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O Parque da Bela Vista recebeu cerca de 110 mil pessoas para o Meo Kalorama, que regressou à condição de último grande festival da temporada. Foram três dias a subir e descer ladeiras para ver todos os concertos. Estes foram os melhores.

Um festival é um espaço de surpresas, de alegrias inesperadas e por vezes de grandes desilusões. A primeira categoria é habitualmente por artistas anunciados com letras mais pequenas; a segunda, pelos cabeças-de-cartaz. No Meo Kalorama, que ocupou o Parque da Bela Vista de 28 a 30 de Agosto, houve vários motivos de felicidade fora dos horários nobres e os principais nomes vieram todos parar à lista dos melhores concertos do festival, embora os dois jornalistas que assinam este artigo discordem sobre os méritos do espectáculo de Ms. Lauryn Hill (não há verdades absolutas). Segundo a organização, passaram 110 mil pessoas pelo festival ao longo dos três dias. Não faltarão opiniões divergentes. De resto, com Robbie Williams em grande destaque, o óptimo concerto dos Deftones só não causou mais impacto porque antes havia passado um furacão pelo Meo Kalorama: Turnstile. Feitas todas as escolhas, eis os nove melhores concertos do festival.
O cabeça-de-cartaz da primeira noite dominou o recinto com o seu carisma e humor. Num espectáculo de cariz autobiográfico focado na celebração e na superação pessoal, o cantor britânico desfilou êxitos intemporais como “Let Me Entertain You”, “Rock DJ” e “Angels”. Entre piadas auto-depreciativas e momentos de partilha sobre a família e a saúde mental, provou ser um comunicador nato capaz de meter uma multidão a cantar e a dançar até de madrugada. Os anos 90 já lá vão, mas a voz de “Feel” ainda tem muito para dizer (e cantar). HG
A dupla canadiana protagonizou uma das actuações mais singulares e surpreendentes do arranque do festival. Com os seus fatos estrambólicos e uma sonoridade que desafia convenções através de guitarras microtonais, o duo do Quebeque conquistou o público com uma energia genuinamente alienígena. A precisão cirúrgica do baterista e a versatilidade do guitarrista e vocalista transformaram ritmos complexos numa experiência contagiante, gerando danças invulgares, mosh pits e até um comboio na plateia. HG
Mais de uma década após a sua última actuação em Portugal, o projecto de Melody Prochet protagonizou um dos momentos mais marcantes do arranque do festival. Acompanhada por uma banda experiente, que incluía o guitarrista Reine Fiske (Dungen), a cantora francesa combinou a doçura da sua voz com camadas de guitarras distorcidas, dream pop e rock psicadélico. As canções do álbum de estreia, como “Crystallized”, evocaram a produção original de Kevin Parker, mas as músicas mais recentes evidenciaram a maturidade do projecto. Apesar de alguns desequilíbrios no som, a actuação envolveu o público numa atmosfera hipnótica, terminando com grandes canções como “I Follow You” e “Shirim”. HG
Acompanhada por Wyclef Jean, os seus filhos Zion e YG Marley e uma banda irrepreensível, Ms. Lauryn Hill deu uma autêntica lição de hip-hop ao celebrar The Score e The Miseducation of Lauryn Hill. Entre rajadas de rimas a ritmo vertiginoso, incursões (demasiado) prolongadas pelo reggae e reggaeton, o concerto de quase duas horas atingiu o auge com clássicos intemporais como “Killing Me Softly With His Song”, “Ready or Not” e “Doo Wop (That Thing)”. HG
A apresentar o seu disco mais recente, Cry Baby, o rapper norte-americano trouxe ao palco principal um formato renovado com guitarras, baixo e bateria, conferindo um nervo punk e orgânico ao seu hip-hop interventivo. Com uma postura incisiva, bem-humorada e crítica da sociedade americana – como em “Only in America” e “Blackberry Lemonade” –, Staples contornou a complacência da plateia com carisma e energia. HG
A cantautora garantiu um dos concertos mais divertidos e celebrados do festival no Palco Sagres, apresentando Dói-Dói Sentimental com uma autêntica superbanda, que juntou vozes de Margarida Campelo e Beatriz Pessoa, e as teclas de Lana Gasparotti. Numa fusão brilhante de jazz, bossa nova, kizomba e funk, houve espaço para óptimos instrumentais e o humor das suas canções, mas também para um comboio na plateia durante “Taj Mahal”. HG
Embora o concerto do ano passado no Primavera Sound Porto tenha estado uns furos acima, Chino Moreno e companhia deram aqui um belo concerto. uma hora e vinte de perfeita sintonia com uma plateia cheia de pessoas de todas as idades. E foi tão bonito de ver fãs claramente acima dos 50 a vibrarem tanto com temas como “my mind is a mountain”, “locked club”, “infinite source” e “milk of the madonna”, temas do recente Private Music (2025), como ver fãs sub-20 a perder a cabeça com canções antigas, como “Be Quiet and Drive (Far Away)”, “Around the Fur”, “Feiticeira” e “Sextape”. Ou todos juntos em “My Own Summer (Shove It)” – que provocou um deslocamento tectónico na audiência – e na sequência completa do encore, com “Change (In the House of Flies)”, “Lotion” e “7 Words”. HT
Com um alinhamento essencialmente dividido entre Glow On (2021) e Never Enough (2025), o Meo Kalorama recebeu-os a levantar poeira logo no acorde inaugural de “Birds”, com circle pits à direita e à esquerda, e com um fluxo ininterrupto de crowd surfing do princípio ao fim do concerto. Ao terceiro tema, “Endless”, o vocalista Brendan Yates já estava em cima do público. E haveria de ser sempre assim: apoteose permanente, sorrisos rasgados por toda a parte. Do meio para diante, entrou-se numa sequência imaculada e avassaladora – “Mystery”, “Sole”, “Look Out For Me”, “Holiday” e “Blackout” – que viria a desembocar no momento único que foi “Never Enough” e depois, a fechar, “T.L.C. (Turnstile Love Connection)”, em grande. Uma dose muito quentinha de amor-próprio e amor pelo outro, que é o que estes moços do punk hardcore andam a propagar por onde passam. HT
Sem MJ Lenderman na guitarra (actualmente a fazer pela vida na sua carreira a solo), mas sem que a ausência lhes causasse qualquer mossa, os Wednesday tiveram toda a nossa atenção ao cair da noite do terceiro dia. Com uma sonoridade a deambular entre o alt-country, o sludge e a dream-pop – isto é, entre Dolly Parton e uma Olivia Rodrigo hardcore –, e com a vocalista e guitarrista Karly Hartzman a dominar o palco durante todo o concerto, só foi mau quando acabou. Por nós, continuaríamos ali muito mais tempo. HT
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