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Um rei, uma melodia e uma nota perdida. É a premissa do novo livro do maestro Martim Sousa Tavares, que agora se estreia na literatura para a infância.

A ideia – como uma melodia – já andava na cabeça de Martim Sousa Tavares há alguns anos, mas foi amadurecendo em silêncio. O impulso para se atirar novamente à escrita, depois do livro de ensaios Falar piano e tocar francês, chegou de rompante em Maio, quando foi pai, ficou de licença e aproveitou as sestas da filha para dar vida à história d’O Rei com Música na Cabeça. “Inclusivamente com ela ao colo”, revela-nos o maestro, que se estreia na literatura para a infância com uma narrativa cheia de situações caricatas e bem-humoradas, a partir de “algo tão comum a toda a gente”. “Acontece com todo o tipo de música, todos os dias e a toda a hora. Não há nada de mal com isto, e provavelmente é um processo cerebral tão antigo como a espécie humana.”

A premissa é simples: o que acontece quando uma música não nos sai da cabeça? Quando o rei da Áustria fica obcecado com uma estranha melodia, a situação torna o monarca tão distraído que o país fica ingovernável e é urgente intervir. Mas até que alguém resolva o problema, vemos o que seria um país virado do avesso, porque não há maneira do rei dormir, descansar ou concentrar-se nas suas tarefas. Até que dois irmãos muito especiais entram em cena: os pequenos génios musicais Ana Maria e Wolfgang Mozart. “Queria que estes personagens pudessem ter a mesma idade que os leitores, para um maior entrosamento e admiração. Se em vez deles escolhesse um senhor barbudo, como o Brahms, não creio que a relação personagem-leitor fosse a mesma”, diz Martim, que também fica contente por ter oportunidade de valorizar a figura de Maria Ana. “Nunca teve as oportunidades para se desenvolver profissionalmente que o seu irmão teve, em grande parte por ser mulher e estar-lhe destinado outro caminho de vida.”
Com ilustrações de Raquel Costa, com quem “foi fascinante” trabalhar, O Rei com Música na Cabeça convida-nos a exercitar a imaginação, numa viagem até uma Áustria que é tão real quanto ficcionada. Há, aliás, vários “ovinhos da Páscoa”, avisa o autor, que destaca as referências à cultura da Ópera e dos cafés em Viena, a importância do rio Amazonas, ou os esquiadores alpinos. Por outro lado, o maestro espera também ser capaz de despertar a curiosidade dos miúdos para o mundo da música – para o que a ciência chama de earworm, um tema musical pegajoso, que se repete continuamente na mente de uma pessoa, quase que de forma obsessiva –, mas não só.
“Os livros infantis mais intemporais são, em primeiro lugar, narrativas fascinantes e cativantes. No meu caso, tentei simplesmente projectar uma história que fosse divertida e inteligível, sem segundos significados ou mensagens entre as linhas, e que ao mesmo tempo tivesse um quê de absurdo e cómico para estimular a criatividade dos meus jovens leitores”, explica Martim, que defende ainda a resistência “à tentação de tentar transformar todas as brincadeiras e tempos livres das crianças em momentos de aprendizagem e formação”. “Se eu escrever um livro com o intuito de ensinar teoria musical, tenho a certeza de que irá ficar muito árido e desinteressante. Escolástico, no pior sentido da palavra.” A referência à tónica no final de uma música é, explica-nos, “apenas um piscar de olho”.
Na verdade, a sua maior ambição é fazer com que as crianças sintam que “ler é muito bom”, razão porque está muito contente por saber que os seus leitores – grandes e pequenos – se estão a divertir muito com o novo livro. Se pelo meio contribuir para aproximar as pessoas da música e promover uma relação saudável com essa forma de arte, tanto melhor. “[A música] é uma ferramenta fascinante para se desenvolverem em sentido criativo, mas também para aprenderem uma regra fundamental na vida: sem esforço não há recompensa”, deixa a lição, antes de revelar que tão cedo não volta a escrever um livro para crianças. “Acho importante os livros terem o seu momento, porque o que é bom tem de perdurar. Quero lutar contra a pressão comercial das novidades a cada ano.”
Agora, o importante é fazer chegar o Rei da Áustria, os irmãos Mozart e a misteriosa melodia que os junta às bibliotecas, escolas, livrarias e instituições sociais. A próxima apresentação está marcada para 22 de Novembro, às 17.00, no El Corte Inglès, no auditório do Piso 6, onde marcará presença, acompanhado por Raquel Costa. Depois voltará aos seus afazeres, inclusive ao livro que começou a escrever no Verão sobre as orquestras, enquanto modelo de organização e de trabalho em equipa, e a valorização de cada indivíduo num modelo colectivo. “No fundo, é um livro que, ao falar da orquestra, faz uma metáfora para as relações que estabelecemos uns com os outros.”
O Rei com Música na Cabeça, de Martim Sousa Tavares (texto) e Raquel Costa (ilustração). Porto Editora. 32 páginas. 14,40€
Há uma nova editora na cidade: a Crosta, fundada por Beatriz Marques Morais e Henriques Fernandes, que nos querem pôr a pensar sobre ecologia e estética. Além disso, há livrarias a abrir em Lisboa que é uma maravilha: a Lumaca é para fãs de álbuns ilustrados e banda desenhada; a Gondwana promove “literaturas do Sul”; e a Saudade dá destaque a autores lusófonos. Estão também a nascer bibliotecas em hospitais pela mão do Grupo LeYa, que quer ajudar a humanizar cuidados.
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