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Casa Cid na luta para se manter aberta

Por Renata Lima Lobo
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É um porto seguro para as gentes do bairro, para os noctívagos esfomeados ou para os turistas que ainda procuram por Portugal nas ruas de Lisboa. A construção de um novo hotel pode ditar o fecho desta casa fundada em 1913.

Pouco antes do meio-dia vai-se pondo a mesa, limando arestas e preparando os produtos frescos para mais um dia de trabalho. É assim há 106 anos nesta casa fundada por um galego chamado Manuel Cid Nuñez, o bisavô do madrileno Borja Durão Cid que desde 2017 partilha as rédeas do negócio com Adão Alberto Ferreira dos Santos, antigo funcionário e sócio desde os anos 70.

“Se não fosse a lei das rendas de 2012 não tínhamos problema nenhum. Mas a Casa Cid é uma gota num processo que está a afectar a cidade. E é uma vergonha”, diz Borja Durão Cid. O problema em concreto é este: o prédio onde se insere o restaurante foi, segundo o sócio, comprado pelo fundo de investimento alemão Sete Colinas e o aviso de despejo marcava uma data no calendário de 2019: a 31 de Maio teriam de sair. Só que não sairam.

O processo está agora em tribunal, bem como um pedido de reavaliação do “chumbo” do programa Lojas com História ao qual se candidataram. “Não cumpre alguns critérios do programa”, lamenta o bisneto do fundador olhando para o balcão em alumínio instalado no final dos anos 80, uma recomendação da ASAE. Mas defende, convicto: “O que faz a casa são os torresmos, os carapaus fritos, o peixe do dia”, acrescentando que “os dois últimos anos foram um espectáculo” em termos de afluência de clientes à Casa Cid, principalmente nos meses mais quentes quando cerca de metade são mesmo turistas. Aqueles que ainda procuram uma certa gastronomia típica portuguesa, cada vez mais rara entre gourmets, comida estrangeira e reinterpretações de pratos tradicionais.

Fotografia: Manuel Manso

“Há dois, três meses chegou aqui um português a perguntar se podíamos grelhar um chouriço. Andou aqui à volta uma hora e não encontrou um chouriço grelhado. Há hot dogs, hambúrgueres, mas isto não há. Está-se a atingir um ponto em que é mais complicado encontrar comida portuguesa do que comida internacional. Agora já não se fala em restaurantes, fala-se em conceitos. São sítios sem alma”, desabafa.

Mas aqui há alma de sobra. As postas de bacalhau de molho, o peixe fresco, o senhor dos queijos que aparece diariamente para beber café e perguntar se precisam de mais; o pão do dia, o capital humano. Durão Cid diz que esta é como se fosse “a cozinha do Mercado da Ribeira”, ali ao lado, e lembra os tempos das varinas ou dos talhantes que aqui afluíam às quatro da manhã (quando a casa abria por essa madrugadora hora), lembra as doses de feijoada que hoje dariam para o dobro das bocas ou as pessoas que aqui tomavam o pequeno-almoço antes de ir para a praia — coisas levezinhas como mão de vaca, feijoada ou cozido, recorda o Sr. Alberto.”Lembro-me do meu avô aqui sentado ou a fazer bifanas. A vida não é só dinheiro”, acrescenta Durão Cid.

Fotografia: Manuel Manso

Memórias contadas que se juntam às memórias encaixilhadas nas paredes: as fotografias de família, a planta original do edifício ou o primeiro contrato da casa. Ou as antigas leiteiras em exposição que lembram os tempos em que o “senhor do leite” levava-o fresquinho à mãe do actual co-proprietário. A única geração que não geriu o negócio, porque, segundo o mais recente Cid, “o mundo era mais machista que é agora e as mulheres não eram bem vindas no negócio”. 

Agora resta-nos aguardar pelas cenas do próximo capítulo. Entretanto, não deixe de visitar esta casa para comer um bitoque à Cid, umas “iscas com elas” ou um belo polvo à lagareiro.

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