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"Todas as pessoas têm um chapéu que lhes fica bem." A histórica Lord está de volta

Abdicou do selo de Loja com História e de 84 anos no espaço marcante da Rua Augusta, desenhado por Keil do Amaral. À procura de um "bairro", encontrou casa em Alvalade.

Rute Barbedo
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Rute Barbedo
Jornalista
Ana Silva, na Lord
Rita Chantre | Ana Silva, na Lord
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31 de Março de 2023. A loja de gaveto com a Rua Augusta, desenhada por Alfredo Keil do Amaral e que vendia sapatos e chapéus desde 1941, fechou portas. Foi um baque para os clientes mais antigos. Maior ainda para Ana Silva, que recebeu a chave e a responsabilidade da casa aos 17 anos, década de 90, pelas mãos do pai, Mário, fundador da Godiva e proprietário da Sapataria e Chapelaria Lord a partir de 1993. A Lord fechou na Baixa mas não foi o fim. "Tínhamos em mente que não morreria ali", conta a actual cabeça do negócio à Time Out, no novo espaço de Alvalade, onde resolveu recomeçar a história. "Queríamos encontrar um lugar simpático, como este, onde pudéssemos continuar a nossa filosofia e a nossa forma de estar, que é ter tempo para o cliente, manter este tipo de relações. É essa a nossa escola", afirma.

O "lugar simpático" apareceu numa antiga e pequena loja de malas da Avenida da Igreja, via central do comércio de Alvalade, mas nem por isso imune às vagas da actualidade, como a substituição dos pequenos negócios locais por grandes grupos. "Nestes dois anos, depois de termos fechado a Lord na Baixa, foram aparecendo alguns espaços, em Benfica, Alvalade, Campo de Ourique... O que nós queríamos era um bairro lisboeta", precisa Ana Silva. 

Ana Silva, na Lord
Rita ChantreAna Silva, na Lord

Em Alvalade, a parte da sapataria caiu, até porque a loja inaugurada a 20 de Outubro é bastante menor do que a da Rua Augusta e também porque a Godiva (da mesma família, nas Avenidas Novas e remodelada em 2018) já toma conta dos pés. Os chapéus, por sua vez, mantêm a qualidade, tentando-se inovar aqui e ali sem perder "o chique" e a identidade. São "clássicos com alguma modernidade", como resume a gerente.

Chapelaria Lord
Rita ChantreChapelaria Lord

Nas vitrines, prateleiras e ganchos (que, tal como os espelhos e outras peças, vieram da antiga Lord), há cocos, caps, cartolas, boinas bascas, bonés, cattles ou "chapéus à Hepburn", dando-se primazia ao fabrico português (de São João da Madeira), mas também deixando entrar peças de Itália, Inglaterra ou Espanha. "Do que nunca abrimos mão é da qualidade. Não podemos defraudar os nossos clientes." Os clientes são hoje um misto de quem costumava ir à Baixa, de outros amantes do chapéu e de quem nunca teve coragem de usar um. "Às vezes, aparecem aqui a dizer que os chapéus não lhes assentam bem, que não têm rosto para os usar, mas o que eu respondo sempre é: todas as pessoas têm um chapéu que lhes fica bem. O que é preciso é experimentar. E nós fazemos esse acompanhamento", explica a proprietária. 

A decadência da Baixa

Questionada sobre os motivos que levaram a família a abandonar a Rua Augusta, Ana Silva confirma a sujeição a uma "grande pressão imobiliária". "O prédio já tinha sido vendido e nós éramos os únicos no edifício, com contactos muito persistentes do senhorio. Mas fizemos o que o meu pai sempre disse: 'Se um dia tiverem de sair, fiquem até ao fim, sejam os últimos'." Ainda assim, fosse esta pressão a única e talvez tivessem resistido mais tempo. Estavam protegidos de despejos e de aumentos de renda pela lei, dada a relevância histórica no comércio lisboeta, porém, "a distinção das Lojas com História não alteraria em nada o que se passava à volta", alerta a gerente. E o que se passa na Baixa, quanto a si, é a descaracterização, a perda de interesse e de charme, mas também de segurança. 

Antiga Lord, na Rua Augusta, já depois do fecho
Francisco Romão PereiraAntiga Lord, na Rua Augusta, já depois do fecho

"Todos os dias tinha de ir à Polícia, porque havia uma pessoa sem-abrigo a dormir à porta da loja. Não tinha nada contra ela, percebo este tipo de situações, mas como podia manter o negócio assim? Depois, tínhamos de estar de olho nas malas dos clientes se as pousassem perto da porta para experimentar algum sapato ou chapéu e, aos sábados, além das esplanadas e dos caixotes do lixo a transbordar ali ao lado, vinha a venda de malas de contrafacção, mesmo em frente à nossa montra. Portanto, manter a loja aberta tornou-se um exercício muito difícil", explica.

Lord, Alvalade
Rita ChantreLord, Alvalade

O caos montou-se sobretudo a seguir à pandemia, situa a proprietária, chamando a atenção para o facto de Lisboa não se ter preparado para "receber este volume de pessoas". Somando-se a falta de planeamento, a consequência foi óbvia e rápida: "A Rua Augusta perdeu o chique, o requinte. E penso que não interessa a quem vem visitar Lisboa ver as mesmas lojas na Baixa que se vêem num terminal de aeroporto. Antigamente, ver as montras naquelas ruas era um programa. Agora, tudo o que abre não é para melhor, além de ser igual ao vizinho do lado. A longo prazo, a cidade perde", defende. 

Foi também no sentido de contrariar esta perda progressiva que a Lord decidiu não fechar de vez, procurando ainda a continuidade nos filhos de Ana Silva, netos de Mário, que morreu em 2005. "O meu pai passou-me esse amor por esta área e eu tento passá-lo também", remata a proprietária. Se os filhos vão ficar com a Lord, logo se verá.

Avenida da Igreja, 8D (Alvalade). Seg-Sáb 10.00-19.00

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