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A terceira e última noite do festival voltou a ter lotação máxima no Passeio Marítimo de Algés. Florence + The Machine deu um óptimo concerto. Lorde foi “brat”. Com Buraka Som Sistema, veio a casa abaixo. Passaram-se dez anos? Ninguém diria.

Buraka! Buraka! Buraka! Quando terminam “Hangover (BaBaBa)”, Conductor, Blaya, Kalaf, Branko e Riot param e ficam só a admirar a multidão. É um momento prévia e devidamente coreografado por muitos músicos em concertos de grande dimensão. Neste sábado à noite, no encerramento do palco principal do Nos Alive, até pode ter sido, mas a ligação entre banda e público foi real. Os Buraka Som Sistema estavam de volta, dez anos depois de terem fechado actividade muito perto do Passeio Marítimo de Algés – nos jardins da Torre de Belém, em 2016. Lá em cima, interioriza-se o momento. Cá em baixo, grita-se. Bonito, embora a plateia devesse ter aproveitado para respirar, como fez a banda. É que estes breves segundos seriam o único descanso na cerca de uma hora e quinze seguinte. A partir daí, pegou fogo.
“Stoopid”, “(We Stay) Up All Night”, “Parede”. Quem pode e sabe leva o rabo ao chão, quem trouxe companhia encosta na parede, o resto põe-se a jeito. “Sentimos saudades disto”, diz Kalaf, que antes já havia feito as devidas apresentações. “Para quem não nos conhece, somos os Buraka Som Sistema. Quem conhece já sabe como é: ninguém fica parado.” Nem é preciso pedir. Quando entra em cena Petty, vinda de Luanda de propósito para a festa, é altura de um dos mais aguardados momentos da noite: “Yah!”, provavelmente o primeiro responsável por estarmos aqui hoje e por o kuduro ter feito vida internacional nas últimas décadas. Editado em 2006, o single continua fresquíssimo e a mexer com o core do povo. A cantora angolana continuaria em palco para mais From Buraka to the World: “Wawaba” e “D...D...D...D...Jay”.
Petty não foi a única convidada. A brasileira Deize Tigrona, que tinha actuado mais cedo no palco WTF, veio fazer-nos um pirete com “Aqui Para Vocês” (a nós, embora em particular a racistas, homofóbicos e genocidas – mandou bem). Impregnado de funk carioca, o tema serviu de rampa de lançamento para “Puro Mambo”, a grande novidade do alinhamento. Um inédito carregado de semba que os Buraka Som Sistema tiraram da manga em Abril deste ano, antecipando este concerto de regresso. Seria, portanto, o menos reconhecido pela multidão e precisaria de chegar à pista – perdão, ao recinto – quando esta estivesse bem quente. Estava. Antes, houve ainda “Komba”, “Eskeleto”, “Vuvuzela (Carnaval)”, “Sound of Kuduro”. O suor já tomava então conta do ambiente. Noutras alturas, seria um odor insuportável. Aqui, prova que esta reunião está a correr às mil maravilhas.
Não há um único momento baixo, assim-assim, nenhuma gordura. Porventura a leitura de Ricardo Araújo Pereira, em vídeo, a lançar “Kalemba (Wegue Wegue)”. Por outro lado, perante o show de Blaya, cuja idade, 39 anos, se escusa a regatear a entrega – em “Toque”, ela dança sem parar, rebola, vai ao chão e faz a espargata múltiplas vezes (“é bom que a SIC faça notícia disto”, brinca) –, perante esse desempenho físico a descompressão até soube bem. “A Buraka é dona do terreno. É dona do terreno. Sai, sai, sai, sai”, tinha-se ouvido em “Tira o Pé”. Neste derradeiro dia do festival, foi mesmo. Sendo certo que ninguém naquele palco conservava a frescura de há 20 anos, seria meio insólito esperar isso deles. Não precisamos de ser jovens para sempre para fazer a festa. Como demonstrava a composição da plateia, a festa faz-se com gente de todas as idades.
Em “Voodoo Love”, o grupo homenageou Sara Tavares, “a arquitecta desta cena toda”. “Lisboa não seria a mesma sem a Sara Tavares”, apontou Kalaf, aludindo ao caractér gregário da cantora e compositora que morreu em 2023. Depois veio “Candonga”. Às tantas, Kalaf pergunta o que andamos a ouvir nos últimos dez anos, se não os tínhamos a eles. Do público chegam as respostas: Branko, Bateu Matou, Blaya, Dino d’Santiago (que estava na audiência). “Estavam bem servidos”, diz o mestre-de-cerimónias. Estávamos, mas isso agora não interessa nada. Venha “Lights Off”, venha “Zouk Fluro”, para fechar em apoteose. O concerto passou a voar. Se o relógio nos informasse de que só tinham passado 15 minutos desde o início, acreditaríamos sem pestanejar. Onde é a próxima festa?
Houve mais festival, mas Buraka Som Sistema subalternizou tudo o resto. Não que Teddy Swims precisasse de ajuda para se diluir na memória do dia. O cantor e compositor norte-americano tem uma enormíssima canção: “Lose Control”. É com ela que fecha o espectáculo e o entusiasmo que gera é palpável no recinto (e mensurável na quantidade de telemóveis ao alto), mas nenhum outro tema se apresenta à altura. O facto de Swims ser detentor de uma voz portentosa é insuficiente. Precisávamos de mais. Isso vê-se na reacção do público: “The Door” é uma óptima forma de começar, mas depois só com uma versão de “Jump” é que volta a haver agitação geral. Dir-se-ia que o orelhudo tema dos Van Halen está no alinhamento como ponto de apoio – e, nesse sentido, está bem metido.
Lorde faz o inverso. Tem um espectáculo cujo rumo nos é impossível adivinhar de uma canção para outra. Imprevisível. Com um dispositivo cénico minimal, no início, vai tomando conta do palco e dando asas à sua fase “brat”, com uma estética devidamente Y2K, de cargo pants, bikini top e t-shirt larga que vai subindo e descendo até sair por completo. Não é só o tema que neo-zelandesa tem com Charlie xcx, “Girl, so confusing”, que canta mais para o final do alinhamento e serve como chave de todo o concerto. Concerto? Talvez performance seja uma palavra melhor. Não no sentido teatral de Bad Bunny, para dar um exemplo que Lisboa tenha visto recentemente; não no sentido de uma produção megalómana, como o de Rosalía, para dar outro exemplo deste ano na cidade. Performance no sentido artsy, mas para dezenas de milhares de pessoas. Performance no sentido de Björk.
A postura de Lorde, todavia, não era distante. Pelo contrário. Era delicodoce. Em demasia. Sobre Lisboa ser “a cidade mais cool” em que já esteve (“o resto da Europa tem ciúmes vossos”), sobre o palco junto ao “oceano”, sobre amores de Verão… Essa postura gerava uma certa dissonância com o espectáculo meticuloso (mas de aparência caótica). Na primeira parte, a sensação que nos provocava era de um certo afastamento, como se uma cortina separasse o palco do público, e de uma certa constrição musical em temas que têm um lado inegavelmente libertador. Como “Royals”, logo a abrir, ou “Buzzcut Season” e “The Louvre”. Lorde parece ter submetido o catálogo ao tratamento sonoro de Virgin, o disco de 2025 que eclipsou o anterior, o inesperado Solar Power (2021). Este nem sequer entrou no alinhamento, ao passo que Virgin teve direito a oito temas, incluindo “David”, “Current Affairs”, “Man of the Year”, “Shapeshifter” ou “What Was That”.
Outra foi “Favourite Daughter”, tocado quando um terço do set estava já cumprido. O que não seria digno de nota, nestes termos, não fosse o caso de termos demorado até esse momento para sentir pela primeira vez o palco devidamente preenchido – por Lorde, pelos seus bailarinos, pelos seus músicos. Nessa altura, o que era desconforto ganhou sentido e conseguimos entrar por fim no espectáculo evolutivo que Lorde trouxe ao Nos Alive. O desconforto manteve-se (“Current Affairs” baralhou logo depois o cenário), mas agora era um desconforto que reconhecíamos e com que conseguíamos trabalhar. Quando “Team” entrou com toda a força, ninguém seria capaz de nos arredar dali. E eventualmente chegaríamos a “Green Light”, um momento de toda a noite, e à apoteose com “Ribs”.
Ponderado tudo, só houve um problema com o concerto de Lorde: obrigou-nos a perder Pixies quase integralmente. Chegámos no fim. Ainda apanhámos “Wave of Mutilation” e a histeria colectiva de “Where Is My Mind?”, mas nada de “Debaser”, “Here Comes Your Man”, “Hey” ou “Gouge Away”, clássicos absolutos que se ouviram no Palco Heineken. Seja como for, com a tenda a abarrotar, sentimos um envolvimento do público assim que nos conseguimos forçar até esta zona do recinto. Já vimos concertos extraordinários de Pixies, já vimos concertos muito aborrecidos de Pixies e, se à partida se estranhava que a histórica banda de Boston fosse empurrada para o palco secundário, a verdade é que parece ter funcionado (e teria sido fácil trocar Pixies com Lorde entre palcos). Aposta ganha.
Acto contínuo, Florence + The Machine. Partilhando o topo do cartaz em igualdade de circunstâncias com o destaque da noite – Buraka Som Sistema –, o festivo grupo londrino tinha muita gente no festival especificamente para os ver, apesar de ser uma visita habitual a Portugal há muitos anos. Isto a julgar pela generosa quantidade de pessoas que abandonou o Passeio Marítimo de Algés no final do concerto, quando faltava quase uma hora para a banda de encerramento actuar. Surpreendente. Mas vamos ao concerto. Florence Welch é uma máquina. Frase batida? Florence Welch é um animal de palco. Frase batida? Deixem-nos em paz: descalcem-se, sintam o chão, toquem em relva, ouçam “Spectrum”, “Shake It Out”, “Rabbit Heart (Raise It Up)”, “You Got the Love”, “Heaven Is Here”, tudo momentos memoráveis desta noite, e façam um headbang exorcista na última.
Ponham tudo cá para fora, foi para isso que Florence + The Machine nasceu. E sejam como a plateia deste sábado, “a mais barulhenta e afinada” que já tiveram num festival (palavras da própria). Agora imaginem-se diante de Florence Welch, com o seu ar de sacerdotisa, de vestido vermelho sangue, cabelo fogo, voz felina, vai gritando, dançando, rodopiando, falando em oferendas e solstícios, com entoação de profetisa, bruxa, poeta mística, revolucionária, líder hippie, mulher livre, a cantar a capella “Sympathy Magic” enquanto vai abraçando fãs de sorriso aberto, de sorriso incrédulo, num momento intimista partilhado por dezenas de milhares de pessoas, para logo a seguir soltar amarras com “Dog Days Are Over” e “Free”. Conseguem pôr-se no nosso lugar? Larguem-nos da mão. Por vezes, não precisamos de palavras novas, de experiências novas. Precisamos de repetir, de voltar ao conforto do que nos é conhecido, familiar, do que nos provoca alegria instantânea. Esta noite foi muito sobre isso, Florence + The Machine também.
O que nos obriga a uma última nota para Playback – Paião Por Tigerman. O projecto musical do filme biográfico que Sérgio Graciano realizou sobre Carlos Paião, que se estreia a 6 de Agosto, actuou à meia-noite no Galp Fado Café e as canções magnéticas do cantor português iam tirando as pessoas do caminho que levavam (no nosso caso, o caminho de Noiserv, no Palco Heineken) e arrastando-o para uma multidão crescente dentro e fora aquele espaço mínimo. Na voz do actor Rafael Ferreira, “Vinho do Porto (Vinho de Portugal)”, “Pó de Arroz”, “Playback” e “Cinderela” provocaram encantadores momentos de partilha colectiva. São canções brilhantes que continuam a funcionar ao vivo, prova do génio pop que Paião era. Mal podemos esperar para ver este espectáculo numa sala em polvorosa.
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