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Auto-retrato de Aurélia de Sousa
©DR"Auto-retrato" (1900), pintura a óleo de Aurélia de Sousa

Cinco mulheres marcantes da história do Porto

Escolhemos cinco mulheres que marcaram a história da cidade, cada uma à sua maneira.

Escrito por
Renata Lima Lobo
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São cinco, mas podiam ser muitas mais. Especialmente se tivermos em conta que muitas mulheres viveram na sombra dos acontecimentos históricos, pelo menos na informação que chega aos dias de hoje, relegadas para segundo plano nos destaques da imprensa, na biografia literária ou nos documentos históricos que recheiam arquivos de todo o mundo. Mesmo assim, contra todas as probabilidades, muitas mulheres conseguiram romper convenções, lutaram pelos seus direitos ou correram por um sonho. Conheça melhor cinco grandes mulheres que se destacaram na sua área, da pintura à música ou desporto.

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Antónia Adelaide Ferreira

1. Antónia Adelaide Ferreira

Nasceu na Régua em 1811, no seio de uma família abastada dedicada ao cultivo da vinha na Região do Douro. Ficou viúva aos 33 anos, altura em que assumiu as rédeas da Casa Ferreira, fundada pelo avô, e começou a sua carreira de empresária de sucesso num mundo dominado por homens. Expandiu o negócio com novas quintas e armazéns, contratando mais trabalhadores para os quais, dizem, era generosa. Conhecida como Ferreirinha e também como “mãe dos pobres”, supervisionava pessoalmente a produção das suas dezenas de quintas na região e foi um grande exemplo de empreendedorismo. Numa altura em que se abatia uma praga de filoxera entre os vinhedos, promoveu o desenvolvimento da investigação de processos mais modernos na produção de vinho. Mas também sofreu amarguras. Como a ameaça do rapto da sua filha Maria da Assunção pelo Duque de Saldanha (então presidente do Conselho de Ministros), que a queria casar com o seu filho, matrimónio não autorizado por Maria Antónia, que fugiu para Londres para o evitar, em 1854. Não sem antes publicar um "Protesto" na imprensa local, dando origem a um escândalo público. Na Rua Alto de Vila, na Foz Velha do Porto, ainda se pode ver a sua antiga casa de praia, um palacete recentemente convertido em apartamentos de luxo.

Guilhermina Suggia

2. Guilhermina Suggia

Há uma Sala Suggia na Casa da Música do Porto, um Prémio Internacional Suggia e uma Rua Guilhermina Suggia, na zona das Antas, tudo homenagens da cidade àquela que foi uma das figuras mais relevantes na história da música portuense. A violoncelista, nascida em 1885 na cidade Invicta, era filha do músico Augusto Suggia, o seu primeiro professor de violoncelo e um apoio fundamental que a tornou na primeira violoncelista profissional e a primeira mulher a fazer carreira a solo em Portugal, aclamada em toda a Europa. Integrou o Quarteto Moreira de Sá e também a Orquestra do Orpheon do Porto e em 1901 ruma a Leipzig para estudar no Conservatório com uma bolsa de estudo concedida pela própria Rainha D. Amélia, tendo como professor Julius Klengel. Segundo a sua biografia disponibilizada pelo Instituto Camões, o violoncelista alemão disse sobre a sua formanda: “Sem dúvida não tem havido uma violoncelista com o mérito da artista de que me ocupo, que também não tem nada a recear no confronto com os seus colegas do sexo masculino. Mlle. Suggia, possuindo alta inteligência musical e um completo conhecimento da técnica, tem o direito de ser considerada, no mundo artístico, como uma celebridade”. Toca nas principais salas de concerto da Euopa e, apesar de ter vivido em Londres a partir de 1914, fixa-se no Porto na década de 30 do século passado. Com Maria Adelaide de Freitas Gonçalves, directora do Conservatório de Música do Porto, ajuda a formar, em finais dos anos 40, a Orquestra Sinfónica do Conservatório, apoiando o grupo de violoncelos e participando como solista no concerto de apresentação no Teatro Rivoli. Já doente, um ano antes de morrer, cria em 1949 o Trio do Porto, com o violinista Henri Mouton e o violetista François Broos. Na Rua do Tenente Valadim, em Ramalde, encontra-se uma obra em sua homenagem, criada pela escultora portuguesa Irene Vilar, em 1989.

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Rosa Mota
©Rosa Mota

3. Rosa Mota

“Corre Rosa, corre por Portugal!”. Nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, o comentador desportivo apelava assim à maratonista portuguesa, como relembram os Arquivos da RTP. Rosa Mota pode não ter ouvido, mas correu e correu muito, como sempre. Concluiu a prova com 120 metros de avanço sobre a segunda classificada e para Portugal trouxe a primeira medalha de ouro feminina desta competição, depois de ter conquistado um bronze nos Olímpicos de 1984, em Los Angeles. Já tinha batido recordes nacionais, e conquistado a Medalha de Ouro nos Europeus de 1982 e 1986, em Atenas e Estugarda, e no Campeonato do Mundo, em Roma, no ano de 1987. É uma figura incontornável do atletismo português e é especialmente acarinhada no Porto, onde lhe chamam Rosinha. Em 1991, o pavilhão desportivo e cultural dos Jardins do Palácio de Cristal passou a chamar-se Pavilhão Rosa Mota.

Sophia de Mello Breyner Andresen
©Bottelho

4. Sophia de Mello Breyner Andresen

Teve uma vida dividida entre o Porto e Lisboa, mas foi a Norte que nasceu em 1919, na zona do Campo Alegre. Sophia foi a primeira mulher portuguesa a receber o Prémio Camões (1999), o mais importante galardão literário da língua portuguesa, e a segunda mulher a ser transladada para o Panteão Nacional, em 2014, apenas precedida por Amália Rodrigues, em 2001. Aquela que foi a casa dos seus avós entre 1895 e 1930 foi uma das suas primeiras fontes de inspiração para os seus contos e poemas, um palacete vermelho conhecido como Casa Andresen, localizado no actual Jardim Botânico do Porto (ex-Quinta do Campo Alegre) e um imóvel restaurado para acolher em 2012 a Galeria da Biodiversidade, da Universidade do Porto. Uma selecção de conteúdos organizados pela filha Maria Andresen Sousa Tavares, e divulgados pela Biblioteca Nacional, revela que, no conto Saga (1989), a poeta expressa o desejo de ser montado no átrio da casa o “esqueleto da baleia que há anos repousava, empacotado em numerosos volumes, nas caves da Faculdade de Ciências, por não haver lugar onde coubesse armado”, o que veio a acontecer em 2016. Mudou-se com a família para a Travessa das Mónicas em Lisboa em 1951, cidade onde morou até morrer. Também participou activamente na vida política do país, primeiro como opositora ao Estado Novo, juntamente com o marido Francisco Sousa Tavares, e após o 25 de Abril é eleita deputada nas listas do Partido Socialista.

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Aurélia de Sousa
©O Século

5. Aurélia de Sousa

Até ao século XX, foram poucas as mulheres portuguesas que encontraram o seu merecido lugar de destaque no mundo das Belas-Artes. A pintora Aurélia de Sousa nasceu longe, no Chile, em 1866, por ser filha de emigrantes portugueses. A família regressa a Portugal quando tinha três anos de idade e passa a morar na Quinta da China, nas margens do rio Douro. Com 16 anos, começa a ter aulas particulares de desenho e pintura, mas as portas para exposições começam a abrir-se após ingressar na Academia Portuense de Belas Artes. Chegou a estudar em Paris na Academia Julien, onde expôs e vendeu trabalhos, e é em 1900 que pinta o famoso auto-retrato onde se faz representar com um casaco vermelho, uma obra que hoje faz parte do espólio do Museu Nacional Soares dos Reis. Anos mais tarde, recusa uma oferta para presidir à Sociedade de Belas-Artes do Porto, onde participa em exposições anuais, e em 1921 deixa de ser sócia da instituição, em protesto pelo aumento das quotas e por ter sido fechada a sala de exposições. No site oficial da Universidade do Porto, num arquivo sobre antigos estudantes ilustres, lê-se que a sua obra foi "não raras vezes reduzida por críticos do seu tempo à pintura de flores", embora seja composta por temas tão diversos como o retrato, cenas do quotidiano ou paisagens, "reflexo das suas viagens ou da sua casa e do Porto rural".

Mais sobre a história do Porto:

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Trabalham em ofícios seculares, que não aprenderam na escola, mas que lhes foram passados por gerações anteriores. São vestígios em carne e osso do Porto dos artesãos e das vendedeiras que, em tempos, tomou conta da paisagem e ajudou a construir a identidade de uma cidade trabalhadora. Aquela que ainda é a nossa e que queremos manter viva. Fomos à procura das profissões quase extintas do Porto e deixamos-lhe aqui testemunhos na primeira pessoa de artes quase esquecidas.

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Cidadãos de todo o planeta têm-se insurgido contra representações em bronze e pedra de figuras pouco consensuais no que diz respeito à história dos direitos da humanidade. O rastilho é o conhecido movimento global Black Lives Matter, uma luta já longa demais que clama por soluções para um mundo mais justo entre todos, independentemente da cor da pele. No entanto, não estamos a começar do zero. Em Portugal, há um conjunto de obras públicas que prestam homenagem a vítimas de injustiças cometidas ao longo dos séculos, em território nacional e não só. Fomos visitá-las.

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A Baixa é, seguramente, a zona mais concorrida do Porto mas ainda guarda muitos segredos – senhora que se preze nunca revela tudo. A equipa Time Out andou a farejar a cidade (e alguns livros também) para reunir segredos e curiosidades que divulgou nesta lista. Do passado e do presente, para saber e visitar no futuro. Chame os miúdos, mas também os graúdos, e partilhe estas histórias com os amigos e com a família. Se não aguenta mais a curiosidade, fique a saber que lhe vamos falar da presença de grandes escritores em espaços actuais ou da idade de elementos arquitectónicos de espaços emblemáticos. 

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São páginas e páginas repletas de curiosidades, de expressões que só se usam por cá e de histórias mirabolantes que o vão fazer ver a Invicta com outros olhos. Nesta lista vai encontrar desde lendas, a histórias de imperadores ou de assassinatos. Saiba quais são os melhores livros sobre o Porto.

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