vinhos do pico
Time Out Lisboa
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Vinhos da Ilha do Pico: um terroir fascinante no meio do Atlântico

Lava engarrafada: quatro vinhos únicos que capturam a alma vulcânica, o sal do Atlântico e a frescura cortante do Pico.

Liana Saldanha
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Chegar ao Pico, nos Açores, é como desembarcar noutro planeta. O clima húmido e o contraste entre o verde vibrante das plantas, o azul intenso do mar e o negro das lavas cria uma atmosfera poética, bucólica, dramática – como muitos gostam de descrever. Não podemos esquecer a magia que é ver a montanha do Pico pela primeira vez. Confesso: eu chorei.

As vinhas do Pico não se alinham em fileiras verdes. Crescem dentro dos currais – muros de pedra negra de basalto, dispostos em pequenos retângulos que, vistos de cima, lembram um labirinto. Cada pedra desses muros é, na verdade, um registo vivo de quem trabalhou aquela terra, geração após geração, ao longo de mais de cinco séculos. Se não fosse esta malta resiliente e batalhadora, talvez hoje não houvesse nem vinhas, nem este artigo que está agora a ler. Uma tradição tão poderosa que a paisagem da cultura da vinha da ilha do Pico é reconhecida como Património Mundial da UNESCO.

Beber um vinho do Pico é provar uma história de resistência, beleza bruta e ligação profunda com a natureza. É sentir no paladar o equilíbrio improvável entre mar e lava, vento e pedra, tradição e futuro. As castas rainhas da ilha (Arinto dos Açores, Verdelho e Terrantez do Pico) são representantes da sua identidade e dão origem a vinhos minerais, com frescor vibrante e uma estrutura em boca que parece ecoar a própria rocha vulcânica onde nasceram.

Temos que falar sobre o porquê dos preços elevados destes vinhos: a colheita é 100% manual nos currais de lava, a vinha dá pouquíssimas uvas por hectare e a procura global por esta raridade vulcânica está super crescente, transformando os vinhos do Pico num produto premium.

Quer provar essa magia vulcânica? Separámos quatro garrafas do Pico para descobrir. 

Recomendado: Harmonização – quando o vinho dança com a comida

Vinhos da Ilha do Pico

Picowines - Verdelho 2022

Durante um almoço na Ilha, este belíssimo vinho branco acompanhou lindamente a refeição desde as entradas até os pratos principais. Tem estrutura e leveza ao mesmo tempo. Senti aromas de frutas cítricas, mas também de iodo, na boca tem um bom corpo e uma salinidade deliciosa. Feito a partir de vinhas muito antigas e com apenas 3849 garrafas produzidas, é excelente para conhecer e entender a casta Verdelho em solo picaroto (adoro este termo).

PVP:29,90€

Isabella a Proibida by António Maçanita Tinto 2018

Isabella é um híbrido entre uma casta europeia e uma americana, fora da linhagem clássica da Vitis vinifera. Nos Açores, o “vinho de cheiro” é consumido há mais de 150 anos, usado na cozinha e nas festas tradicionais. A variedade chegou depois do oídio e da filoxera destruírem as vinhas clássicas no século XIX. Maçanita deu-lhe palco, valorizando a componente cultural e o papel da Isabella no folclore local. O resultado é um tinto leve, fresco, 11% de álcool, com aromas de morango, frutas tropicais e um toque salino. Autêntico, rebelde e fácil de beber.

PVP: 15,25€

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Entre Pedras - Efusivo Branco 2023

Aqui temos um blend das 3 castas brancas rainhas da ilha, proveniente de vinhas velhas (50-100 anos). O resultado é mineral, salino, com a energia de um vulcão. Pelo contacto que teve durante seis meses com as borras finas (leveduras que morreram depois da fermentação), resultou numa textura cremosa que dá um match absoluto com a acidez intensa. Mais um vinho que pode acompanhar uma refeição completa, mas se for para afunilar a harmonização, sugiro as clássicas gambas ao alhinho com azeite – uma combinação infalível!

PVP:29,90€

Picowines Lajido Dry 2004

Eu sou louca por fortificados, quando ainda têm um carácter mais seco, como este exemplar. Provei este vinho com sobremesa e achei que perdeu muito com o açúcar do prato. Ficaria bem melhor com uma bela tábua de queijos portugueses. Como é um vinho de Verdelho com envelhecimento de 18 anos em barrica de carvalho americano, com um grau alcoólico de 17,5%, aconselho a servir uma dose e beber com calma, prestando atenção à frescura e às ricas camadas de caramelo, terra molhada, algas e todas as outras que deixo a vosso critério.

PVP:79,50€

Outros copos

“Strawberries, cherries and an angel’s kiss in spring,
my summer wine is really made from all these things…”

Se há uma música capaz de descrever um vinho perfeito para o Verão, é "Summer Wine": aromas de morangos e cerejas, com a delicadeza que só um beijo de um anjo poderia ter. A estação mais quente do ano pede vinhos que refresquem sem pesar, que tenham acidez viva, aromas de fruta fresca, toques herbais ou florais e, acima de tudo, que combinem com a leveza dos dias longos e das conversas sem pressa.

Não há como começar este artigo sem explicar o que são os vinhos fortificados doces: são vinhos que têm a sua fermentação alcoólica interrompida pela adição de aguardente, o que faz com que parte do açúcar natural da uva, que normalmente se transformaria em álcool, permaneça no vinho. Agora sim, o leitor está preparadíssimo para as dicas de fortificados doces que aí vem. 

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Ó mar salgado, quanto do teu sal está nos vinhos de Portugal! Tão portugueses quanto o poema de Fernando Pessoa – que tive a audácia de adaptar – são os vinhos atlânticos salgadinhos que a paradisíaca costa portuguesa proporciona. O Oceano Atlântico é o principal responsável por conferir características únicas aos vinhos produzidos junto ao mar de Portugal. Muitas vezes, são descritos como vinhos salinos; outros preferem dizer que são minerais, mas o que importa é que o salgadinho é bom e, com cada golo, vem a sensação de que acabámos de dar um mergulho refrescante no mar.

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