Paço do Lumiar
Rita Chantre | Paço do Lumiar
Rita Chantre

Oito aldeias que resistem dentro da cidade

Procurámos uma Lisboa à beira-metro mas sem pressa. Eis oito redutos onde se come bem e se descansa melhor.

Rute Barbedo
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Este artigo foi originalmente publicado na revista Time Out Lisboa, edição 673 — Primavera 2025

Em Carnide, Benfica, na Ameixoeira ou no Lumiar, nos Olivais, na Ajuda e nas Laranjeiras, dando ainda um salto a Odivelas, encontrámos oito aldeias dentro da cidade. São pequenas bolsas de resistência a um modo de vida acelerado e ruidoso, das grandes superfícies e dos semáforosPovoaram-nas, há décadas, homens e mulheres do êxodo rural, vindos do Alentejo, de Trás-os-Montes, do Minho, trabalhando em quintas e fábricas. Foram eles que, mais tarde, aqui montaram mercearias, padarias, restaurantes e oficinas onde os urbanos, essa espécie em expansão, vão agora experimentar o vagar, depois de uma curta viagem de metro. As grávidas daqui, que fique escrito, não terão de dar à luz em ambulâncias. O porco também não se mata nestas coordenadas. Mas há missas, funerais e bailaricos. E a vida é boa para quem está de visita. Ora vejam.

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Oito aldeias que resistem em Lisboa

Centro de Carnide

“Até logo, Camila. Vou a Lisboa.” Estamos em Carnide, junto ao coreto, e há quem, de passagem pelo clube (1920), cruzando o lavadouro (1903) e apanhando o metro (1997), assim se despeça perante a viagem de 20 minutos até à Baixa. O núcleo antigo da freguesia é conhecido há décadas como a aldeia da boa mesa. Nela descansavam os trabalhadores que iam dormir aos arrabaldes. Também a nobreza das charretes aqui fez o seu veraneio, longe da cidade. E são essas ideias, de descanso longe do ruído, que muitos procuram hoje no bairro, território de clássicos como a Adega das Gravatas ou o Paço de Carnide, mas também onde fervem o teatro e a noção de vizinhança.

Pão de Carnide

Poucas coisas são tão bom isco como o cheiro a pão quente e isso pode ser a justificação para a fila em frente à Panificadora de Carnide. Isso, o sabor já conhecido, o atendimento pelo nome e a hora “leve-três-bolos-e-pague-dois”. À porta, no entanto, não está só a fila, mas também uma data 1923. Pode nem ser verdadeira, mas “não há-de fugir muito” ao ano em que Maria da Piedade e Francisco Antunes aqui encetaram a história de um negócio centenário, que vai na quarta geração, já a preparar a seguinte. Na altura, lembra um dos actuais proprietários, José Lopes (não o chamem de Fernando, que já chega o pai era Fernando, a mãe Fernanda e os dois irmãos tiveram a mesma sorte), racionavam-se bens e as filas na Rua da Fonte eram de senha na mão. “Há pessoas agora com 90 anos que se lembram disso, de serem crianças e de virem à padaria com os pais. Contam que lhes davam sempre mais um bocadinho do que aquilo a que tinham direito. São coisas que ficam”, relata o bisneto dos fundadores, de 48 anos.

Nos dois fornos alimentados a pellets cozem-se 720 bolinhas de cada vez, vendem-se 20 mil por dia. Há ainda a broa de milho, o centeio, a pastelaria. Tradicional é bom. Mas não basta. “Andamos sempre a tentar inovar. Agora estamos a pensar em testar alguma coisa com massa-mãe”, conta José. Uma coisa, no entanto, não muda aqui: “Conhecemo-nos todos no bairro. E nós, na padaria, conhecemos todos os nossos clientes. É uma coisa que vamos sempre manter, esse atendimento no balcão, as pessoas criarem relações. Aqui não há atendedores automáticos”, remata.

Rua da Fonte, 35. Seg-Sex 07.00-19.30/ Sáb. 07.00-14.00

Os teatros do bairro

A oferta cultural tem alta concentração e é diversa no bairro, mas não é só para os de cá, que as aldeias não têm de ser coisa fechada. O Teatro do Silêncio apresenta e cria desde 2011 no lavadouro que durante décadas foi o espaço de socialização permitido às mulheres. Portanto, aqui também se pode lavar a alma. “Não é um caso de gentrificação pelos artistas, porque este lugar continua a poder ser usado, partilhado. É só pedir a chave. Durante a troika, havia muitas pessoas a vir aqui, lavar a roupa à mão”, dá conta Maria Gil, fundadora da estrutura de criação. Aqui têm acontecido residências artísticas, fizeram-se esculturas em sabão e experiências em que mulheres de Carnide se deixaram filmar a lavar e a cantar, numa imagem cruzada com a visita de uma astronauta, tudo visível através de um capacete de realidade virtual. Ninguém quer cristalizar a imagem das lavadeiras vivam as máquinas de lavar! —, “sempre recusámos isso”, mas os lugares trazem coisas com eles e até, neste caso, uma nostalgia de fazer coisas com as mãos, sem cronómetros à perna, antes de a tecnologia ter acelerado tudo. “Às vezes há crianças que saem ali da escola (em frente) e vêm espreitar, com curiosidade. É algo que não imaginavam que se fizesse, lavar aqui a roupa.”

O próximo projecto de longa duração (até 2026) do Teatro do Silêncio tem por base três residências. Leonor Pêgo, Sofia Cabrita e Susana Guardado vão abordar fundos como o do mar ou o de estarmos juntos à mesa com uma artista a cozinhar para nós. No Lavadouro de Carnide, tudo é “horizontal, de artistas numa relação directa com o público”, remata Maria Gil.

Mais acima, numa azinhaga já no fim do bairro, dentro de uma antiga vacaria, está o Teatro Carnide, cuja história recua até 1913, ano de fundação da Sociedade Dramática de Carnide, hipoteticamente o grupo de teatro amador mais antigo do país. Nos anos 50, viria o Grupo de Teatro de Carnide, de Bento Martins, pai de Rita e de Teresa, que hoje recebem a Time Out nas instalações de onde estão para sair há dez anos. Impedidas de apresentar espectáculos desde 2015, por falta de uma saída de emergência, focam-se na formação, sobretudo para quem quer e precisa do teatro, na comunidade à volta e não só. “Quem não sabe o que se passa, acha que o Teatro Carnide já não existe. Nós estamos aqui e estamos a trabalhar, já provámos que somos sustentáveis, mas não podemos estar a investir num espaço que não é nosso”, explica Teresa. Em 2017, foi aprovado um projecto do Orçamento Participativo, no valor de 500 mil euros, para levar a companhia até à Avenida do Colégio Militar, onde seria instalado o novo Pólo Cultural de Carnide. Ainda aguarda desenvolvimentos. “Estamos presos por uns contentores do lixo”, lamenta Rita Martins, referindo-se ao uso do terreno pelo departamento de Higiene Urbana da Câmara. Neste espaço, onde hoje chove para baldes depois de um grande temporal, também se prepara a Marcha de Carnide, desde os anos 60. Imaginariam Brecht, Sartre ou Steinbeck, que aqui já foram encenados, tudo isto nos confins de Lisboa? À falta de espaço físico para receber público (a blackbox é, neste momento, sala de ensaios), a companhia não pára. “Temos um grande histórico de coisas malucas na rua”, da Feira da Luz à praça do coreto. Mas também foram acontecendo coisas lá dentro. “Já levámos várias multas. Sabemos que o público não está em perigo, e isso é o principal. O resto, temos de fazer, temos de continuar”, argumenta Teresa.

No bairro, existem ainda o Centro Cultural de Carnide, a Casa do Coreto, o Teatro da Luz (agora com circo aéreo), a Boutique da Cultura, a Casa do Artista e o Teatro Armando Cortez

Lavadouro de Carnide. Estrada da Correia, 3; Teatro Carnide, Azinhaga das Freiras, 33

O restauro e A Alfaiataria

Cátia Rodrigues tinha outra vida, ligada a equipamentos de diagnóstico. Depois, teve filhos. “Peguei numa paixão, fiz formação… Um dia os astros alinharam-se e encontrei este lugar”, conta. O lugar é um atelier luminoso, numa esquina da praça principal do centro histórico, onde se restauram móveis desde 2019, como negócio e em modo workshop. “Acho que cada vez mais pessoas estão despertas para preservar peças com história e para a questão do desperdício. Comecei com seis alunos, agora são 34”, conta. À volta, há relógios de pé, cadeiras, baús e cavalinhos de baloiço, naquilo que já foi uma serralharia e uma loja de decoração. 

Em Março, voltou a arriscar. Na antiga alfaiataria de Carnide, fechada há anos, abriu um showroom onde podemos ver a máquina de costura que foi usada pelo Sr. Fernando, mas também um banco egípcio para andar de camelo ou uma bancada de ourives restaurada, com quase 300 anos. Enquanto vamos conhecer A Alfaiataria, um vizinho fica a cuidar do atelier. “É tudo muito assim. Cresci numa aldeia entre Mafra e a Ericeira e, aqui, em Carnide, é igual. Acolhedor, intimista… É dos poucos bairros em Lisboa ainda com esta essência”, descreve Cátia. Num lugar em que fecharam o talho ou a farmácia recentemente (sim, o bairro também não escapa à pressão das grandes superfícies) e que “sempre que abre algo de novo é um restaurante”, como se queixam os locais, a abertura de uma loja atenta à recuperação foi motivo de festa.

Atelier Mood’Art. Rua Neves Costa, 25. Atendimentos por marcação (966 739 788) e workshops em vários horários

E comer?

Paço de Carnide

A esplanada nas traseiras é uma pequena pérola, mas não é tudo. Podem vir os peixes grelhados com o feijão verde, corte longitudinal, fininho, o naco na pedra, o rosbife ou o porco preto, tudo exibido como deve ser, ainda em cru, na montra do restaurante, para a escolha certa do cliente. O Paço é um clássico da zona, sempre cheio. E quem lá vai não anda enganado.

Rua do Norte, 11. Seg-Sáb, 12.00-15.00, 19.00-22.00

Adega das Gravatas

Em 1908, era uma carvoaria com taberna, como muitos outros negócios que por aqui se plantaram. Anos depois, veio a história das gravatas hoje são mais de 3000 penduradas pelas paredes do restaurante: Manuel Araújo, o fundador, começou a pedir aos clientes que ali deixassem uma gravata autografada, como sinal de presença e de apreço por este lugar afamado de Carnide. Hoje, são motivos de atracção as gravatas, mas ainda mais o polvo à lagareiro, o naco na pedra, as plumas de porco preto, os chocos grelhados e o bacalhau. Sem esquecer as batatas à murro a brilhar de azeite.

Travessa do Pregoeiro, 15. Ter-Dom, 12.00-15.00, 19.00-22.30 

O Galito

Para os que têm saudades do Alentejo, O Galito é o sítio. Considerado um dos melhores restaurantes regionais de Lisboa, instalou-se em Carnide há três gerações, trazendo a Serra d’Ossa ao ombro. Entre os imperdíveis estão a sopa de cação, os pezinhos de porco de coentrada, a sopa de tomate com carne do alguidar e o arroz de pombo bravo. No Verão, abram alas ao gaspacho com peixe frito.

Rua Adelaide Cabete, 7. Seg-Sáb, 12.30-15.00, 19.30-23.00

Palma

Fica encravada entre o Eixo Norte-Sul e a Estrada da Luz, a 10 minutos do metro das Laranjeiras, e em 2019 remodelou-se. Era preciso fazer alguma coisa, aumentar as festas, trazer cultura, instigar a coesão, achou a Câmara. Vieram piso novo e uns banquinhos, desapareceram os canteiros, chegou uma instalação artística temporária e cravaram-se fotografias de moradores no chão, qual homenagem ao modo de vida feliz desta aldeia, no passado, quando era rodeada de quintas e de fábricas, a última das quais da Viúva Lamego. “Quem vem de fora acha bonito”, reconhece Carlos Franco, morador de 83 anos. No entanto, ele próprio não gosta muito. “Já não bastava o cimento dos prédios, também tinham de pôr no chão?”, indigna-se o morador, recordando o piso de terra batida e “o largo cheio de criançada, a jogar ao berlinde, à bola, à carica”, com “os mais velhos na taberna”. Se isso não era o paraíso… No Verão, havia bailes. “Eu é que os organizava, ali no clube, e noites de fado também”, conta. As fotografias desses tempos, cravadas no chão, desapareceram. “O sol foi demasiado forte”, conta à Time Out a fotógrafa Camilla Watson. As coisas mudam, há que aceitar. Os prédios grandes nasceram à volta, muitos antigos moradores foram embora, os filhos também. À mudança seguiu-se a reabilitação dos edifícios, com foco no arrendamento para estudantes, que a Católica está mesmo ali à porta. O que resta de Palma? O sossego, bons restaurantes e a sensação de se estar numa outra Lisboa. Se isso não é o paraíso…

Tasca do Fonseca

Apesar do genocídio em curso, nem tudo no universo das tascas é negro. A Tasca do Fonseca, por exemplo, vive bons tempos. Enfermeiros e médicos saídos do turno da noite vêm aqui comer a sua bifana pela matina, mais tarde chegam os do bairro (trabalhadores e moradores), e depois os estudantes da Católica, devidamente aprumados e sem pressa na esplanada, mesmo que seja época de exames. Também esta casa há-de fechar um dia, adivinha o Sr. Fonseca. “Quem é que hoje vai querer um negócio destes, em que é preciso trabalhar dois turnos, vir de manhãzinha e sair à noite, com uma margem de lucro tão pequena?” É uma das razões para a morte das tascas. A outra, já sabemos. Mas enquanto tiver saúde que tem , podemos dormir descansados. Fonseca e Isabel virão todos os dias (salvo a folga de domingo) abrir as portas e terão listadas as sopas no menu do exterior. 

A bifana, tenra, suculenta, estrela da casa, vem com toque de Moimenta da Beira. “Naquele tempo, quando se era miúdo, era-se obrigado a aprender. Foi o que eu fiz. Punha 11 tijolos de um lado, 11 do outro e fazia-se a comida no lume. Hoje faço todo o tipo de comida”, conta o proprietário. O segredo é cumprir sempre “o mesmo peso e medida”. A disciplina. 

Das mesas, para lá do balcão de inox, vê-se o casario baixo de Palma e ainda Monsanto, o monte de Lisboa. Mas também gente jovem a pedir cerveja para a esplanada. Fonseca sabe bem: “Se não houvesse ali o restaurante [o Carvoeiro de Palma] e eu aqui, isto era uma aldeia sem gente. Mesmo à noite não se passa nada.” Valham-nos as tascas.     

Rua Direita de Palma, 11. Seg-Sáb 07.00-22.30

Carvoeiro de Palma

Como tem menos de 30 anos, os habitantes dizem que é novo. Não é e está muito bem estabelecido. Ocupado o lugar de uma antiga taberna, nele a grelha é a rainha, não esquecendo o arroz e a batata frita, ambos gulosos e sempre a pedir mais (as batatas, vimo-las chegar em carrinho de mão). O naco na pedra e os bifes são cobiçados, mas os clientes habituais do Carvoeiro de Palma gabam também a açorda de gambas e a saladinha de polvo. Para escolher, nada como dar um salto até à montra de peixes e carnes e deixar o olho guiar o instinto. E por falar em saltar: de apreciar é também a performance do empregado de mesa, atleta olímpico do atendimento, sempre em corridas e voos entre a sala e a esplanada. Dada a pressão alta, não espere ser apaparicado.

Rua Antonino e Sá, 9. Ter-Dom 12.00-16.00, 19.00-23.00

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Largo da Paz

Chamem-lhe aldeia, e é logo motivo para debate. Enquanto uns confirmam o título com segurança, outros queixam-se da gentrificação. A Ajuda foi sempre marcada por um lado tradicional resistente, com comércio de bairro, associativismo forte, pátios e tascas – em parte protegida pela distância em relação ao metro. Mesmo sem ele, no entanto, nos últimos anos chegaram os condomínios de luxo, complicaram-se os problemas para estacionar, entraram os supermercados. Na aldeia da Paz (chamemos-lhe assim pelo nome dado ao largo entre a Igreja da Memória e a Calçada da Ajuda), o espaço público amplo, o chafariz, as tascas e tabernas e os pequenos restaurantes caseiros são as comportas que aguentam o espírito do bairro. A estes lugares sem menu fixo, onde a malta se junta sem títulos nem gravata, tiramos o chapéu. 

Taberna da Rosa

Em 1978, dona Rosa, vinda “do Norte”, montou esta taberna e deu-lhe o seu nome. “Isto não é um restaurante, é uma taberna”, vinca, para que não haja enganos. Portanto, comer é o que há a cada dia, e há todos os dias, o que facilita a vida aos indecisos. “Fazemos petiscos. Pica-pau, peixe frito, chocos à algarvia, pastéis de bacalhau… Depois temos o prato do dia, ao almoço. Hoje é mão-de-vaca com grão”, dá conta Rosa. “É comida caseirinha muito boa”, atesta uma cliente. Beber na Rosa também é fácil. “Tinto ou branco?”, pergunta a proprietária ao cliente habitual, mesmo antes do bom dia. A taberna tem sempre gente à porta. Um dia fechou e não era de folga, pelo que todos estranharam. “Estará doente? Terá ido ao médico? O que se passou?” Ponto de encontro do bairro, virado para o largo, um dia de falta faz logo mossa na vizinhança.

Largo da Paz, 30. Qua-Seg 08.00-20.30

O Sossego

“Somos um restaurante normal. Mas a malta tem necessidade disto. Querem um sítio onde possam vir todos os dias. E querem sardinhas no pão, tremoços e jolas”, garante João Zacarias, proprietário e anfitrião d’O Sossego. Está convicto de que a comida é importante (já lá vamos), mas que “uma pessoa, quando vai a algum lado, também quer passar um bom bocado, sentir-se em casa”. Ninguém diga que está errado. Neste restaurante recentemente remodelado, que ganhou uma esplanada recatada e de onde se vê rio, não se quis mexer nem no conceito nem na cozinha. Os pratos são os tradicionais, da alheira ao bitoque, passando pelo peixe grelhado, a patanisca, o arroz de feijão. Mas a alheira, atenção, não é uma qualquer. Vem do Barroso, região onde nasceu a sogra de João, mãe de Ana Zacarias, a mulher, e fundadora do restaurante na altura, taberna juntamente com o marido, há mais de 30 anos. Além de refeições e petiscos, o espaço vende também produtos regionais, de queijos a enchidos da Beira Baixa, ao azeite, vinho verde e mel.

“Isto chegou a ser uma carvoaria e um depósito de vinhos. Depois, os meus sogros abriram um restaurante à maneira antiga, com um balcão comprido e um fogareiro à porta”, conta o proprietário, que vai trazendo novidade à casa da conversa com os clientes e amigos. Foi assim na remodelação. “Duas arquitectas que costumavam cá almoçar disseram-me: ‘Se algum dia mexer nisto, tem de falar connosco.” João falou. Também o picante da casa é feito por uma cliente e as coisas andam assim, com as ideias da vizinhança. Ao Sossego, conta João, vem pessoal da construção e ministros, locais e estrangeiros. “Temos o número dos velhotes todos. Se não aparecem dois dias, telefonamos logo a saber o que se passa”. Só um alerta: ao meio-dia, a casa enche.

Nas redondezas, são ainda referências O Cantinho das Manas, o bitoque do Jorge d’Amália e o Recanto Serrano.

Rua da Paz à Ajuda, 34. Seg-Sáb 09.00-19.00 

O 18

“O bairro mudou para melhor, está tudo novo. Só que antes todos se conheciam e agora é gente muito rica”, descreve Lurdes Rebelo, que levanta os tachos no n’O 18 há 28 anos. “E as brincadeiras na rua?”, perguntamos. “Brincar? Toda a minha vida foi trabalho”, responde amargamente, num discurso pouco familiar ao marketing. Na zona da Memória, houve muita brincadeira, sim senhor, mas só até uma certa idade. Para Lurdes, o trabalho finalmente abrandou, já que O 18 serve almoços apenas ao fim-de-semana, com menu variável, da feijoada ao rancho e ao cozido à portuguesa, o favorito de quem a procura, segundo a própria. Ao fundo da tasca, reina a típica mesa larga, com bancos de tábua corrida e, no balcão, as taças, os cálices e os pastéis de bacalhau acabados de fritar (perto do meio-dia).

Travessa Paulo Martins, 18. Seg-Sex 09.00-23.30, Sáb-Dom 09.00-14.00

Manápula

Não vamos esquecer o novo nem achar que a idade é um posto. Há também uma juventude que se revê na calmaria do Largo da Paz, que quer aqui viver e abrir negócios e lugares de criação, criar comunidade. É o caso de Rita Alambre, que vive na Ajuda há mais ou menos 15 anos e idealizou com a família o Manápula, pizzaria onde comer com talheres é heresia. “Dá-me um prazer enorme receber pessoas, dar-lhes de comer e ver a cara delas no fim a acharem que estava tudo óptimo”, contava no Verão passado à Time Out. Neste pequeno espaço, com esplanada no largo, há dez pizzas à escolha, como a margherita (12€), a com a faca e no queijo na mão (13,50€), com molho de tomate, mozzarella fior di latte, ricotta, grana padano e limão; ou a uma mão cheia (14€), com molho de tomate, mozzarella, cogumelos shiitake, fiambre e alcachofras.

Largo da Paz, 1. Ter-Sex 12.00-15.00 e 19.30-22.30, Sáb-Dom 12.30-16.00 e 19.30-22.30

Núcleo histórico dos Olivais

Há uma placa a dizer “centro histórico dos Olivais” e é para lá que vamos, embora nem sempre haja passeio para caminhar. Do outro lado, espreitam a Torre Vasco da Gama e a cobertura icónica da Gare do Oriente, zumbem viadutos e túneis e a ruidosa Avenida Infante Dom Henrique. Parece improvável encontrar aqui uma aldeia e, no entanto, calçada granítica adentro, eis o coreto, o larguinho, as casas baixas, bem como a placa de uma extinta (há um ano) meca de caracóis e caracoletas, por idade avançada do proprietário. Mais à frente e, como não podia deixar de ser, a igreja e, claro, o lugar de muitas outras procissões: o restaurante.

Pedro Soares é dos Olivais, mas não pensava cá voltar. Aconteceu que, já metido no negócio da restauração, soube por meio de um fornecedor que havia uma casa bem estabelecida, num lugar peculiar de Lisboa, da qual os proprietários, já cansados, se queriam livrar. “Era o Palmeira, uma casa com muitos anos, onde cheguei a vir almoçar umas vezes”, conta o sócio (são três: dois cozinheiros e um economista) do Solar da Gula, aberto desde 2023, mas a todo o vapor desde o Verão passado. É um restaurante de cozinha tradicional portuguesa, até porque, neste lugar, com este ambiente rural e esta arquitectura em volta, “não podia ser outra coisa”. Assim sendo, destacam-se pratos como o polvo à lagareiro (17€), as bochechas de porco com migas de farinheira (14,50€) e, ainda, ao fim-de-semana, o bacalhau assado no forno (47,50€ para duas ou três pessoas), e o cabrito com arroz de miúdos ao domingo (50€, também até três pessoas). Podia chegar, mas as entradas chamam, vindas em tachinhos de ferro preto até à mesa. É o caso dos camarões com alho e malagueta e da linguiça com cogumelos e queijo da Ilha. As sobremesas variam e são mostradas de bandeja, com destaque para a sericaia e o pudim.

A cozinha está aberta 12 horas por dia, por isso, “quem quiser aparecer às seis da tarde para almoçar pode fazê-lo”, explica o gerente, cozinheiro de formação. Pedro Soares começou no Ritz, andou no Pestana Palace, no Can The Can ou no Las Ficheras, até abrir um restaurante próprio na Amadora. Tem ainda outros projectos na calha, mas já deixou de beber sete cafés por dia. 

Praça da Viscondessa dos Olivais, 25. Seg-Dom 12.00-23.00 (até às 00.00 no Verão)

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Paço do Lumiar

Ainda há quintas activas no Paço do Lumiar, daí o cheiro intenso a jasmim e a flor de laranjeira enquanto se passeia junto às azinhagas ou se sobe a Rua Esquerda. Aqui viveram D. Maria I, Cesário Verde, Álvaro Cunhal, Eunice Muñoz. Havia olivais e palacetes, ia-se buscar lenha à “serra” para os aquecer ou para fazer fogueiras no largo. Hoje, pode dizer-se que esta é a aldeia dos colégios, já que quase tudo se move à sua volta. Os carros aqui estão em grande mancha por causa deles, os empregadores também são eles e o único café do bairro só abre nos dias de escola. Mas, vasculhando bem, há mais a acontecer neste núcleo histórico silencioso – e há quem lute por manter o Paço vivo.

Maria do Mar

Mónica Albuquerque nasceu e cresceu em Alvalade, onde fundou, em 2013, a Maria do Mar, um lugar de brinquedos e decoração para os mais novos, centrado num modo de vida sereno, sem pressas. Como uma criança, o projecto passou por diferentes fases, mas ficou sempre no bairro, até há pouco tempo, quando Mónica, a viver já há uns 15 anos no Paço do Lumiar, decidiu levar o trabalho com ela. Há três anos, abriu no Largo do Paço, coração do bairro, uma escola de desenho e pintura. O senhor António, serralheiro de sempre, ajudou-a a montar o espaço, desde as estantes aos suportes para lápis ou à roda de cores que figura junto ao janelão frontal. Este ano, vem o resto, do showroom da Maria do Mar à oficina para consertos e workshops de construção de brinquedos em família. Faz sentido. Se Mónica sempre defendeu brinquedos tradicionais e uma filosofia de vida anti-aceleração, por que não ir para uma aldeia de Lisboa?  

“Isto é realmente uma aldeia, linda, tranquila, cheia de história... Mas com muitos moradores fechados nos condomínios e pessoas a viver para dentro dos colégios. É preciso revitalizar o Paço e nós queremos contribuir para isso”, afirma. O showroom funcionará como uma espécie de gabinete de consultoria, “uma boutique, cada vez menos bebé e cada vez mais casa”, com muito papel de parede à cabeça. “Vou ter menos brinquedos, produtos de loja. A tendência é ir por esta área de projectos, muito mais colados àquilo que é o meu DNA, a minha verdade, do que ao que é considerado trendy”, explica a empreendedora. À porta, por exemplo, haverá uma nada trendy sineta para anunciar a chegada, “à antiga”. 

Voltando à escola, onde dá aulas (particulares de manhã e à tarde de grupo) e workshops de desenho e pintura com António Cassiano Santos, Mónica acredita que aqui se aprende muito mais do que técnica. É o raciocínio, a resolução de problemas, ver as coisas de diferentes prismas. “Isto não é uma coisa tipo ATL, é mesmo à séria. Mas eles aprendem tudo de forma muito natural e intuitiva. E isso fica.” Depois, lancham todos juntos e brincam lá fora, no largo. “Aqui o espaço é deles, e isso é outra coisa muito boa”, diz. A esperança é essa: que as crianças, de um lado para o outro no largo, sejam o arranque de um novo movimento neste velho lugar da freguesia.

Museu Nacional do Teatro e da Dança

É um museu no limite de Lisboa, longe dos holofotes. Mas tem uma nova vontade: abrir-se mais. “Se as portas estiverem abertas, muita coisa pode acontecer. E se não começarmos pelos vizinhos, vamos começar por quem?”, questiona a directora, desde Dezembro, do Museu Nacional do Teatro e da Dança, Mariana Brandão. Isolado pela Calçada de Carriche do resto da freguesia, o Paço, onde fica o museu, é vítima de duas distâncias: “a geográfica e a psicológica”, pesando mais a segunda, mas também sendo mais fácil de quebrar. Um dos chamarizes é o Parque Botânico do Monteiro-Mor, gerido pelo vizinho Museu Nacional do Traje (o museu está temporariamente encerrado, mas o parque não) e “com uma flora única”, por ser dos poucos espaços verdes em Lisboa virados a Norte. “Um parque como estes pode ser um oásis vivido pelas pessoas”, defende a responsável. Já o Museu do Teatro fica num palácio do século XVII, mas quer a dinâmica do século XXI, através de “muitas colaborações”. “Não é preciso ir longe. No Lumiar, temos danças tradicionais indianas, escocesas, hip-hop, de tudo”, enumera Mariana Brandão, para quem “o teatro e a dança se devem assumir como coisas vivas”. 

Além das mudanças de posicionamento da instituição, que tem mostrado sobretudo exposições de longa duração ligadas à história das artes performativas, de Gil Vicente às histórias de Paula Rego (valendo a pena as visitas orientadas), vêm também obras, que deverão estar terminadas no Verão de 2026. “Vai mudar a lógica de funcionamento do espaço e vamos voltar a ter cafetaria.” Em tudo continuará a mandar o espólio de 300 mil peças (quase todas doações de companhias de teatro e de dança, bem como de particulares), de figurinos a cartazes, fotografias, maquetes de cenários. Mas também das proibições do Estado Novo aos progressistas Ballets Russes ou Almada Negreiros, quando andava “farto do romantismo no teatro”, como detalha Olga Monteiro, durante a visita. No fim, fechem as cortinas, por favor.

Museu: Estrada do Lumiar, 10. Ter-Dom 10.00-13.00, 14.00-18.00; Parque Botânico do Monteiro-Mor: Largo Júlio Castilho. Ter-Dom 10.00-13.00, 14.00-18.00 

Sr. Joaquim, o merceeiro ambulante

Quando Maomé não vai à montanha, a montanha... Já se sabe. Neste caso, Joaquim é a montanha. Move-se, desde que se reformou, no seu antigo Nissan Almera, de segunda a sábado, de Benfica até ao Paço do Lumiar, carregado de pão fresco, ovos, massa, fruta, vegetais… Em suma, o que lhe pedirem para levar. “Tive uma mercearia no Charquinho e no Alto dos Moinhos. Agora ando entretido com isto. Escuso de ficar em casa a gastar o sofá”, diz à Time Out. No Paço, não há mercearias. De carrinho na mão ou de automóvel, o que os moradores fazem é ir à vizinha Telheiras para atestar a despensa. Mas há quem não queira e quem não possa, como Margarida, que todos os dias recebe as compras à porta.

Antes da hora do almoço, Joaquim buzina freneticamente. “É impossível ninguém o ouvir”, atestam os moradores. É um serviço social, que começou quando uma antiga cliente do Charquinho se mudou para o Paço e quis manter o fornecedor diário. O senhor Joaquim tem 82 anos e “dois ou três clientes aqui, coisa pouca”, mas o certo é que nunca lhes falta o pão.

Santo António sem carros

Além dos colégios, do café, dos espaços de Mónica Albuquerque, de uma oficina de restauro e das missas ao domingo na capela de 1628, o que se passa no Paço do Lumiar? “As festas dos santos populares”, responde Maria do Carmo Mendes, mais conhecida como Carmita e membro activo da Associação Recreativa Amigos Paço do Lumiar, fundada há oito anos pelo marido, António Pedro. Em Junho, o bairro vive o seu momento alto, voltando então ao que era. “Os santos, aqui no Paço, são uma grande festa! Vem muita gente de fora e tudo, porque não há igual noutro lado. Para já, os carros não entram [aponta para o largo]. Depois, há bailes, sardinha assada, febra, entremeada, moelas... Há quem queira acabar com as festas, por causa do barulho. Mas se a gente acaba com isto, então é que não há nada”, defende Carmita, que aqui vive há 75 anos. Com o filho a presidir a associação, o futuro parece bem encaminhado. As festas, pelo menos, continuarão. E quem não as quer, uma vez por ano, como se tivesse ido passar o Agosto à aldeia?

Ameixoeira velha

Quem começa a palmilhar a Ameixoeira desde a estação de metro, na direcção das Galinheiras, sabe que vai ter de travar a vista no alto, entre os pilotis dos grandes prédios, apanhando o fim de Lisboa. Na freguesia dos muitos andares, ainda resta um pedaço de muralha a lembrar o termo da cidade e há espaço para descampados de antigas quintas saloias, palácios e palacetes. Um deles, provavelmente construído no século VI, fica na antiga Quinta do Ministro, onde hoje funciona a Academia de Música de Santa Cecília, a primeira escola do país com ensino paralelo de música integrado na escolaridade obrigatória. Mas a Ameixoeira é campo intenso de contrastes, como lembra Miguel Abreu, director do festival Todos, que por lá andou três anos e continua a usar o edifício que foi pensado (há mais de 20 anos) para funcionar como centro cultural, nunca o sendo por inteiro. “A Ameixoeira Velha tem uma população muito jovem e a maior taxa de abandono escolar de Lisboa. Há ali grandes problemas. Quando estivemos no território, organizámos um concerto de música barroca no Largo das Galinheiras. Estavam ciganos, africanos, pessoas dos centros, uma mistura que não aconteceria se não tivesse havido aquele evento. E isso deixa marcas nas pessoas”, conta Miguel Abreu. A mistura nem sempre acontece e as discrepâncias são de longa data: “Conhecemos pessoas que eram netas de antigas criadas da realeza”, tudo separado por curtas distâncias. À procura do “caldeirão de culturas”, encontrámos um restaurante familiar, embaixador da boa vida de bairro.

O Cantinho da Ameixoeira

O menu é eclético e o cantinho familiar. Nele podemos encontrar Brasil, Angola, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Mas é desta última ilha que vieram Felizardo Bonfim e a família, chegados numa comitiva, para apresentar uma peça de teatro na Expo 98. “Ficámos”, conta à Time Out o gerente d’O Cantinho da Ameixoeira. À volta há paisagens de Príncipe que dão vontade de viajar e cartazes do Auto de Floripes também. Mas nem Felizardo nem a esposa, Dulce Wilsses Espírito (agora na cozinha), fazem mais teatro. Os olhos estão postos no restaurante, aberto há sete anos. “A minha esposa era empregada na área da restauração e tinha este sonho, de abrir uma casa dela. Encontrámos este sítio, pequeno, agradável, com aquele espaço bom lá fora, mas o início não foi fácil. Com muita simpatia e comida boa, fomos andando e agora a casa está feita”, descreve.

À mesa podem chegar pratos como o arroz de cabidela, a cachupa (duas quintas-feiras por mês), a moamba, a feijoada, o calulu ou o peixe andala com banana-pão, especialidade são-tomeense. A regra é os pratos tradicionais concentrarem-se no fim-de-semana. O resto é conforme a rotação, tirando a gula, que aparece a qualquer dia e dura até à sobremesa (recordamos a mousse de lima). No Verão, avisa Felizardo, há espaço (literalmente também, já que o restaurante fica voltado para um simpático largo) para música ao vivo e muita festa. “Às vezes programamos, outras é alguém que chega e quer tocar.” É seguir as redes sociais.  

Largo do Terreiro, 5. Ter-Qui e Dom 10.00-17.00, Sex-Sáb 10.00-19.00

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Calhariz velho

Ana reservou mesa para 20, ao almoço, e lá estão os lugares alinhados, de frente para a Catedral de São Martinho de Dume. O que comerão? Filetes de peixe galo? Lulas? Coelho ou vitela à Lafões? Um dos funcionários do Zé Pinto, restaurante mítico e centro nevrálgico do Calhariz Velho, acaba de escrever o menu a giz, pousado do lado de fora. Chegam as carrinhas carregadas de bebidas, o carteiro apita alvoraçado. “Contas para pagar? Leve de volta”, responde um homem nos seus 70. Até que está animada, a aldeia, mas pela noitinha, cruzados os talheres e levantada a esplanada, torna a calma, apenas rasgada pelo som dos comboios (fica junto à estação de Benfica) e do vaivém motorizado na Radial de Benfica. “Fechando o Zé Pinto, pára tudo. As pessoas vêm cá pelos restaurantes”, descreve António Figueiredo, 61 anos, há 38 para trás e para a frente neste restaurante de alma benfiquista. Há 38 anos, “havia aqui uma padaria e uma mercearia e mais gente”, mas, de resto, o bairro “pouco mudou”. Tirando nos últimos meses, em que se montou um movimento para que volte a ganhar fôlego. “As casas estão a ser reabilitadas e reocupadas. Há famílias novas a virem para cá”, atesta João Paulo Santos, presidente da associação de moradores. Em Dezembro, inaugurou-se o coreto (sim, há coretos a estrear neste século) com um concerto da Orquestra de Cordinhas da Beira Baixa. Debaixo do viaduto foi construído um skatepark e na recém-nascida residência de estudantes, que é usada pela “escola informal” do rapper Valete (a Horizontal 360), experimenta-se rap e spoken word. Quinze milhões de euros servirão para retirar o Calhariz Velho do esquecimento, acredita a Junta de Freguesia, que quer colocá-la no mapa como “aldeia gastronómica”. Se a cara põe-se nova em volta, os clássicos mantêm-se velhos e bons. E é deles que vamos falar. 

Zé Pinto

Às vezes há chanfana, pernil, iscas, carne de porco à alentejana, entrecosto e batatas fritas “e que batatas fritas”, elogiou Alfredo Lacerda, crítico da Time Out, no início deste ano. Se as pessoas vêm ao Calhariz pelos restaurantes (as doses ficam perto dos 10€, dependendo do prato), José Pinto é um dos grandes culpados. Foi ele, vindo de São João da Pesqueira, quem transformou a tasca bem-disposta em fenómeno, à boleia de pratos como o entrecosto com arroz de feijão. Do fundador, o restaurante passou há uns anos para outras boas mãos, as de Joaquim Gomes, o mesmo que conduz os destinos do Boa Esperança, também em Benfica, e d’O Mattos, em Alvalade. Nada mudou, nem mesmo a parafernália benfiquista saiu das paredes.

No Zé Pinto, o ritmo de trabalho é acelerado, mas os clientes não vêm aqui para acompanhar. Chegam à mesa os tachos ainda a ferver e a cabeça, com sol a bater na esplanada, fica suspensa logo ao primeiro copo, estado de evasão que tantos procuram e que em poucos lugares se consegue encontrar tão bem como aqui. Talvez por parecer que estamos fora de tudo.

Largo General Sousa Brandão, 2. Ter-Sáb 12:00-15:00, 19:00-22:30

Solar dos Leitões

Quem nunca tinha ouvido falar no Solar dos Leitões passou a conhecer pelo menos o nome naquele ano não tão longínquo de 2016, quando circularam notícias de um “almoço proibido” do ex-primeiro ministro José Sócrates com o empresário Carlos Santos Silva, então arguidos no âmbito da Operação Marquês. Perdoemos, por momentos, a infracção, para elogiar a escolha. Num cantinho discreto do Calhariz, até na esplanada, com mesas de pedra e toalhas xadrez, corre-se pouco risco de se ser visto. Já lá dentro, na cozinha, outro segredo: não há leitões, que o nome do restaurante vem do apelido dos fundadores. Destacam-se, isso sim, os grelhados, sobretudo do mar, da garoupa ao salmonete (70€/kg).

Travessa Marques Lésbio, 20. Seg-Sáb 12.30-15.30/19.30-22.30

Galé dos Manos

É uma tasca tradicional, pequenina, onde se sabe ao que se vai, porque os pratos têm dias marcados. Por exemplo, a terça-feira é dia de cabidela (16,90€ a dose, que dá para dois) e a sexta de arroz de pato no forno (16,60€). Já para todos os dias, há uma carne fixa a espreitar do menu: a mirandesa. Fica mesmo em frente ao largo do coreto e não tem esplanada.

Estrada do Calhariz de Benfica, 182. Seg-Ter e Qui-Sex 12.00-14.45, Sáb 12.00-14.45

Núcleo histórico de Odivelas

Terminamos o périplo pelas aldeias com um pé fora de Lisboa, mas ainda perto do metro, em Odivelas, esse subúrbio carregado de marquises, de urbanizações e de outlets. Muito ruído para terra que começou por ser monástica, aproveitando as águas que corriam junto ao lugar de descanso de Dom Dinis, que ali permanece sossegado, sendo grande motivo de atracção. Junto ao Mosteiro de São Dinis e São Bernardo, construído no século XIII, está a nascer o novo Parque da Cidade, com oito hectares, um lago, pontes suspensas, parque infantil, mais árvores, espaços para restauração e para exercício físico ao ar livre. Deverá estar pronto em 2026.

O mosteiro de D. Dinis

Pode ter sido por impulso de grandeza ou mesmo um acto de fé. Certezas não existem, mas há uma lenda que conta que o rei D. Dinis, surpreendido por um urso durante uma caçada, terá contado com a aparição de um santo, São Luís, e assim redobrado forças para poder enfrentar o animal. Como sinal de gratidão, terá então mandado construir este mosteiro na Quinta das Flores, doando-o à Ordem de Cister. Seguiram-se seis séculos de vida monástica e um de ensino – aqui se instalou o Instituto de Odivelas, até 2015. Tudo sempre entre mulheres. Só recentemente, há seis anos, o monumento nacional passou para a gestão do município e começaram a organizar-se visitas ao primeiro e terceiro sábado de cada mês.

Um dos principais motivos da procura é a sepultura do rei, no interior da igreja, na única parte do edifício que existe da construção original. O resto foi vítima de tragédias, como o terramoto de 1755, um grande incêndio e “muitas obras de adaptação”. Uma espécie de faroeste que transformou alas monásticas em salas de aula e afins. Do património de azulejos à vida das monjas, há sete séculos a testemunhar no mosteiro. Talvez uma das partes mais cativantes seja a cozinha, com o seu passa-pratos, as panelas e a bancada onde se preparava a conhecida Marmelada Branca de Odivelas. Outras serão os claustros, o novo e o velho, onde hoje acontecem eventos como concertos, peças de teatro ou serenatas. 

Como em muitos outros lugares de Deus, há ainda relatos de amores proibidos (sim, senhor, estamos a meter-nos na vida de D. João V e da Madre Paula) ou lições sobre como comer em silêncio em grandes salões. A última monja saiu de Odivelas em 1886 e podemos ver-lhe hoje as golas e punhos, numa pequena vitrine, em exposição. Há, aliás, um projecto museológico para o mosteiro e uma unidade de investigação sempre activa à sua volta. Só não há data, ainda, para as obras.

Largo Dom Dinis. Visitas orientadas no 1.º e 3.º sábado de cada mês (encerrado em Agosto). 2€

Ajax de Odivelas

No núcleo histórico de Odivelas, a vida de bairro era, até há poucos anos, bastante activa. Ponto de encontro obrigatório, com o coreto e o chafariz ao lado, a Pastelaria Faruque chegou a vender “700 croissants num dia”, conta José Coelho, alentejano migrado para Odivelas e embaixador da casa durante 35 anos. O santuário dos doces e das torradas mudou de gerência e acabou por fechar. Um pouco atrás, fazia também a vida da aldeia o restaurante onde o caracol e a caracoleta eram reis, com a sua bela esplanada. Também encerrou. Mas há sempre alguém que fica. E aqui foi o Ajax, Clube Recreativo do Espírito Santo de Odivelas. Ajax, o nome, vem de 1969, ano de fundação do colectivo, mas também de uma renhida eliminatória entre o SL Benfica e a máquina de Amesterdão (leia-se Eusébio contra Cruijff), para a Taça dos Clubes Campeões Europeus. Foram precisos três jogos para apurar a equipa que seguiria em frente e, naquele Inverno, foram os holandeses. Apesar da vitória e de os fundadores do clube de Odivelas serem benfiquistas, “quiseram pôr o nome de Ajax”, conta o tesoureiro. Por admiração. 

No Ajax de Odivelas de 2025, porém, já não se joga futebol. “Temos ginástica, atletismo e um grupo de caminhadas”, descreve a presidente, Filomena Ramalhosa, a primeira mulher à frente da instituição. “Este espaço é arrendado e, se não tivesse vindo esta direcção, o Ajax tinha fechado. Quando aqui cheguei, não havia eventos nem desporto. Agora, posso dizer que as coisas estão lançadas”, diz, orgulhosa. O andamento pode ver-se na esplanada animada, nos bancos com azulejos pintados à mão, na cozinha e na mesa de snooker. No dia-a-dia, circulam as minis e as bifanas – “o nosso ex-libris” – e as moelas e os pipis ao fim-de-semana. Depois, há os dias especiais, pelo menos uma vez por mês, movidos a festas de sopa da pedra, campeonatos de matraquilhos, concertos (além de uma funerária, o vice-presidente tem uma banda) e, claro, o Santo António, em que o clube se torna no “Bairro Alto de Odivelas”. 

Também por causa de Filomena, há mais mulheres a frequentar o clube, tanto nas modalidades, como nas mesas. “No início foi muito difícil, havia dias em que ia para casa a chorar”, admite. Agora, entre amigos, bebe um tango (cerveja com groselha) às gargalhadas. “Isto é como uma família”, diz ela. E um cantinho especial, acrescentamos nós.

Rua da Fonte, 1. Ter-Dom 10.00-23.00

Sociedade Musical Odivelense

1863. A data faz da Sociedade Musical Odivelense, a SMO, uma das colectividades mais antigas do país. Como não podia deixar de ser, a instituição começou pela banda, criada para dar outro fôlego às celebrações locais, muitas vezes religiosas, quando a música se disseminava pelas ruas de Odivelas antiga, à passagem dos instrumentistas. No livro da história da SMO, há fotografias a testemunhá-lo, mas também a mostrar a ida a Sevilha na Expo 92 ou a listar os beneméritos da “aldeia” que permitiram a viagem a Clermont-Ferrand, em 1989. O espectro alargou para aulas de música (do piano ao violino), dança, um grupo de teatro e o coro. A banda continua em força, mas o seu propósito “mudou imenso”, reconhece o maestro Fernando Palacino, desde 1987 na instituição. “Queremos criar o interesse pela música, seja nos concertos para a comunidade escolar seja em salas de espectáculo. E muitas vezes as pessoas ficam surpreendidas com o que ouvem, porque há algum estigma associado ao nome ‘banda filarmónica’. A ideia, de algum modo, ficou presa ao conceito de antigamente”, analisa. Palacino dá exemplos: “Colaborámos com cantores como a Anabela ou o Carlos Guilherme, acompanhámos coros, fizemos um tributo ao Zeca Afonso… Há três anos, participámos no disco do Fernando Tordo”, enumera. 

A banda, que passou por um período dormente nos anos 70 e 80, é hoje composta por perto de 40 elementos. “É a população local que nos procura e há pessoas de todas as idades”, de adolescentes a maiores de 50, “médicos, engenheiros, estudantes”. Vão aprender música, mas também a serem melhores. “Uma banda”, como diz Palacino, “é das composições mais democráticas que há, porque cada um contribui com o seu desempenho para um bem comum, sem atropelar os outros”. A próxima actuação da SMO está agendada para o seu 162.º aniversário, a 29 de Junho, no auditório de Odivelas. Em dias de concerto, avise-se, a sala enche.

Rua Maria Gomes da Silva Santos, 7

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