atracções. Não referindo os transportes públicos muitas vezes lotados ou o trânsito automóvel, para quem parte de Lisboa, que elementos nos fazem evitar ir ao monumento do século XIX?

Palácio da Pena
Mariana Valle Lima

Mais uma vez, também aqui a entrada é gratuita 52 dias por ano, tanto para portugueses como para residentes em Portugal (acontece o mesmo nos restantes monumentos geridos pela Parques de Sintra), mas, para levantar bilhetes é preciso ir à loja física ou aos quiosques automáticos do local, tudo sujeito à disponibilidade do momento. Ultrapassada a primeira incerteza, quando a afluência é grande, não há milagres: é preciso esperar.

Precisamente por causa da alta pressão, também a Parques de Sintra se viu obrigada a reduzir o número máximo de visitantes diário. Com menos 16% de entradas a partir de Janeiro de 2024, hoje, não mais do que 5100 pessoas entram no palácio a cada dia, distribuídas por 17 slots de 30 minutos. A limitação, também com vista a proteger o património, fez reduzir “para mais de metade os números de 2019, ano em que se chegou a atingir 12 mil entradas diárias no monumento”, refere a Parques de Sintra, um pouco como quem diz que, se calhar, less is more.

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