Notícias

Livraria De A a Zola lança novo projecto editorial

O primeiro título saiu no Verão e reúne quatro textos sobre livros. O segundo, em pré-venda, recupera um volume há muito esgotado em Portugal.

Raquel Dias da Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
O Cárcere
Livraria e editora De A a Zola | O Cárcere, de Cesare Pavese
Publicidade

Nuno Abreu cresceu rodeado de livros: a mãe é bibliotecária e grande parte da infância foi passada sobretudo na biblioteca de São Lázaro e no Palácio Galveias. Há dois anos, a meio de uma leitura desconcentrada (e porventura premonitória, tal mãe tal filho) de Pais e Filhos, de Ivan Turguêniev, decidiu cumprir a ideia que já o andava a desassossegar desde os tempos da pandemia: criar uma livraria online independente, por assim dizer, com um catálogo criteriosamente escolhido. Agora, avança com outra ideia: um projecto editorial, que lançou no Verão de forma relativamente discreta, com uma edição inédita que reúne ensaios de Virginia Woolf, Simone Weil, Walter Benjamin e Robert Louis Stevenson. O segundo título já está em pré-venda e recupera O Cárcere, de Cesare Pavese, que não estava disponível em português desde 1959. O terceiro – e último do ano – está a ser traduzido, mas ainda é segredo.

Na verdade, a livraria é apenas um passatempo, ou melhor um projecto de amor, porque a profissão que paga as contas é outra. Nuno é director de uma agência de relações públicas e assume-se “livreiro fora de horas”, o que significa que gere esse outro negócio durante o tempo em que devia estar a pôr o sono em dia (dá graças por ter tão bons amigos e familiares, e uma mulher que o ajuda a ter a contabilidade em dia e vai dando ideias “sempre com muito sentido prático”). “A minha mãe, depois da rede de bibliotecas, foi coordenar a Hemeroteca de Lisboa, na altura em que era na Rua da Misericórdia. Lá perto havia a Livraria Barateira, que já não existe, e onde eu passava muito tempo. Mais tarde, já adulto, houve uma altura em que trabalhei nas traseiras da Livraria Buchholz e tinha uma hora de almoço alargada e, portanto, também lá ia muitas vezes. Continuo, naturalmente, a ser frequentador de livrarias independentes, como a Snob, e, na altura da pandemia, percebi que ficaram desfalcadas, porque só podiam vender ou ao postigo, o que com livros não funciona, ou online. Foi esse sonho que comecei a alimentar, até que um dia pus mãos à massa”, conta-nos.

Dois anos depois, volta a meter-se em trabalhos. Juntou um grupo de profissionais do sector, entregou a paginação ao seu amigo Miguel Félix, com quem já trabalhara “nos tempos das revistas, já lá vão 15 anos”, e o resultado foi Um Boato Sobre o Romance e Outros Textos Sobre Livros, que conta com revisão de Sara Veiga, e traduções de Guilherme Pires (Virginia Woolf), António Conduto Oliveira (Walter Benjamin e Simone Weil, dos originais em alemão e francês) e Isabel Castro Silva (Robert Louis Stevenson). “Saiu no Verão, porque é uma altura em que as pessoas estão mais disponíveis para ler e pareceu-me que era um bom formato”, partilha. “Entretanto, recebeu um boost muito grande, porque o [jornalista, tradutor e editor] Carlos Vaz Marques falou sobre ele no Programa Cujo Nome Estamos Legalmente Impedidos de Dizer, e disse também umas palavras muito simpáticas sobre a livraria. Tenho estado a preparar envios desde sexta-feira”, revela Nuno, que também trata da distribuição e vende para livrarias de bairro.

Com tradução de Ana Fonseca Santos e Anabela Nascimento, e revisão de Isabel Castro Silva, o segundo lançamento é uma obra de Casere Pavese, escrito no período do fascismo italiano e inspirado na vivência do autor, preso pelo regime em 1935 e condenado ao confino, que consistia num exílio em locais isolados. Neste caso, Pavese esteve encarcerado, entre Agosto desse ano e Março de 1936, em Brancaleone Calabro, uma pequena localidade na província de Reggio Calabria. “Mandei agora para a gráfica. Tem uma história curiosa, porque o livro tinha sido publicado cá em 1959, juntamente com outra novela [A Casa da Colina], num único volume, o Antes que o galo cante [numa tradução de Fernanda Barreira, editada pela Arcádia]. Eu encontrei-o num alfarrabista, li O Cárcere e achei interessante por causa dos temas e porque a escrita quase que não nos leva a lado nenhum. Não tem um enredo muito forte, é muito melancólico, o oposto do que as pessoas procuram hoje em dia, o que me parece óptimo para as desafiar. O mérito dos editores independentes também é esse, não estarem preocupadas se vendem 500 ou 600, mas em trazerem algo de novo, que traga valor acrescentado.”

O próximo livro, ainda no segredo dos deuses, deverá sair até ao final do ano. Está agora a ser traduzido por Sara Veiga: “A tradução e a revisão são fundamentais para se poder entregar um bom livro aos leitores, e é importante e justo que quem gosta de ler vá fixando os nomes dos tradutores.”. Depois disso logo se vê. Como todas as editoras independentes, De A a Zola está sempre sujeita a desaparecer tão rápido quanto apareceu. Tudo dependerá dos leitores. Nuno Abreu – que também se tem divertido a levar os seus livros a feiras como a FLIFA, em Arroios, e em breve estará na Casa Fernando Pessoa, para o Lisbon Revisited – gostava muito de continuar, tem pedido conselhos a outros editores e já tem colecções pensadas e tudo: “Não penses mais nisso” para ensaio e não-ficção, “Conta-me histórias” para ficção, “Desobedecer à métrica” para poesia, “Por quem sois” para biografias, “Se a memória não me atraiçoa” para crónicas e memórias, e “Outras coordenadas” para literatura de viagens. 

Está ainda previsto o lançamento de uma secção de literatura infantil, a Zolinha, com curadoria da mulher, que é psicóloga clínica e mãe de duas crianças. As novidades – para grandes e pequenos – vão todas parar à página de Instagram da livraria-editora. “É giro, porque curiosamente também serve como canal de vendas para um público mais velho, boa parte de zonas fora de Lisboa e de Porto, que muitas vezes me enviam fotografia do talão de multibanco para confirmarem que fizeram o pagamento”, conta, entre risos. “São pessoas com muita cultura, mas dá-me ideia que não têm livrarias por perto, e fico feliz por contribuir para as aproximar deste tipo de literatura.”

Mais notícias: fique a par das principais novidades com a Time Out

🏃 O último é um ovo podre: cruze a meta no FacebookInstagram Whatsapp

Últimas notícias
    Publicidade