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Partenope. De Nápoles, com amor... e comida de conforto

O ragu coze durante oito horas, o pão fermenta por 48 e as beringelas ficam a marinar três dias. Neste novo restaurante, um casal italiano e franco-português promete sabores caseiros, mas intensos.

Escrito por
Andreia Costa
Partenope
Rita Chantre
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Sergio Botta, um napolitano, e Ivana Mendes, uma franco-portuguesa, conheceram-se em Paris há dez anos. Apaixonaram-se – um pelo outro e pela cozinha – passaram por bistrôs, trattorias, wine bars e hotéis de luxo e viveram em Londres. Em 2023 mudaram-se para Lisboa com um objetivo: abrir um restaurante. Porém, sabiam que precisavam de conhecer primeiro o mercado e foi assim que foram parar ao Grenache. Sergio começou como sommelier e Ivana como empregada de mesa. Ele chegou a gerente, ela a sommelière e, com o resto da equipa, conquistaram uma estrela Michelin. Depois desse marco, ficaram mais três meses e despediram-se. O Partenope, restaurante napolitano, foi o tão aguardado passo seguinte. Abriu em Setembro.

O espaço era um antigo bistrô de cozinha internacional que descobriram online. Depois de o visitarem, perceberam que era perfeito: pequeno e acolhedor, perto de casa e com algo fulcral – exaustor e ventilação para poderem cozinhar à vontade no fogão e na bancada visível da sala, apenas separados por um balcão. As pinturas em tons laranja e amarelo e as pequenas obras, como o revestimento do balcão com azulejos portugueses, foram feitas pelos próprios. Lá dentro, há espaço para 18 pessoas, e no deck exterior, com vista desafogada sobre o Tejo, cabem mais oito.  

A Feira da Ladra, logo em cima, que acontece às terças-feiras e sábados, tem dado uma ajuda no movimento, sobretudo ao fim-de-semana. “Também temos estrangeiros instalados em Airbnb e, aos almoços, pessoas que trabalham em escritórios aqui na zona ”, diz Ivana. 

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O menu do Partenope – cujo nome se inspira na sereia da mitologia grega que terá dado origem a Nápoles – divide-se entre uma degustação e pratos à la carte. “É verdade que, ao almoço, o cliente pode não ter tempo para algo elaborado, mas gostamos de dar a opção de algo mais especial, como um menu de degustação, para que possa haver algumas surpresas. Além disso, para quem não consegue escolher, é prático, não tem de pensar”, explica Sergio. O napolitano gosta de ser desafiado e, se tiver de adaptar pratos na hora, isso dá-lhe adrenalina extra. “Acho que o segredo é amar primeiro a comida e depois o que se faz. Passaria horas a falar sobre cada prato, porque por detrás de cada um deles existe uma história.” A paixão pela gastronomia nasceu em casa, entre as receitas da mãe – cujos sabores Sergio partilha agora com os clientes. “São os pratos com os quais cresci e que ainda peço à minha mãe para fazer quando regresso a casa.” 

O menu de degustação (45€) inclui um aperitivo (taralli, salumi ou melanzane arrostite), antipasti misti (seleção de entradas variadas), primo (pasta patate e provola), secondo (braciola e polpetta al sugo) e um doce à escolha. Entre os antipasti misti está a montanara, uma mini pizza frita, fermentada durante 72 horas e acompanhada por um molho de tomate, tomates cereja doces, alcaparras, anchovas e azeitonas. A massa é leve, as anchovas acrescentam o toque salgado e o tomate de qualidade faz toda a diferença. 

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No restante menu, há pão caseiro (4€), com massa mãe fermentada durante pelo menos 48 horas, acompanhado por azeite alentejano; taralli (3,50€), crackers salgados feitos com banha de porco, pimenta preta e amêndoas assadas; ou melanzane arrostite (4€), fatias muito finas de beringela, assadas e marinadas em azeite e vinagre de vinho branco, alho e pimenta durante pelo menos três dias. Os sabores são intensos e ficam na memória. Já há até clientes fiéis que voltam pela beringela – mesmo alguns que juravam não gostar do legume. “Há quem diga que não gosta, depois prova e, como ela é grelhada e marinada durante algum tempo, passam a ter uma opinião diferente. Quando regressam, começam logo por aí.”

A parmigiana di melanzane (10€) – outra das favoritas – é feita com beringela frita e disposta em camadas, alternadas com molho de tomate, manjericão, pecorino, parmegiano e mozzarela. Não tem glúten, o que é ideal para quem tem intolerância. “Há outra forma de fazer este prato, que é passar as beringelas por farinha e ovo batido e fritá-la, mas aí o óleo ficaria contaminado e alguém intolerante não poderia comer. Eu frito-as diretamente e não deixa de ser tradicional”, explica Sergio. 

A frittatina di pasta (6€) é um croquete de massa bucatini, bechamel de pecorino, pimenta preta e scarmoza. Faz lembrar mac&cheese e é a escolha certa para quem nunca se farta de queijo. Passando para os pratos que aconchegam o estômago, é preciso provar a pasta mista fagioli e cozze (10€). Tem vários tipos de massa, feijão e mexilhão – e é exatamente o que o estômago pede nos dias tristonhos e de chuva.  “Em Nápoles, havia uma loja de massas que, quando não conseguia despachar toda a massa, juntava os restos de vários tipos em pacotes e distribuía-os gratuitamente ou a um preço muito baixo. Assim, tornou-se tradição misturar tudo e, em casa, quando sobra pouco de cada uma, as nossas mães juntam-nas no mesmo prato.”

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Porém, não há nada que cheire e saiba mais a conforto do que o ziti al ragù di costine (14€). A massa ziti é acompanha por ragú de costelinhas. Simples, saborosa e servida numa dose generosa, a carne desfaz-se na boca e os temperos que tiveram largas horas para apurar conquistam à primeira garfada. Num registo completamente diferente e mais gourmet, o polpetto alla luciana (15€) enche outro tipo de medidas. Vários tentáculos de polvo grelhados estão dispostos em cima de uma fatia de pão ligeiramente tostada e ensopada em tomate picante.  

A carta vai sofrer algumas alterações em Dezembro (assim como em épocas festivas ao longo do ano) para ter pratos específicos do Natal. “Sobretudo na véspera de Natal e de Ano Novo costumamos ter um menu apenas com pratos de peixe que só se confeccionam nesse período, portanto vamos juntá-los à carta.” No Dia do Pai terão Zeppole di San Giuseppe, uma massa choux recheada com creme pasteleiro e cereja ácida; na Páscoa a pastiera di grano junta-se aos doces; e no Verão a sopa de lentilhas (7€) dará lugar a uma opção fria.

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O pão e as sobremesas estão a cargo de Ivana. “Queríamos fugir ao que se encontra geralmente em restaurantes italianos. Não tenho nada contra o tiramisu, mas não é de Nápoles, por isso temos a pastiera di grano [6€] e a torta caprese [6€]”, explica Sergio. “Não há nada mais típico. Quando provo a pastiera, é como se estivesse em Nápoles”, completa Ivana. Leva queijo, flor de laranjeira e os elementos cítricos misturam-se com a massa que se mantém sempre húmida. 

A torta caprese (6€) tem chocolate, amêndoas e avelãs e é feita com fécula de batata. O chocolate é amargo e a massa é suave e húmida. Um dia por semana, geralmente à terça-feira, há uma terceira sobremesa que o casal faz questão de oferecer aos clientes: a bola e fiocco di neve, uma bola perfeita de massa brioche, recheada com ricotta e creme de leite. A massa é fofa e o interior quase líquido, com um ligeiro travo a baunilha. 

Ivana toma ainda conta da sala – e a atenção no atendimento nota-se. Os talheres chegam em cima de um pano branco, dispostos numa bandeja, e a mesa é limpa com um guardanapo dobrado em triângulo entre cada prato ou sempre que se justifica. “Oferecer um bom serviço não custa nada ao restaurante, por vezes trata-se apenas de hospitalidade”, diz Ivana. A comida é o elemento principal, mas o casal quer que a refeição seja confortável para quem os visita. “Queremos que as pessoas se sintam em casa, comam bem e tenham uma óptima experiência com tudo o que é tradicional de Nápoles”, diz Sergio. 

Embora também haja muitas referências portuguesas, os vinhos italianos dominam a carta, da Campania a Piemonte. O copo começa nos 6€ e há opções de branco, tinto e frizante. Até as águas são italianas: a Natia (3€), sem gás, vem de Roma, e de uma nascente efervescente chega a Ferrarelle (4€), com gás.

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O motivo para terem escolhido viver em Portugal e não noutra parte do mundo prende-se com as origens da família de Ivana, de Viana do Castelo. “Acabámos por optar por Lisboa, porque é uma cidade emergente no que diz respeito à gastronomia. Achámos que talvez tivéssemos aqui uma oportunidade de trazer outra cultura, outra gastronomia e hospitalidade”, diz Ivana. Por explorar no Partenope está algo que entusiasmou o casal assim que viu o espaço. Do balcão para a rua há uma pequena janela que, em breve, estará aberta com um propósito também ele napolitano. “Há uma coisa em Nápoles chamada cuzzetiello. Ao domingo, quando acordamos, já sentimos o cheiro do ragu. Sem sequer bebermos café, o que fazemos é pegar no pão, retirar o miolo e colocar nesse sítio o molho de tomate que ainda não terminou de cozinhar – isto enquanto a nossa mãe grita connosco. Depois cobrimos tudo com o miolo para que não esteja demasiado quente para comer.” 

É basicamente isso que se vai vender através da janela, sem grande publicidade, apenas para quem passar e sentir o apelo do aroma. “Queremos ter um ou dois recheios. Um dos mais famosos leva parmesão por baixo e almôndegas napolitanas por cima, outro tem grelos e salsicha de funcho.”

Para já, a primeira bênção (e a mais importante) está dada. A mãe de Sergio já visitou o Partenope e aprovou a adaptação das receitas de família. “Experimentou tudo para garantir que respeitavam a tradição. Ainda me disse para usar óleo vegetal na marinada da beringela, porque é mais barato do que o azeite, mas nisso não cedi. Estava orgulhosa do que fizemos aqui e, no final de contas, espero que seja esse respeito pela tradição, pelo sabor e pela qualidade que passe para os clientes”, diz Sergio.

Calçada dos Cesteiros (São Vicente), 7. 218 871 871. Ter-Sáb 12.00-15.00, 19.00-22.00

As últimas de Comer & Beber na Time Out

Está a par das melhores gelatarias em Lisboa? Não fique para trás. A Swee abriu a sua primeira loja pop-up na Baixa com gelados esmagados (a versão doce dos smash burgers); e a Brera inspira-se nas doçarias portuguesa e italiana. Para uma refeição à séria, encontra sanduíches italianas na Vetrina, o novo espaço do Grupo Non Basta. Se preferir, o Avó Cooking Lab, que procura reintegrar no mercado de trabalho pessoas com 60 anos ou mais, leva-lhe o jantar a casa. Depois, pode ir beber um cocktail ao QG Atelier, onde o bartender também é terapeuta (sim, leu bem). 

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