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"O Lugar da Charneca" mostra um lugar que já não existe a partir de memórias recolhidas ao longo de quatro anos, junto de actuais e antigos moradores. Exposição pode ser vista até 1 de Novembro.

Na praça junto à igreja, vêem-se casamentos, as festas de São Bartolomeu, bilhetes de cinema, equipas femininas de futebol, churrascos, uma mulher sentada junto à fonte, a notícia da construção da sede da banda. Nos anos 60 a 80, quando ainda era freguesia (hoje pertence a Santa Clara), a Charneca era um lugar cheio de vida. É isso que mostra a selecção de fotografias e outros documentos (no total, foram recolhidos mais de 500 junto de antigos e actuais moradores, juntando-se aos cerca de 40 que já existiam no Arquivo Municipal de Lisboa) dispostos em mupis em frente à Igreja de São Bartolomeu, até 1 de Novembro.
"Tudo o que nos contavam sobre a Charneca não correspondia à realidade que vemos hoje", conta Filipa Ferreira, do Arquivo Municipal de Lisboa (AML), que há quatro anos iniciou o processo de pesquisa e recolha documental sobre esta zona esquecida, no limite Norte de Lisboa. "Quando falamos de Charneca, as pessoas perguntam: 'Qual Charneca? A da Caparica?'" Era preciso reconstituir pelo menos uma parte da história do lugar, que começou a transformar-se profundamente a partir do início da década de 70, com a chegada de "muita gente vinda do Norte" e com a construção de habitação onde antes existiam mais de uma dezena de quintas, vinhas, vacarias e terrenos de onde se extraía areia.
Franklin Veríssimo e José Luís da Silva Ferreira, que cresceram aqui, lembram-se bem desses tempos. Foram também eles dois dos principais participantes neste projecto, cedendo ao AML o que tinham e ajudando na divulgação. "Toda a gente queria que fosse eu a fazer as sandes de courato no clube, porque eu era dos que punha muito", relata o primeiro, que foi treinador de futebol no Clube Desportivo da Charneca, um centro nesta espécie de aldeia de Lisboa. Não só do ponto de vista geográfico nem apenas pelo futebol (os responsáveis do AML acreditam que foi aqui que surgiram as primeiras equipas de futebol feminino do país), mas também pelos bailes da pinhata e porque era ali que quem não tinha chuveiro em casa (quase todos) tomava banho. "Era o clube dos pobres. Comprávamos uma senha de 25 tostões e íamos aos balneários", recorda Franklin, sobre a época em que não havia saneamento em quase toda a Charneca, antes do 25 de Abril. Mas José Luís Ferreira está ao lado para contestar: "Vamos lá ver... Não era o clube dos pobres, era o clube de todos!"
Saídos do Café Central em horário pós-almoço, Franklin e José Luís são um casal que talvez passe demasiado tempo junto. "Olha lá, sabes quem é este da foto?" "Como é que eu hei-de saber se nem consigo ver?" A conversa mantém-se coerente, no desacordo. Quando perguntamos pelo Cine-Estrela, Franklin, que cresceu duas casas ao lado, no Campo das Amoreiras, é rápido a reagir: "Eu era como um filho para a dona Josefa [proprietária da sala], passava lá a vida. E o cinema era a nossa maior alegria. Então quando eram filmes com o Gianni Morandi, toda a gente queria ver!" "Era assim porque aqui não havia mais nada", contrapõe José Luís. "Para se fazer qualquer coisa diferente era preciso apanhar a carreira número um até ao Cais do Sodré, que atravessava a cidade toda." Tanto um como outro iam colar cartazes dos filmes da semana seguinte pelos bairros vizinhos, como o das Galinheiras, onde existia o Cine Texas. "Assim, o pessoal tinha tempo para se preparar", explica Franklin.
Além do cinema, que foi decaindo com o envelhecimento dos proprietários até terminar a actividade no final da década de 70 (depois foi espaço para casamentos e discoteca), aconteciam as feiras de troca ou eventos mais esporádicos, como casamentos, baptizados ou as muito queridas festas de São Bartolomeu, uma vez por ano, em Agosto, com "tudo enfeitado e montado pelos moradores". "O meu tio arranjava umas senhas para o carrossel e os carrinhos e eu lá conseguia ir", recorda José Luís Ferreira. Era nelas que, pelo meio, aconteciam os churrascos, as danças e as cavalhadas, quando "as pessoas iam montadas a cavalo e tentavam acertar com uma seta no coelho ou no animal que lá estivesse", pendurado numa gaiola, conta.
Nascidos em 1956 e 1955, respectivamente, Franklin e José Luís viveram um lugar guardado na tradição oral e nos álbuns de família. Se "havia muito pouca informação no Arquivo", comparativamente aos milhões de documentos sobre toda a cidade, como faz ver Ana Brites, do AML (parte do Departamento de Património Cultural da autarquia), hoje, a história da Charneca pode ser recontada. A necessidade de saber mais surgiu na sequência do projecto europeu Urbact Access – Cultura para Todos os Cidadãos, em 2019, que permitiu à Câmara de Lisboa identificar os territórios com maiores carências culturais na cidade. Foi também na sequência desse trabalho que aterraram em Santa Clara o Festival Todos e a Quinta Alegre - Um Teatro em Cada Bairro, esta última com uma programação cultural regular.
Hoje, a zona antiga da Charneca, junto ao Campo das Amoreiras, "parece um lugar parado no tempo, com todas estas quintas e casinhas, muitas delas pré-terramoto", observa Filipa Ferreira. Ainda resistem uma tasca ou outra, como o Café Central. Já o clube foi fundido com o Sporting Clube da Torre dando lugar à União Desportiva da Alta de Lisboa, e as grandes festas de São Bartolomeu da Charneca, às quais "ia toda a gente", já "não têm nada a ver". À volta do centro, cresceram grandes superfícies comerciais, prédios e bombas de gasolina.
Além das fotografias expostas junto à igreja, o projecto Memórias da Charneca inclui o acesso online ao arquivo completo, através da página do Arquivo Municipal de Lisboa. Estão, também, programadas visitas guiadas à exposição nos dias 27 de Setembro e 25 de Outubro, às 14.30, e no dia 20 de Novembro, às 11.00, e duas oficinas: Retrato Químico, no dia 27 de Setembro, às 16.00, e A História Também Se Vê, no dia 25 de Outubro, às 15.30, na Quinta Alegre – Um Teatro em Cada Bairro (a participação é gratuita, mas os interessados devem inscrever-se através do e-mail umteatroemcadabairro.quintaalegre@cm-lisboa.pt).
Largo dos Defensores da República (Charneca). Até 1 Nov. Gratuito
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