Centro de Carnide


“Até logo, Camila. Vou a Lisboa.” Estamos em Carnide, junto ao coreto, e há quem, de passagem pelo clube (1920), cruzando o lavadouro (1903) e apanhando o metro (1997), assim se despeça perante a viagem de 20 minutos até à Baixa. O núcleo antigo da freguesia é conhecido há décadas como a aldeia da boa mesa. Nela descansavam os trabalhadores que iam dormir aos arrabaldes. Também a nobreza das charretes aqui fez o seu veraneio, longe da cidade. E são essas ideias, de descanso longe do ruído, que muitos procuram hoje no bairro, território de clássicos como a Adega das Gravatas ou o Paço de Carnide, mas também onde fervem o teatro e a noção de vizinhança.
Pão de Carnide
Poucas coisas são tão bom isco como o cheiro a pão quente e isso pode ser a justificação para a fila em frente à Panificadora de Carnide. Isso, o sabor já conhecido, o atendimento pelo nome e a hora “leve-três-bolos-e-pague-dois”. À porta, no entanto, não está só a fila, mas também uma data — 1923. Pode nem ser verdadeira, mas “não há-de fugir muito” ao ano em que Maria da Piedade e Francisco Antunes aqui encetaram a história de um negócio centenário, que vai na quarta geração, já a preparar a seguinte. Na altura, lembra um dos actuais proprietários, José Lopes (não o chamem de Fernando, que já chega — o pai era Fernando, a mãe Fernanda e os dois irmãos tiveram a mesma sorte), racionavam-se bens e as filas na Rua da Fonte eram de senha na mão. “Há pessoas agora com 90 anos que se lembram disso, de serem crianças e de virem à padaria com os pais. Contam que lhes davam sempre mais um bocadinho do que aquilo a que tinham direito. São coisas que ficam”, relata o bisneto dos fundadores, de 48 anos.
Nos dois fornos alimentados a pellets cozem-se 720 bolinhas de cada vez, vendem-se 20 mil por dia. Há ainda a broa de milho, o centeio, a pastelaria. Tradicional é bom. Mas não basta. “Andamos sempre a tentar inovar. Agora estamos a pensar em testar alguma coisa com massa-mãe”, conta José. Uma coisa, no entanto, não muda aqui: “Conhecemo-nos todos no bairro. E nós, na padaria, conhecemos todos os nossos clientes. É uma coisa que vamos sempre manter, esse atendimento no balcão, as pessoas criarem relações. Aqui não há atendedores automáticos”, remata.
Rua da Fonte, 35. Seg-Sex 07.00-19.30/ Sáb. 07.00-14.00
Os teatros do bairro
A oferta cultural tem alta concentração e é diversa no bairro, mas não é só para os de cá, que as aldeias não têm de ser coisa fechada. O Teatro do Silêncio apresenta e cria desde 2011 no lavadouro que durante décadas foi o espaço de socialização permitido às mulheres. Portanto, aqui também se pode lavar a alma. “Não é um caso de gentrificação pelos artistas, porque este lugar continua a poder ser usado, partilhado. É só pedir a chave. Durante a troika, havia muitas pessoas a vir aqui, lavar a roupa à mão”, dá conta Maria Gil, fundadora da estrutura de criação. Aqui têm acontecido residências artísticas, fizeram-se esculturas em sabão e experiências em que mulheres de Carnide se deixaram filmar a lavar e a cantar, numa imagem cruzada com a visita de uma astronauta, tudo visível através de um capacete de realidade virtual. Ninguém quer cristalizar a imagem das lavadeiras — vivam as máquinas de lavar! —, “sempre recusámos isso”, mas os lugares trazem coisas com eles e até, neste caso, uma nostalgia de fazer coisas com as mãos, sem cronómetros à perna, antes de a tecnologia ter acelerado tudo. “Às vezes há crianças que saem ali da escola (em frente) e vêm espreitar, com curiosidade. É algo que não imaginavam que se fizesse, lavar aqui a roupa.”
O próximo projecto de longa duração (até 2026) do Teatro do Silêncio tem por base três residências. Leonor Pêgo, Sofia Cabrita e Susana Guardado vão abordar fundos como o do mar ou o de estarmos juntos à mesa com uma artista a cozinhar para nós. No Lavadouro de Carnide, tudo é “horizontal, de artistas numa relação directa com o público”, remata Maria Gil.
Mais acima, numa azinhaga já no fim do bairro, dentro de uma antiga vacaria, está o Teatro Carnide, cuja história recua até 1913, ano de fundação da Sociedade Dramática de Carnide, hipoteticamente o grupo de teatro amador mais antigo do país. Nos anos 50, viria o Grupo de Teatro de Carnide, de Bento Martins, pai de Rita e de Teresa, que hoje recebem a Time Out nas instalações de onde estão para sair há dez anos. Impedidas de apresentar espectáculos desde 2015, por falta de uma saída de emergência, focam-se na formação, sobretudo para quem quer e precisa do teatro, na comunidade à volta e não só. “Quem não sabe o que se passa, acha que o Teatro Carnide já não existe. Nós estamos aqui e estamos a trabalhar, já provámos que somos sustentáveis, mas não podemos estar a investir num espaço que não é nosso”, explica Teresa. Em 2017, foi aprovado um projecto do Orçamento Participativo, no valor de 500 mil euros, para levar a companhia até à Avenida do Colégio Militar, onde seria instalado o novo Pólo Cultural de Carnide. Ainda aguarda desenvolvimentos. “Estamos presos por uns contentores do lixo”, lamenta Rita Martins, referindo-se ao uso do terreno pelo departamento de Higiene Urbana da Câmara. Neste espaço, onde hoje chove para baldes depois de um grande temporal, também se prepara a Marcha de Carnide, desde os anos 60. Imaginariam Brecht, Sartre ou Steinbeck, que aqui já foram encenados, tudo isto nos confins de Lisboa? À falta de espaço físico para receber público (a blackbox é, neste momento, sala de ensaios), a companhia não pára. “Temos um grande histórico de coisas malucas na rua”, da Feira da Luz à praça do coreto. Mas também foram acontecendo coisas lá dentro. “Já levámos várias multas. Sabemos que o público não está em perigo, e isso é o principal. O resto, temos de fazer, temos de continuar”, argumenta Teresa.
No bairro, existem ainda o Centro Cultural de Carnide, a Casa do Coreto, o Teatro da Luz (agora com circo aéreo), a Boutique da Cultura, a Casa do Artista e o Teatro Armando Cortez.
Lavadouro de Carnide. Estrada da Correia, 3; Teatro Carnide, Azinhaga das Freiras, 33
O restauro e A Alfaiataria
Cátia Rodrigues tinha outra vida, ligada a equipamentos de diagnóstico. Depois, teve filhos. “Peguei numa paixão, fiz formação… Um dia os astros alinharam-se e encontrei este lugar”, conta. O lugar é um atelier luminoso, numa esquina da praça principal do centro histórico, onde se restauram móveis desde 2019, como negócio e em modo workshop. “Acho que cada vez mais pessoas estão despertas para preservar peças com história e para a questão do desperdício. Comecei com seis alunos, agora são 34”, conta. À volta, há relógios de pé, cadeiras, baús e cavalinhos de baloiço, naquilo que já foi uma serralharia e uma loja de decoração.
Em Março, voltou a arriscar. Na antiga alfaiataria de Carnide, fechada há anos, abriu um showroom onde podemos ver a máquina de costura que foi usada pelo Sr. Fernando, mas também um banco egípcio para andar de camelo ou uma bancada de ourives restaurada, com quase 300 anos. Enquanto vamos conhecer A Alfaiataria, um vizinho fica a cuidar do atelier. “É tudo muito assim. Cresci numa aldeia entre Mafra e a Ericeira e, aqui, em Carnide, é igual. Acolhedor, intimista… É dos poucos bairros em Lisboa ainda com esta essência”, descreve Cátia. Num lugar em que fecharam o talho ou a farmácia recentemente (sim, o bairro também não escapa à pressão das grandes superfícies) e que “sempre que abre algo de novo é um restaurante”, como se queixam os locais, a abertura de uma loja atenta à recuperação foi motivo de festa.
Atelier Mood’Art. Rua Neves Costa, 25. Atendimentos por marcação (966 739 788) e workshops em vários horários
E comer?
Paço de Carnide
A esplanada nas traseiras é uma pequena pérola, mas não é tudo. Podem vir os peixes grelhados com o feijão verde, corte longitudinal, fininho, o naco na pedra, o rosbife ou o porco preto, tudo exibido como deve ser, ainda em cru, na montra do restaurante, para a escolha certa do cliente. O Paço é um clássico da zona, sempre cheio. E quem lá vai não anda enganado.
Rua do Norte, 11. Seg-Sáb, 12.00-15.00, 19.00-22.00
Adega das Gravatas
Em 1908, era uma carvoaria com taberna, como muitos outros negócios que por aqui se plantaram. Anos depois, veio a história das gravatas — hoje são mais de 3000 penduradas pelas paredes do restaurante: Manuel Araújo, o fundador, começou a pedir aos clientes que ali deixassem uma gravata autografada, como sinal de presença e de apreço por este lugar afamado de Carnide. Hoje, são motivos de atracção as gravatas, mas ainda mais o polvo à lagareiro, o naco na pedra, as plumas de porco preto, os chocos grelhados e o bacalhau. Sem esquecer as batatas à murro a brilhar de azeite.
Travessa do Pregoeiro, 15. Ter-Dom, 12.00-15.00, 19.00-22.30
O Galito
Para os que têm saudades do Alentejo, O Galito é o sítio. Considerado um dos melhores restaurantes regionais de Lisboa, instalou-se em Carnide há três gerações, trazendo a Serra d’Ossa ao ombro. Entre os imperdíveis estão a sopa de cação, os pezinhos de porco de coentrada, a sopa de tomate com carne do alguidar e o arroz de pombo bravo. No Verão, abram alas ao gaspacho com peixe frito.
Rua Adelaide Cabete, 7. Seg-Sáb, 12.30-15.00, 19.30-23.00