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Carlos J. Pessoa, Teatro da Garagem
Manuel Manso Carlos J. Pessoa

Carlos J. Pessoa: “Não temos respostas, mas temos responsabilidades”

"Aceleração", que se estreia quinta-feira, celebra os 30 anos do Teatro da Garagem. Desculpa ideal para conversar com o seu director artístico, Carlos J. Pessoa.

Por Miguel Branco
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Não são uma banda que nunca chegou a palco. Pelo contrário, começaram numa garagem e 30 anos depois mantêm algum desse espírito inconformista. “E não é o inconformismo pelo inconformismo, é para ver se isto melhora”, esclarece Carlos J. Pessoa, director artístico do Teatro da Garagem, desde 2005 situado no Teatro Taborda, na Costa do Castelo. Em jeito de comemoração, estreiam Aceleração – em cena de quinta-feira a domingo – um espectáculo que junta pessoas dos 4 aos 70 anos e que aglomera muito do seu sentido cívico, com integrantes dos seus três clubes de teatro: júnior, jovem e sénior. Três décadas de vida é também uma idade de continuar a convocar para si responsabilidade.

Fazem 30 anos e estreiam um espectáculo chamado Aceleração. Aos 30 anos não se devia começar a abrandar?
Exacto.

Mas vocês estão a fazer o contrário.
Sim, é essa a ideia. A aceleração como sobressalto cívico, o que quero dizer com isto é que aqui na Garagem sempre entendemos o teatro como serviço público, e isto significa que estamos ao serviço das comunidades e estamos a tentar dar o nosso contributo enquanto artistas, não temos respostas mas temos responsabilidades. Estamos a viver uma época de aceleração histórica em que há uma espécie de colagem no Estado, no sentido das instituições que nos representam; todos os dias lemos notícias de falhas no processo democrático, nada é confiável. A revolução digital como que introduziu uma aceleração tal que as coisas saíram do controlo. Há 30 anos tínhamos por garantido que as instituições funcionavam, a igualdade de oportunidades para as pessoas, ou pelo menos tínhamos essa expectativa.

Este título, Aceleração, tem também relação com uma ideia muito actual de tempos vorazes e de um teatro feito a um ritmo alucinante, com pouco tempo de ensaio...
Acho que há um delírio do novo, uma espécie de exorbitância, ainda hoje estava a ler que o museu com mais sucesso em Nova Iorque actualmente é o New Museum, um museu que fala do novo. Quer-se chegar ao antigo através do novo. Ora, acho que é precisamente o contrário, a gente só compreende o novo a partir do antigo, e essa aceleração não deixa de ser uma chamada de atenção, depois a gente espatifa-se todo porque não sabe travar.

Podemos recuperar as circunstâncias em que o Teatro da Garagem é criado?
Foi criado numa garagem, num sítio chamado Monte Trigo, ao pé de Abóboda, São Domingos de Rana, Carcavelos. Completamente suburbano, era o espaço que tínhamos e era um sítio muito precário. Nunca mudámos o nome porque sempre quisemos ser assim, sempre quisemos manter uma independência, há uma solidão necessária, um sacrifício para chegar a uma lucidez, tentamos não nos deslumbrarmos, achamos que o teatro é muito mais importante que o Teatro da Garagem e que a vida é muito mais importante que o teatro. Nunca nos quisemos pôr em bicos de pés, nem seguir as modas, isso não. Não por uma questão de arrogância, mas por sentirmos que temos direito à nossa voz, não queremos ser Avignon ou Edimburgo.

Vêm para o Teatro Taborda em que ano?
Em 2005 ou 2006. Ninguém queria isto, estava cá o Jorge Silva Melo, dizia cobras e lagartos disto e foi-se embora. Foi proposto a mais não sei quantas estruturas e toda a gente dizia que não queria, que era horrível porque não tinha parque de estacionamento e assim, que era muito mau. E nós na altura achámos que era ao contrário, que pelo menos estávamos no meio da cidade, na altura não havia esta gentrificação, era um bairro diferente. Fomos muito bem recebidos. Não sei se continuaremos aqui, o café está muito na berra e eu não gosto disso. Temos de pensar se faz sentido continuar, porque na altura era uma zona maldita, eagora é uma zona de moda.

O panorama teatral português como é que estava quando começaram?
Era muito semelhante ao de hoje: colonizado. Aquilo que se fazia era ir lá fora ver como é que os outros faziam e imitar mais ou menos. Hoje em dia não é muito diferente. Quem viaja sabe disto. Só que hoje em vez de se fazer teatro de repertório, que era o que se fazia, fazem-se performances, transdisciplinares, teatro documental, e isto com todo o respeito por toda a gente que acho admirável.

Apostaram pouco no repertório, por exemplo.
Já fizemos. Sentimos, a certa altura, que o repertório podia ser revisitado de outra maneira. Fizemos Shakespeare, Büchner, Ésquilo, sentimos uma urgência em revisitar esse material sem ser de uma maneira museológica. Mas a partir do momento em que isso se tornou moda não fizemos mais. Não faz sentido andarmos todos a fazer o mesmo. Perdeu-se uma coisa, para mim, que é fundamental no teatro de repertório, que é a duração, é uma peça que tem que ser feita na sua integralidade e não uma versão com bateria para aquilo saltar. E nesse sentido a Cornucópia é insubstituível, tinha um papel fundamental, eles apresentavam as versões integrais dos textos, e podia-se perceber o que era o romantismo alemão, o teatro clássico francês.

Um trabalho que, se calhar, devia ser feito pelos teatros nacionais.
Claro, já disseste tudo, não fui eu que disse. Nós tentamos dar respostas às questões que se colocam. Não temos uma estética, temos uma forma de fazer. Não nos cabe a nós dizer quem foi Homero, Bach, Beckett.

No início, falou de serviço público. Queria convidá-lo a falar sobre o serviço educativo. Têm três clubes de teatro: o júnior, o jovem e o sénior.
É fundamental para nós, são coisas que nos dão. De repente, temos as pessoas [connosco]. No outro dia, [estávamos] a ensaiar, apareceu uma senhora, a Júlia Catita, de 63 anos e que é de Matos Cheirinhos, que é mesmo ali ao lado da Abóboda, onde a Garagem nasceu, e ela apareceu aqui. Achei extraordinário. A gente sente que não está a fazer teatro em vão, para o umbigo, para os amigos. O serviço público é fundamental para não andarmos aqui todos numa espécie de bolha. Há uma responsabilidade nisto. É um lugar de cidadania.

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