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Entre cruzeiros e outros gigantes, ‘O nosso último filme sobre Lisboa’ fala do que não calamos

Filme estreia quinta-feira, dia 22, no DocLisboa e percorre as lutas sociais da história recente da cidade. São 66 minutos de cavalgada entre o liberalismo e o direito à cidade.

Rute Barbedo
Escrito por
Rute Barbedo
Jornalista
'O nosso último filme sobre Lisboa'
Left Hand Rotation | 'O nosso último filme sobre Lisboa'
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A fórmula de "transformar a cidade num produto, numa cidade-marca", através de mega-eventos, não é deste século. Lembram-se da Expo'98 ou da grandiosa feijoada na Ponte Vasco da Gama, para 17 mil pessoas? Milhares, neste último caso, eram números para meninos. 25 anos depois, em 2023, mais de 2 milhões de peregrinos encheram Lisboa (e não só) durante a Jornada Mundial da Juventude, evento no qual a autarquia gastou quase 3 milhões de euros no altar de onde falaria o papa. Para o mesmo evento, mandou montar o Parque do Perdão, em Belém, onde mais de 100 confessionários foram feitos por pessoas a cumprir pena em diferentes estabelecimentos prisionais, como que em jeito de penitência pelos seus pecados, sugere O nosso último filme sobre Lisboa, documentário do colectivo Left Hand Rotation (LHR), que se estreia esta quinta-feira, dia 22, no DocLisboa.

O título é mais poético do que literal. Remete para a sensação de fim constante em Lisboa, seja pela eminência do fecho de uma tasca, por um despejo ou demolição, ou pelo adeus à pastelaria do bairro. "Há uma efemeridade, mas todas estas transformações continuam a ressoar no presente. E agora há uma sensação de que o sistema está a colapsar, o que já é evidente em muitos campos. O filme tenta brincar com a ideia, com a metáfora, de que a cidade pode ser engolida pelo mar a qualquer momento", conta à Time Out um dos membros do colectivo artístico, que desde que se fixou em Lisboa (vindo de Espanha), em 2012, prefere o anonimato dos seus elementos.

Numa altura em que a Europa (e não só) está a arder em protestos contra as políticas públicas, a falta de resposta às necessidades das populações e o peso incomportável do custo de vida, os 66 minutos de O nosso último filme sobre Lisboa têm o papel de fixar memórias – ainda alguém fala sobre a demolição do Bairro da Jamaica (Seixal), em 2024, ou se lembrará, daqui a uns meses, do abate das "árvores mais frondosas de Alfama" associado às obras do sistema de drenagem? Ao mesmo tempo, afirma que "Lisboa não está parada".

'O nosso último filme sobre Lisboa'
Left Hand Rotation'O nosso último filme sobre Lisboa'

"Olhem para o que fomos capazes de fazer", declara a activista do LHR, enumerando a ocupação da Estação Ferroviária do Rossio (2025), durante duas horas, numa manifestação contra o genocídio do povo palestino, ou a transformação, durante uma semana, de um edifício abandonado há mais de 15 anos em São Vicente num centro social e cultural auto-gerido. "Não somos impotentes, se quisermos podemos fazer parar", lança o colega. 

Bifana sobe de 1,75€ para 3,50€

Ao mesmo tempo a cidade é ocupada por cruzeiros, recebemos a final do europeu de futebol, em 2014 – ano em que o preço da bifana, apuram os autores do documentário, subiu de 1,75€ para 3,50€. Montaram também a Cantina Migrante dos Anjos (no Disgraça), que alimentou durante seis meses, à base de donativos e voluntariado, pessoas que haviam sido expulsas das tendas em volta da Igreja dos Anjos. Da mesma forma que chama atenção para o desaparecimento e os entraves a colectividades centradas na habitação, na comunidade e na cultura diversa, o filme aponta para as demolições no Talude (Loures) e do Segundo Torrão (Almada), intercalando com imagens como a da assistência de uma Red Bull Air Race a dançar a Macarena junto ao Tejo.

Nesta ideia de "uma cidade que colapsa por baixo", o propósito é, ainda, tentar perceber o que fica. "O que poderíamos resgatar da materialidade que vai desaparecer", se Lisboa fosse mesmo engolida? "Quais seriam os vestígios das nossas lutas?" "A verdade é que há esse lado, da turistificação, da gentrificação, do liberalismo, mas Lisboa é uma cidade que ainda está connosco. Está lá a semente que partilhamos", manifesta o colectivo LHR, reconhecendo que "não é um instante que vai mudar o mundo, mas todos estes movimentos sociais estão cá, continuamente".

'O nosso último filme sobre Lisboa'
Left Hand Rotation'O nosso último filme sobre Lisboa'

O grupo LHR formou-se no início dos anos 2000, em Espanha, e veio para Lisboa em 2011, o ano da austeridade imposta pela Troika e de um dos maiores protestos de sempre não organizado por sindicatos, que ficou conhecido como Geração à Rasca. Em 2012, começaram a orientar formações associadas ao tema da gentrificação – "houve a 'lei Cristas' e assistimos ao que acontecia na Mouraria" – e a "entrar" nos movimentos da habitação. Como colectivo artístico, trabalham com intervenção social, registo, apropriação e manipulação em vídeo. Em 2024, publicaram um guia turístico irónico pelas "catástrofes" de Lisboa. Tudo o que fazem é de acesso aberto. O mesmo acontecerá a O nosso último filme sobre Lisboa, que ficará disponível de forma gratuita "antes do Natal", na página do colectivo. 

Cinema São Jorge, Avenida da Liberdade, 175. 22 Out, Qui 21.30. 5€

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