Comecemos com uma explicação rápida que vai resolver já todas as dúvidas que podem aparecer ao entrar no novo restaurante de Benfica. São dois conceitos no mesmo espaço? Sim, o Nood e o Cose di Mamma, duas marcas que já existiam e que convivem agora no mesmo local. É possível escolher qualquer mesa e pedir pratos asiáticos, italianos ou um pouco de cada? É pois, aqui a ideia é mesmo essa: oferecer variedade. A carta reúne assim os pratos mais conhecidos do Nood e o melhor do Cose di Mamma, com uma página para cada. As diferentes cores e grafismos dão logo a indicação do que estamos a ver. “Quisemos que cada espaço continuasse a ter a sua identidade e os seus pratos”, explica Bruno Gomes, chef executivo da cadeia Nood.
O desafio foi grande: pegar em dois conceitos do mesmo grupo e juntá-los num só para perceber o que aconteceria. É uma espécie de teste. Se correr bem, há a possibilidade de repetirem a ideia noutras localizações. O grupo está constantemente à procura de espaços, mas aqui a tomada de decisão foi difícil. “Era uma área muito maior das que estamos habituados, foi um debate intenso até decidirmos arriscar fazer algo novo”, continua Francisco Breyner, director operacional do Cose di Mamma. A decisão de manter os dois nomes, Nood e Cose di Mamma, também não foi consensual. “Continua a ser um grande debate”, admite Bruno. “Mas não podíamos dar-lhe um novo nome e cá dentro manter tudo igual aos outros espaços. Do ponto de vista de um cozinheiro, acho que não faz sentido. Foi um desafio, mas a conclusão foi: já temos duas marcas, dois conceitos que resultam. Porquê inventar?”
Os menus são dois, mas cozinha há só uma, que funciona com 11 pessoas, três das quais pizzaiolos. “Quem faz um ramen, também sabe fazer uma carbonara. Só os pizzaiolos estão exclusivamente dedicados às pizzas”, explica Bruno Gomes. Já que aqui estamos, o melhor é fazer um pingue-pongue entre Itália e Ásia e ir escolhendo pratos de um lado e do outro. Com a assinatura Cose di Mamma (o primeiro espaço existe não muito longe, na Estrada da Luz), podemos começar com a clássica focaccia com azeite d’alho (4,50€) ou alho e azeitonas (5€) ou com a burrata com tártaro de tomate e tostas douradas (11,50€), uma óptima opção para partilhar.
Do lado asiático, as gyozas de frango ou vegetais (três por 4,95€ ou cinco por 6,65€) são sempre uma aposta segura, mas há também ebikatsuo (dois a 4,95 e quatro a 7,95€), camarões panados à japonesa com maionese sakana. A crosta é leve e estaladiça, a maionese junta-lhe a textura e a frescura necessárias.
Longe do centro de Lisboa, que conhecem bem – o Nood existe no Chiado, Saldanha e Alcântara e no Porto –, este restaurante instala-se numa zona diferente, residencial. “Os restaurantes que existem aqui à volta são de comida tradicional. Pensámos que o melhor seria não ser muito diferente. Ou se calhar é bom ser muito diferente”, brinca Francisco Breyner. As portas estão abertas desde Maio e, para já, o balanço é positivo, apesar das diferenças. Aqui, os clientes são maioritariamente vizinhos. “Estes prédios à volta são todos novos e há muitas famílias”, diz director do Cose di Mamma. “É giro às vezes ver as pessoas a cumprimentarem-se entre mesas”, acrescenta Bruno.
Para os dias de sol, há uma esplanada com 20 lugares ampla, apetecível e tranquila, longe do reboliço das ruas principais da freguesia de Benfica. Lá dentro, as janelas estendem-se do chão ao tecto, deixando entrar muita luz. Os 60 lugares dividem-se entre a zona asiática e a italiana. Subtilmente delimitadas por uma linha no chão, na diagonal, que tem uma cor de um lado e outra do outro, têm mesas, sofás, candeeiros e loiça diferentes. Como se Nood e Cose di Mamma fossem duas peças de um puzzle encaixadas no sítio certo. “Houve a preocupação de desenhar um espaço que conseguisse conjugar duas culturas e decorações”, diz Francisco.
Os pratos escolhidos para as opções italianas vêm de uma antiga associação onde as famílias deixavam loiça que já não queriam, depois vendida a preços razoáveis. “São tão feios que acabam por ser giros”, refere Francisco. Alguns têm floreados, catedrais ou padrões geométricos. É num desses que chega a carbonara (13,50€) com guanciale, queijo, ovo cru e generosas lascas de parmiggiano. Nos principais há ainda gnocchi caseiro (16,50€) que fez um longo caminho até aqui. “Quando tentámos fazer gnocchi num outro espaço eram literalmente pequenos calhaus. Depois percebemos que tínhamos de afinar o queijo e conseguimos chegar à receita que queríamos”, recorda Francisco. É acompanhado por gamba da costa curada, pesto, stracciatella e malagueta e já é um dos mais pedidos.
A massa das pizzas está em testes, a ideia é que passem a ser todas feitas com massa mãe. A diavola chega à mesa com molho passata, fior di latte e salame milano picante (12€). A massa é estaladiça e tem uma ligeira acidez. O forno das pizzas já estava guardado há algum tempo para uma localização especial, ainda antes de terem descoberto a loja de Benfica. “O fabricante diz que é feito por engenheiros da NASA”, conta Francisco.
Já na carta do Nood há, por exemplo, donburi – com thai gai (14€), uma perna de frango desossada e marinada em leite de coco e caril amarelo, servida com arroz de coentros e salada de couve, tomate cherry e hortelã. Nos ramens, o tori spicy (14,50€) é só para quem adora picante. Feito com massa fresca, leva caldo de frango, tare picante, alho, peito de frango, ovo de ramen, milho, cebola roxa, coentros, malagueta e lima. Se a escolha for um wok, o yaki soba (13,50€) é o bestseller da casa. Feito com noodles caseiros, tem ovo, frango, camarão e vegetais diversos temperados com molho de soja do Nood. Sementes de sésamo, cebola frita, cebolete e beni shoga finalizam o prato. Vale ainda a pena provar o soba e salmão (13,50€), uma massa com tinta de choco, leite de coco, pasta de trufa, cebolete tosago e salmão curado em soja e mirin – isto, se gostar de côco, porque é este o sabor que se destaca e torna o prato especial.
Para o chef Bruno Gomes, uma das grandes dificuldades é criar receitas que depois possam ser replicadas de igual forma nos vários espaços. “Essa é a grande luta na cozinha: como conseguimos manter a qualidade em tantos locais, é um malabarismo.” O segredo é rodear-se da equipa certa e, neste momento, sente que consegue delegar. Chegar aqui não foi um sonho de criança. Quando terminou o 12.º ano, Bruno não sabia bem o que queria fazer. Teve vários trabalhos, incluindo na indústria de químicos, mas quando começou a ter de preencher formulários e outras burocracias percebeu que não sabia o que escrever na secção “profissão”. Um amigo disse-lhe que estava a tirar um curso de pastelaria no CFPSA (Centro de Formação Profissional para o Sector Alimentar), na Pontinha, e Bruno pensou experimentar. Quando lá chegou, disseram-lhe que já não havia vagas para pastelaria, mas que podia inscrever-se em cozinha. Aceitou. Ainda estava a estudar quando começou a trabalhar no Alcântara Café, mas chegou a uma altura em que não conseguia conciliar e escolheu terminar o curso. “O meu objectivo era ter uma profissão, queria ser qualquer coisa.”
Estagiou no Ritz, abriu um restaurante com um amigo e, certo dia, passou à porta do primeiro Nood, no Chiado. Ainda estava em construção, mas no local estava afixado um cartaz a pedir pessoal. “Era 2007, bati à porta. Disseram-me que era asiático e eu disse ‘ok’. Eu só sabia o que era sushi e tempura, então comecei a lavar pratos.” Aprendeu, saiu, voltou, emigrou e regressou. “O patrão percebia quando estava na altura de eu sair e deixava-me ir. Quando voltava a bater à porta, abria sempre.”
A conversa interrompe-se com a chegada do tiramisu (6€), que vem à boleia de um carrinho, dentro de um tabuleiro grande de alumínio. A porção é servida à frente do cliente e é ali mesmo que se polvilha o doce com o cacau em pó. É cremoso e consistente, o culminar perfeito de qualquer refeição italiana. Também há panna cotta (4,50€), gelados à bola (3,90€) e mocchi (2,50€) do lado asiático. Se o caminho for por aí, há um clássico do Nood que não engana: a mousse de chocolate (4,40€) é acompanhada por leite de coco, raspas de lima e amêndoas torradas.
Os sumos naturais são o grande sucesso na carta de bebidas. O exótico é um deles (3,80), com manga, maçã e laranja. Porém, as limonadas destacam-se por serem diferentes. Além da tradicional (2,80€), a de coco (3€) junta doce e ácido e a de pêra (3€) é já a favorita dos clientes. Cocktails, sangrias, vinhos e cervejas, italianas e asiáticas, juntam-se à festa.
Na primeira semana de Dezembro haverá alterações na carta do Nood. Fique atento ao thai tiger (17,50€) uma fusão de camarão tigre com yuzu e salsa de manga, acompanhada por arroz de coentros e caril vermelho; ao topokki (14€), rolinhos de arroz coreanos com bacon em molho cremoso de gochujang e queijo mozzarella, servidos com katsuo de frango. Bruno Gomes destaca ainda o kurimi ramen (14,90€), com massa fresca, caldo cremoso de frango, tare de miso e gochujang, porco chashu, ovo de ramen, cebolinho e milho com manteiga de miso. É sinónimo de comida de conforto e, segundo o chef, é o exemplo perfeito da “essência do Nood, uma cozinha asiática moderna e criativa”.
Rua José Simões, 1 (Benfica). 21 401 6917. Seg-Qui 12.00-15.00, 19.00-23.00; Sex-Dom 12.00-23.00
As últimas de Comer & Beber na Time Out
Está a par das 69 soletes com que Lisboa foi distinguida? Ou que abriu um Izakaya com muita pinta no Príncipe Real? Se for mais de sandes, também há: o Wishbone serve frango frito “karaage” do meio dia à meia-noite. E, por falar em comida de conforto, os fãs de italiano vão gostar de conhecer o Partenope, onde o ragu coze durante oito horas, o pão fermenta por 48 e as beringelas ficam a marinar três dias.
