Entre as músicas de Dr. Dre, Snoop Dog, Missy Elliot, De la Soul ou Busta Rhymes ouvem-se, ao longo da noite, repetidos “Sim, chef! – em coro, sem falhas. A cozinha aberta é o palco e o espectáculo frenético a que se assiste do balcão com cadeiras altas, sob as luzes vermelhas e azuis dos neons dinâmicos, convida a bater o pé, a trocar os pauzinhos pelas mãos e a beber mais um cocktail de saké.
Reconhecemos o ambiente: também é assim no Izakaya original, em Cascais. Sorte a de Lisboa, que acaba de ganhar o seu próprio Izakaya, que transformou uma antiga fábrica de cerâmicas no Príncipe Real numa autêntica taberna japonesa. Maior – quer em área, quer em número de lugares sentados ou de cozinheiros em acção –, o novo projecto de Tiago Penão (e a primeira abertura desde que integrou o grupo de José Avillez e da família Arié) mantém o ADN intacto, apesar de ter algumas novidades para apresentar.
Uma das mais visíveis são as mesas, que não existem em Cascais. “Faziam falta para grupos de quatro, cinco pessoas, mas funcionam como um género de segundo balcão porque também são viradas para a cozinha”, descreve Tiago Penão. Quer isto dizer que não há lugares de costas para a estrela da casa, que ganhou uma enorme grelha a lenha (outra estreia), que vai permitir desenvolver novas receitas. “O fogo é uma coisa muito típica japonesa: o centro das casas, onde as pessoas cozinham e se aquecem.”
O Japão é muitas coisas
Passaram dois anos desde que o chef e os sócios André Simões de Almeida e José Maria Trocado entraram pela primeira vez no edifício abandonado do Eastbank que detém, entre outras coisas, a Embaixada no Príncipe Real. “Tinha vontade de vir para Lisboa, tem um público diferente de Cascais”, diz Tiago, que vai andar dividido entre os três restaurantes (Kappo, Izakaya 1 e Izakaia 2) – e prepara-se para abrir mais um em 2026, sobre o qual ainda não quer adiantar grande coisa. “Ainda há muita coisa japonesa para trazer para Portugal, que ainda não existe cá. A seu tempo. Este agora requer mais atenção, por ser o mais novo. Mas o Kappo será sempre onde vou estar mais. Tenho a sorte de ter braços direitos e esquerdos em quem confio a 100 por cento e que fazem esta rotação comigo”, continua. Damos de caras com alguns deles: João Guedes – no Izakaya de Cascais desde o primeiro dia – a receber os clientes e a gerir a animada sala de Lisboa; e Isaac Jorge – irmão de Tiago –, de t-shirt da casa vestida (estão à venda por 30€ e têm as ilustrações de Tiago Baptista, que também foi responsável pelas cartas a fazer lembrar livros de manga), a manter o bom ambiente na cozinha e a preparar boa comida no lado de lá do balcão.
Por falar em boa comida, ela vai chegando a bom ritmo: arrancamos com ponzu kaki, ostras do Sado com ponzu e limão kosho (13€) e seguimos para o usuzukuri hamashi, lírio curado com ponzu (12€) e para o guloso toro yokke chirashi, um gohan (taça de arroz) com toro, ikura e gema – que Issac aconselha a misturar e a comer à colherada.
Quando o kinono chega ao balcão, cogumelos selvagens com ovo a baixa temperatura (18€), já o cocktail Sakura Kage (13€), com gin, xarope de flores, saké, gengibre e lilet, vai adiantado. “A ideia aqui é explorar mais a parte da coquetelaria. Temos mais espaço de bar e queremos puxar muito pelo alcóol”, brinca Tiago, antes de apresentar a bartender Cecília. Entretanto já nos lambuzamos com as novas teba gyosas, asas de frango recheadas (16€). Para rematar, como se de um preguinho se tratasse, uma sando – mas em vez da katsusando de porco que faz furor em Cascais, experimentamos a mais recente gyutan sando (19€), com língua de wagyu, pickles e maionese kimchi.
Para mais tarde recordar
Estamos prontos para as dezato (sobremesas), mas à entrada – um hall cheio de maneki-nekos dourados (gatos da sorte) – vai chegando cada vez mais gente curiosa com o novo projecto. “Foi tudo pensado com o Tiago. Das luzes assinadas por Joana Forjaz à loiça. Algumas peças são do Studio Neves, outras vieram directamente do Japão”, diz André Simões de Almeida, que também sublinha a importância da playlist. O Izakaya tem conta no Spotify – quem aprecia hip hop e r&b dos anos 90 e 2000 deve começar a seguir agora.
Para terminar em doce, provamos o ringo no chokoreto (maçã, caramelo de miso e chocolate branco, 8€) e o furenchi tosuto (rabanada com brioche de hokkaido, 8€). De Cascais veio ainda o popular miruku san-ko (tarte de trés leches, 6,50€).
Antes de ir embora, um ritual que já se tornou uma tradição da casa: tirar uma fotografia polaróide para colar na parede. Se em Cascais já é difícil encontrar um espaço livre, no Príncipe Real as paredes acabadinhas de pintar têm lugar de sobra para este e outros jantares. Consoante o movimento, Tiago Penão pondera até abrir ao almoço e introduzir pratos especiais do dia, que vão estar anunciados em tábuas de madeira penduradas ao longo do balcão. “Típico do Japão.”
Pátio do Tijolo 11 (Príncipe Real). 21 153 2224
As últimas de Comer & Beber na Time Out
Está a par das 69 soletes com que Lisboa foi distinguida? Ou que abriu uma mercearia gourmet onde até o gelado e o cheesecake levam caviar? Se for mais de sandes, também há: o Wishbone serve frango frito “karaage” do meio dia à meia-noite. E, por falar em comida de conforto, os fãs de italiano vão gostar de conhecer o Partenope, onde o ragu coze durante oito horas, o pão fermenta por 48 e as beringelas ficam a marinar três dias.

