Notícias

Nesta micro-livraria de bairro, a ilustração é rainha (e é para todos)

Chama-se Lumaca, caracol em italiano, e é uma ideia de Carolina Correia, que quer pôr os vizinhos de São Domingos de Benfica a ler (e a viver) mais devagarinho.

Raquel Dias da Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
Lumaca
Fotografia: Rita Chantre | Carolina Correia é a livreira por trás da Lumaca, em Benfica
Publicidade

Abrandar, pensar a relação entre texto e imagem, arriscar como quando somos pequeninos, viver o bairro em família. É este o desafio lançado por Carolina Correia, que está prestes a abrir as portas da Lumaca, uma livraria de bairro, perto do Jardim do Beau-Séjour, onde a ilustração é rainha e o catálogo se faz unicamente de álbuns ilustrados e novelas gráficas para todas as idades. “O objectivo é que seja um espaço inclusivo, que inspire e dê azo à criatividade”, diz a livreira, que tem estado ocupada a preparar a inauguração, marcada para este domingo, 2 de Novembro, entre as 15.00 e as 19.00.

“Histórias que deixam rasto”, lê-se no toldo que anuncia que chegámos à Lumaca, no número 366A da Estrada de Benfica. O slogan é uma brincadeira com o próprio nome da livraria, que significa caracol em italiano. “O meu marido é italiano”, revela Carolina, que também fala a língua e queria trazer o seu lado bilíngue para o projecto. “A maior parte dos livros são em português, mas também temos livros em italiano, inglês e espanhol. Eventualmente, teremos em francês.”

Lumaca
Fotografia: Rita Chantre

Está a ser uma grande aventura, confessa. Formada em Ciência Política e Relações Internacionais, Carolina trabalhava numa Junta de Freguesia, no Gabinete de Inovação e apoio ao executivo, e não tinha qualquer experiência na gestão de livrarias. Sabia apenas que, além de ter mais tempo para estar em família e organizar os seus próprios horários, queria continuar a “inovar na forma de servir os fregueses” e “tornar a experiência de viver num bairro mais agradável”. 

“Quando decidi concretizar, como não sabia nada sobre a parte prática, fui pesquisar e encontrei um curso de Gestão de Livrarias em Itália, através da Associação de Livreiros Italianos. Foram seis meses, estive a trabalhar na Feira do Livro em Turim e depois, quando voltei para Lisboa, fiz um estágio de três meses na Piena”, partilha Carolina, que também participou na primeira edição do curso de Gestão de livrarias independentes e produção de eventos literários, com a livreira Graça Santos, co-fundadora da RELI – Rede de Livrarias Independentes de Lisboa.

Lumaca Books
Fotografia: Rita ChantreLumaca, em São Domingos de Benfica

A ideia surgiu por necessidade, confessa. Carolina vive no bairro, tem dois filhos de quatro anos e sentia falta de uma livraria que tivesse álbuns ilustrados. “Sempre que queríamos ir a sítios do género – e há muitos, e muito bons em Lisboa –, tínhamos de sair daqui”, conta, assumindo-se uma apaixonada pela vida de bairro e pelo comércio local. “Depois vi este espaço, pensei ‘é minúsculo’, porque é, ‘mas eu acho que consigo transformá-lo’.” Bem dito, bem feito. Uma antiga loja de ferragens é agora uma “micro-livraria”.

São apenas 23 metros quadrados, mas tem um pé direito de fazer inveja e que deu imenso jeito na hora de encomendar umas estantes à medida. O projecto é da arquitecta Ana Faro, do estúdio Artys, que se encontra a 11 minutos a pé da Lumaca. “Na medida do possível, gosto de fazer tudo no bairro e acho que fizemos uma boa equipa”, diz, antes de destacar também o banco em L, que convida a ficar. Isso, o café e os bolinhos, que também são feitos no bairro.

Lumaca
Fotografia: Rita Chantre

Quanto à oferta, a maior parte dos livros são de pequenas editoras, como a Planeta Tangerina, a Orfeu Mini, a Pato Lógico e a Akiara. Mas também há títulos surpreendentes da premiada Phaidon, que é mais conhecida pelos seus coffee table books. Carolina mostra-nos The Story of Pasta and How to Cook It, um livro interactivo de receitas, ilustrado por Steven Guarnaccia, e logo a seguir guia-nos para algo completamente diferente: “a secção de sugestões das crianças”.

“Para começar, pedi aos meus filhos que fizessem sugestões, e estes aqui são os que eles gostam de ler em loop.” Como Pesce e Granchio, de Mariana Coppo, publicado pela editora Lapis Edizioni. Mas a ideia é que venham a ser os clientes a fazer as recomendações. Neste caso, os mais pequenos, apesar de também haver livros para crescidos. “Tenho novelas gráficas, por exemplo, mas não faço separação por faixas etárias, porque acho que as pessoas conseguem retirar coisas diferentes dos livros ilustrados consoante a fase da vida em que estão.”

Lumaca
Fotografia: Rita Chantre

Há ainda uma zona de papelaria, onde encontramos, por exemplo, postais e cadernos que se plantam, e até pinheirinhos de Natal. “A sustentabilidade é uma questão que me importa e isso também se nota na selecção de livros. Temos muitos títulos dedicados a árvores, plantas, natureza, animais. O que ainda não tenho e gostava de ter são livros acessíveis a pessoas disléxicas. Há aqui um centro perto e gostava de aprender mais.”

Um lugar para todos. É o que Carolina espera que a Lumaca seja. Fará por isso e já começou a pensar como poderá dinamizar um espaço tão pequeno. “Aqui sentados ou lá fora, quando estiver bom tempo.” Em cima da mesa, estão horas do conto e pequenas oficinas temáticas. “Não sei se sou eu que sou optimista, mas parece-me estar a haver um regresso à manualidade. Não descurando o mérito das tecnologias e tudo o que traz de bom às nossas vidas, acho que as pessoas estão cada vez mais à procura de contacto humano, partilha de experiências, sentimento de pertença a uma comunidade.”

Livraria Lumaca, Estrada de Benfica, 366A (São Domingos de Benfica). Ter-Sex 10.30-18.00, Sáb 10.00-13.00. Inauguração: 2 Nov, Dom 15.00-19.00

As últimas para leitores na Time Out

O festival Passa a Palavra regressa a Oeiras de 6 a 9 de Novembro e este ano o destaque são as vozes no feminino. Em Lisboa, abriram duas livrarias: a Gondwana, dedicada a “literaturas do Sul”, e a Saudade, onde os autores lusófonos são reis e rainhas. Estão também a nascer bibliotecas em hospitais pela mão do Grupo LeYa que quer ajudar a humanizar cuidados.

Últimas notícias
    Publicidade