Dia Mundial do Teatro: quem fica por trás da cortina

Esta terça-feira, 27 de Março, assinala-se o Dia Mundial do Teatro e nós fomos atrás de cinco pessoas essenciais na criação, que por norma estão na sombra.

Rui Seabra, iluminador

São elementos-chave no xadrez de um espectáculo, porque o palco não é só dos que dizem, mas também dos que dão licença para que se diga.

Esta terça-feira, 27 de Maço, assinala-se o Dia Mundial do Teatro e essa é a razão pela qual, em jeito de homenagem, trazemos para a luz cinco artistas que habitam os bastidores. Uma cenógrafa, um sonoplasta, um director de cena, um iluminador e uma ponto que trabalham com vários encenadores e estruturas teatrais – e têm boas histórias para contar. Ora leia. 

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Marta Carreiras
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Marta Carreiras

Cenógrafa, 43 anos

Quem mete o dedo no ar, normalmente, tem sorte: “Estava numa aula no Conservatório quando entra uma senhora e pergunta, muito séria: ‘Quem é que quer trabalhar?’”. Essa senhora era Natália Luiza, membro da direcção artística do Teatro Meridional, onde Marta Carreiras é cenógrafa há vinte anos. E ainda que trabalhe, pontualmente, com outras pessoas (Nuno Pinto Custódio, Bruno Cochat, Diogo Infante) é natural que seja “a Marta do Meridional”, e, dizemos nós, que o Meridional seja também o Meridional da Marta. A estética dos espectáculos da companhia, que em 2017 celebrou 25 anos, tem sempre que ver com a sua proposta. E esta coisa da cenografia, diz-nos, não é fechar os olhos e esperar pela ideia. “É diálogo, é confronto, é angústia. Um dia achas que tens a ideia certa, vens aqui e não é. Com os anos vais conseguindo não ter apego a uma ideia, mas é difícil... esta coisa da criação obriga-te a ir a um sítio qualquer para teres outra ideia”, confessa. Aqui estava a montar o espectáculo Dona Rosinha, A Solteira ou A Linguagem das Flores, de Lorca, que estreia esta quarta-feira nos Recreios da Amadora (e depois irá para o Meridional) com encenação da tal senhora, Natália Luiza. 

Sérgio Delgado
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Sérgio Delgado

Sonoplasta, 45 anos 

Músico que é músico começa sempre na garagem. Tal como Sérgio Delgado, sonoplasta de companhias como os Primeiros Sintomas ou o Teatro do Eléctrico, mas que em 1996 começou no Teatro da Garagem. “Foi aí que começou a crescer a coisa. Mais do que ser músico, ser músico de cena. É diferente, tens de estar sempre em sincronia com a cena, em contracena com os actores, com a energia que se pede, sobretudo quando tocas durante o espectáculo”, conta Sérgio. O mesmo que nos explica que se divide entre sonoplastia e composição original, duas ocupações de quem, como ele, toma conta do som do espectáculo. “A sonoplastia engloba desde ambientes sonoros, ruídos, ou coisas mais realistas, até à parte de técnico de som, microfonia, desenho de som. A composição original é mais exigente, tens de puxar mais pela criatividade, é um bocado aquela imagem em branco que me faz pensar: o que é que eu vou fazer?” E sim, dá para perceber, é um trabalho solitário. “Sim, mas é solitário no bom sentido, preciso disso”, conclui. Nos próximos tempos pode ouvir o seu som em espectáculos de Cristina Carvalhal, Sandra Faleiro e Bruno Bravo. Caluda. 

Rui Seabra
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Rui Seabra

Iluminador, 40 anos

Apanhámos Rui Seabra no andaime porque o teatro é assim, “temos que arrumar a casa quando vem um novo espectáculo”, diz-nos. E este, em particular, é Ivone, Princesa de Borgonha, que se estreia esta quarta-feira no Teatro do Bairro, com encenação de António Pires e luz de Seabra. Embora este seja um iluminador sem casa fixa, que começou no Porto (sobretudo com Nuno Meira, nos Assédio) e que pouco tempo depois se veio fixar em Lisboa, no Teatro da Cornucópia. Daí que agora lhe falte um tecto constante: “Não posso deixar de dizer: não sei como é que foram capazes de deixar cair a Cornucópia. Lá era tudo à moda antiga, os projectores subiam à mão, não havia varas motorizadas, tudo puxado a cordas e o pensar de todo o conjunto era mesmo diferente. Fora da Cornucópia não há tempo, é tudo para ontem”, desabafa. Mas a vida continua. Além de trabalhar com António Pires, tem trabalhado com o Teatro da Cidade e o Museu da Marioneta. E sim, na luz também o diálogo com o encenador é essencial: “Ou tu estás em sintonia ou não estás e aí é que tem que haver uma espécie de cedências”, comenta, quase a sugerir uma relação amorosa. 

Zé Grande
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Zé Grande

Director de Cena, 39 anos

“Pessoal, fora de cena quem não é de cena”. Mal chegamos ao ensaio geral de Banda Sonora (peça de Ricardo Neves-Neves e Filipe Raposo, que esteve em cena até domingo no São Luiz) ouvimos Zé Grande a meter as coisas em ordem, isto depois de deitar terra na floresta que habitava o cenário. E é isto. Tudo: “É um bocado a coordenação de todas as áreas na altura de ensaios e espectáculo. É afinar todas as linguagens que ali se encontram, tentar dar aos criativos aquilo que é possível tecnicamente. É quase o papel do maestro numa orquestra, todos os músicos sabem o que vão tocar, mas não deixa de ser bom ter alguém que vai marcando o ritmo do espectáculo, que garante que está tudo bem”, diz. E nós, que lá estivemos, garantimos que a coisa tem o grau de dificuldade de uma maratona, uma tremenda correria. Está no São Luiz há 14 anos e ainda não se cansou de “resolver problemas”. E recorda, naturalmente, a passagem de Pina Bausch por esta casa, bem como do Teatro Oficina, que, sem aviso prévio, o deixou nu em palco, durante 40 minutos. “Durante o espectáculo eles escolhiam sempre alguém do público e despiam essa pessoa. No dia da estreia uma assistente deles andou sempre atrás de mim a oferecer-me vinho e eu não estranhei, eles bebiam sempre. Mas depois lá percebi.”

Cristina Vidal
Fotografia: Manuel Manso
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Cristina Vidal

Ponto, 61 anos

A coisa começa assim: “Já vi que tem uma máquina cara, aviso já que a vai estragar”, diz Cristina Vidal ao nosso fotógrafo. E a brincar se chega ao assunto – é que Cristina Vidal leva 40 anos de sombra, de bastidores, a soprar palavras para as brancas dos actores. Assim se faz uma ponto. Mas não só: “Temos de acompanhar todo o processo dos actores no decorar do texto, nas marcações de cena, nas indicações do encenador”, enquadra. Está no Teatro Nacional D. Maria II desde 1990 e antes disso havia passado por vários teatros da cidade. Recentemente foi notícia com Sopro, espectáculo de Tiago Rodrigues que se baseia em algumas histórias da sua vida para fazer uma homenagem aos profissionais do teatro, onde está literalmente em cena, num lugar pouco confortável e que reconhece ser muito difícil. Daí a sua admiração pela espécie actores. “São seres maravilhosos, que podem ter um humor tramado. Mas agradecem sempre que os ajudas, já me disseram: ‘‘Ainda bem que me ajudaste que eu ficava lá a passar o Natal’”. Ponto.

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