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Numa grande noite de mulheres no Nos Alive, os Foo Fighters foram épicos

A banda de Dave Grohl tocou que se desunhou e fez tudo certo: três décadas de hits, Nirvana e até arqueologia do rock. Mas é às mulheres que devemos um extraordinário dia de festival e não só uma longa espera pelos cabeças-de-cartaz: Zara Larsson, Wolf Alice, Skunk Anansie, Jehnny Beth e The Warning.

Hugo Torres
Mauro Gonçalves
Escrito por
Hugo Torres
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Mauro Gonçalves
Foo Fighters, Nos Alive
Sara Hawk/Nos Alive | Foo Fighters
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Nas sábias palavras de Renato Alexandre, parceiro de conversas de Bruno Aleixo, teria sido bué simbólico que os Foo Fighters não tivessem tocado esta sexta-feira à noite no Passeio Marítimo de Algés. Façamo-nos entender: Dave Grohl e companhia deram um concertaço, de mais de duas horas e meia, tocaram todos os êxitos, mais um tema de Nirvana (“Marigold”, lado b de “Heart-Shaped Box”) e levaram-nos até por uma pequena viagem musical às bandas anteriores de todos os elementos, incluindo o recém-chegado baterista Ilan Rubin, que foi indubitavelmente uma das estrelas da noite. Façamo-nos entender mais um bocadinho: a esmagadora maioria das dezenas de milhares de pessoas que esgotaram este segundo dia do Nos Alive compraram bilhete para os ver, rever, amar – e assim foi.

Acontece que até os Foo Fighters entrarem em cena, nove anos depois da última visita a Portugal, neste mesmo festival, neste mesmo palco, até então estávamos a ter uma noite peculiar. Uma noite feita quase integralmente de mulheres, o que num cartaz de música de guitarras está muito longe de ser a norma. Elas costumam ser a excepção, aqui eram a regra. Todas demolidoras, com performances extraordinárias uma atrás da outra. Desilusões não contabilizámos nenhuma, zero, nada de nada. Bem pelo contrário. Se à chegada ao recinto, levávamos de casa e do nosso arquivo de memórias boas impressões – de Skunk Anansie, de Wolf Alice, de Jehnny Beth, de The Warning –, elas foram todas reforçadas. Ainda agora somos aquele meme da Nazaré Confusa a decidir quem é que se saiu melhor.

Vamos esquecer, para efeitos deste argumento, que The War On Drugs deram um belo concerto numa tenda cheia, como é apanágio dos melhores momentos neste palco, embora a plateia tenha começado a debandar para Foo Fighters após “I Don't Live Here Anymore”, quando faltava uma meia hora para os cabeças-de-cartaz (antecipando essa realidade, a banda de Filadélfia tocou os hits a abrir, “Harmonia’s Dream”, “Red Eyes”, “Pain” e “An Ocean in Between the Waves”, mas ainda tocaria “Under the Pressure” e a inédita “Who’s That”, que muitos já não viram). Vamos ainda esquecer que à mesma hora de The War On Drugs, Gilmário Vemba tinha o Palco Comédia a rebentar pelas costuras. E vamos esquecer Palaye Royale. Enfim, esqueçamos tudo o que nos convém esquecer em benefício do nosso argumento. De qualquer modo, quando são as mulheres a ficarem esquecidas, raros são os festivaleiros que vêem nisso um problema. Portanto, consciência tranquila.

The Warning, Nos Alive
Nuno Cruz/Nos AliveThe Warning

Comecemos pelas mexicanas The Warning. É verdade que o mundo conheceu as irmãs Villarreal Vélez em 2014, quando elas tinham apenas nove, 12 e 14 anos, graças a uma cover de “Enter Sandman” partilhada no YouTube – mas muito aconteceu desde então. Por esta altura, preparam-se para lançar o quinto disco (em Agosto). No entanto, se tivéssemos de apostar, a esmagadora maioria da plateia nunca havia ouvido uma única nota de qualquer um deles (embora um grupo de frontliners, em êxtase, tenha claramente ouvido todas). Que importa? Isto é um festival, está aqui uma banda, está ali o público, siga. Em cima do palco, o trio dá tudo o que tem: os seus riffs gordos, os seus acordes de estádio, as suas batidas torpedo e a sua inesgotável energia são mais do que suficientes para cooptar a audiência. Com um ar de bonecas de porcelana (muito blush cor-de-rosa, diz-nos a especialista ao nosso lado), as manas Daniela, Paulina e Alejandra são ferozes e praticam um rock devedor de um manancial de nomes grandes dos anos 1990 e 2000, de diferentes subgéneros. A descarga de “Sharks” deu-nos a certeza de que, com o nu metal de novo em voga, as The Warning ainda vão voltar a experimentar a viralidade da Internet, agora no TikTok.

Skunk Anansie, Nos Alive
Hugo Macedo/Nos AliveSkunk Anansie

Uma maneira fabulosa de começar. E se é energia que querem, aí vem mais uma dose – e bem reforçada. Skin é uma fonte inesgotável. Se os Skunk Anansie estão no cartaz, é certo que a sua vocalista de 58 anos vai ser a pessoa mais cool a pisar o palco nesse dia, qualquer um dos palcos. Vamos repetir, para interiorizarmos bem este número e o confrontarmos com este foco hipnótico que temos diante de nós: 58 anos. Skin insiste que a banda existe há 32 anos – di-lo duas vezes –, mas isso provoca uma dissonância imediata com o espectáculo que vai decorrendo e que dispensa, para nosso espanto, êxitos absolutos como “Brazen (Weep)”, “Secretly” e “You Follow Me Down”. Queriam baladas? Tomem lá “God Loves Only You”, “Tear the Place Up” e “Little Baby Swastikkka”. E, vá, tomem lá “Hedonism (Just Because You Feel Good)”, “Twisted (Everyday Hurts)” e “Weak”, para não ficarem a chorar num canto (nós amuámos um bocadinho, mas foi por falta de “Selling Jesus”, apesar de a ausência dos alinhamentos não ser novidade). Com um estampado anti-nazi na t-shirt, Skin, que, fruto da entrega desmedida, passou todo o início do set com a boca em sangue, sem que isso afectasse o seu vozeirão, fez um breve discurso sobre a necessidade de igualdade absoluta e a apontar aos “cristãos supremacistas”, que perseguem toda a gente que vive uma vida diferente da deles (pessoas LGBTI+, racializadas, mulheres), apelando à união para combater. “Estamos juntos!” 

Jehnny Beth, Nos Alive
Arlindo Camacho/Nos AliveJehnny Beth

Entretanto, a francesa Jehnny Beth tinha começado no Palco Heineken (a tenda) um concerto bem suado, que envolveu uma sessão de exercício físico em palco e uma cover de Björk (“Army of Me”) no alinhamento. O pós-punk dos extintos e saudosos Savages, do qual era a vocalista, evoluiu para um rock industrial com elementos de noise que nos tomou de assalto e só nos deixou com pena de não termos visto tudo do princípio ao fim. Por falar em Savages, duas vezes nomeados para o Mercury Prize, mal Beth terminou estava a ter início o concerto do vencedor de 2018 do prestigiado prémio: Wolf Alice. Ouvimos dizer que estariam deslocados neste dia do cartaz. É uma leitura que nos escapa. Deram um excelente concerto e, se é certo que a grande massa do público só entrou em campo com o último tema, “Don’t Delete The Kisses”, de longe o maior êxito da banda inglesa, o quarteto liderado por Ellie Rowsell teve atitude rock de sobra para impor o seu indie reflexivo, por vezes etéreo, por vezes ensimesmado. O alinhamento dividiu-se pelos quatro discos, com maior enfoque no último, The Clearing (2025), e chegou a parecer a missa que estava prometida para o dia anterior, com Nick Cave & The Bad Seeds (mas esse foi toda uma outra dimensão). Como diz a canção, estamos de joelhos perante esta “formidable cool”.

Arlindo Camacho, Nos Alive
Sara Hawk/Nos AliveWolf Alice

Foo Fighters. Ora bem, Foo Fighters. Deram-nos 24 temas e a mais não eram obrigados. Foram aproximadamente 125 minutos de espectáculo sempre em altas. Quando ainda íamos no primeiro quarto de hora, Dave Grohl já pingava. Pat Smear já estava com aquele seu sorriso característico que, aos 66 anos, continua a dar-lhe um ar jovial e parece indiciar que décadas e décadas depois continua sem acreditar que dezenas de milhares de pessoas saíram de casa para o ver. A primeira vez que estiveram ambos aqui, na zona de Lisboa, foi em 1994, naquele que foi o único concerto de Nirvana em Portugal. E Dave Grohl fez referência a essa visita, antes de anunciar um tema creditado à histórica banda de Seattle mas que é, de facto, inteiramente dele: “Marigold”. Para todos os efeitos, houve Nirvana em Algés. Tal como houve Motörhead (“Ace of Spades”) no meio de “No Son of Mine”.

Foo Fighters, Nos Alive
Sara Hawk/Nos AliveFoo Fighters

Estamos a adiantar-nos. O reconhecimento foi feito com “All My Life”, para aquecer. Ao segundo tema, “The Pretender”, não era preciso aquecer mais. Estava tudo bem quentinho. Ao terceiro, “Times Like These”, um apontamento no bloco de notas: que sequência de abertura arrasadora! Em retrospectiva, devemos reconhecer a ingenuidade. Se arrasador é o adjectivo para o arranque, dizemos o quê sobre “My Hero”, “Learn to Fly” e “These Days”? E sobre “Big Me”, “Monkey Wrench” e, ah-ah-ah (riso nervoso), o estalo de “Breakout”? E depois sobre o tríptico final “Best of You” (que a audiência não queria deixar acabar), “Exhausted” e, inevitavelmente, “Everlong”? Temos de escolher melhor as palavras.

Pelo meio ainda houve tempo para uma lição de história do rock, com um medley de No Use For A Name, Sunny Day Real Estate, The Wallflowers, The Germs, The New Regime, projectos anteriores dos elementos da banda, respectivamente de Chris Shiflett, Nate Mendel, Rami Jaffee, Pat Smear e Ilan Rubin. Este último, que no ano passado vimos neste palco, com Nine Inch Nails, é a mais recente contratação dos Foo Fighters e a banda deu-lhe todo o espaço e destaque para se apresentar condignamente aos fãs, com uma câmara vertical sobre o kit, dois solos de bateria e, quando Grohl assumiu as baquetas (o que costumava fazer com Taylor Hawkins), para a parte do tema de The New Regime, Rubin mostrou que é também um guitarrista virtuoso. Grohl foi-lhe dirigindo uns merecidos elogios e, no final, afirmou que este concerto tinha sido “the best fucking way” para terminar a tour europeia. A digressão, não a noite. A seguir, disse, tinham de ir dançar com Zara Larsson. De acordo.

O sol da uma e um quarto

Havia dois tipos de pessoas no segundo dia de Nos Alive: os fãs de Foo Fighters e uma legião de Gen Z (predominantemente), ansiosa por ver Zara Larsson. A vida foi bem mais dura para o segundo grupo, que teve de esperar até às 01.15 para ver a estrelinha de 28 anos subir ao palco. Fez lembrar a edição de 2019, em que, também no Palco Heineken, Robyn foi igualmente chutada para a madrugada do dia seguinte. Claramente a organização vê as popstars suecas como uma espécie de afterhours. A diferença é que as cantigas de Larsson, sobretudo as do último álbum, são do mais feliz e solar que vai passar pelo festival e tinham ficado espectaculares num pôr-do-sol de Julho. Nada a fazer quanto a isso.

Zara Larsson, Nos Alive
Hugo Macedo/Nos AliveZara Larsson

A multidão resistiu – sim, porque a tenda não só encheu como transbordou. Tudo para ver a sensação da pop europeia. Importa dizer que Zara Larsson não é uma novata. Tem uma carreira com cinco álbuns, o primeiro editado em 2014. E, já que o futebol é um tema, chegou mesmo a emprestar a voz ao hino oficial do Europeu de 2016. Não se pode dizer que teve uma carreira super bem sucedida (a própria já o admitiu), mas o último disco – Midnight Sun, Setembro de 2025 – foi claramente um ponto de viragem. Sim, ao fim de mais de uma década na música, Zara desabrochou e caiu nas graças do grande público. Tudo por conta de uma mão-cheia de canções orelhudas e dançantes, que trazem ao de cima o melhor que a pop tem para oferecer. Depois, claro, a imagem. Midnight Sun acordou a girlie y2k (de corsários de ganga e top fluorescente) que há dentro de cada um de nós e isso chega a ser terapêutico. Zs e Alphas vão achar giro, Millennials vão ficar nostálgicos.

O concerto foi maioritariamente alimentado pelo novo disco, embora salpicado por temas anteriores como “Never Forget You” e “Symphony”, faixa que o público cantou a plenos pulmões. No palco, Zara é a miss simpatia da Suécia. Comunicativa e sorridente, cumpriu a tradição de chamar um fã ao palco. Deram dois dedos de conversa, ofereceu-lhe uma t-shirt personalizada no momento com tinta de spray e juntos executaram a coreografia de “Lush Life”. Durante mais de uma hora, cantou a plenos pulmões, afinada não obstante os esquemas coreográficos e acompanhada apenas por mulheres – na banda e no corpo de baile. Temas como “Crush”, “Blue Moon”, “Pretty Ugly”, “Hot & Sexy” e “Eurosummer” foram aquecendo a plateia. Esta, no entanto, permaneceu morna, quiçá pelo avançado da hora. Resta acreditar que, apesar do fraco entusiasmo, a juventude do Passeio Marítimo de Algés regressou a casa de coração quente. O sol da meia-noite brilhou por duas vezes (abriu e fechou o concerto), um fenómeno celestial que dificilmente voltaremos a ver na vida.

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