Um mini-jardim zoológico em 'A Cidade Global' no Museu Nacional de Arte Antiga

A nova exposição do Museu Nacional de Arte Antiga, 'A Cidade Global – Lisboa no Renascimento' tem uma sala dedicada a bichos. Nós escolhemos quatro e ainda um amuleto. Uma pista: vem do intestino de uma cabra
Pieter Brueghel, o Jovem (1564-1638); a partir de Jan Brueghel, o Velho
©Museo Nacional del Prado, Madrid
Por Catarina Moura |
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"A Cidade Global — Lisboa no Renascimento", que inaugura esta quinta-feira no Museu Nacional de Arte Antiga, é para amantes de arte renascentista (especialmente das artes decorativas), mas também de animais. Um dos últimos núcleos da exposição parece mesmo um pequeno jardim zoológico estático que reúne os bichos mais exóticos que se podiam encontrar (e comprar) em Lisboa antes do terramoto de 1755. O jardim zoológico real viria a ser bem perto do edifício onde hoje vemos arte antiga em Lisboa e que até 9 de Abril abre uma exótica Arca de Noé.

Conheça toda a exposição na Time Out desta semana.

Um mini jardim zoológico em A Cidade Global no MNAA

Aquamanil em forma de leopardo
©Entwistle, London and Paris

Um Leopardo que é um jarrinho

A tecnologia é a seguinte: o líquido verte-se para um buraquinho na cabeça do bicho; pega-se-lhe pela cauda que, sendo assim, é a asa, e o líquido sai pela boca. O trabalho de bronze do Benin fascinou os europeus à sua chegada e, neste caso específico, o transporte do objecto para o Velho Continente dá conta da existência desse gato corpulento e malhado que por cá não existia. Este aquamanil, que se compraria na rua onde hoje é a Rua do Comércio, está no núcleo dedicado a África, onde se vêem ainda meia dúzia de colheres trabalhadas em marfim, relativamente comuns em Lisboa, mas representadas em pinturas (também elas expostas) com muita solenidade.

Tatu-canastra, Priodontes maximus
©FCG-Fundação Calouste Gulbenkian/Márcia Lessa

Um tatu-canastra

Desde muito cedo na expansão europeia que os pintores começaram a incluir os animais mais extraordinários em cenas do Éden ou da Arca de Noé – episódios bíblicos que, afinal, tinham mais variedade animal do que se pensava. Este tatu-canastra só se revelou com a chegada à América do Sul, que não merece núcleo na exposição, mas de onde vêm algumas peças, em especial, no que toca ao conhecimento zoófilo.

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Rinoceronte, a partir de Dürer (anverso)
©The Trustees of the British Museum. All rights reserved

Rinoceronte, a partir do de Dürer

Em 1515, nas naus da Índia vinha um animal que a Europa já não via havia séculos: um rinoceronte asiático que os intelectuais e artistas, como Dürer, só conheciam dos livros e desenhos feitos pelos romanos. O artista flamengo desenhou uma gravura sobre madeira que tem uma reprodução no núcleo dedicado aos animais e onde mostra um animal que vai ao encontro da descrição das carapaças e da pele escamosa feita pelos antigos. O que leu dizia-lhe que os rinocerontes têm dois cornos (e assim é com os africanos), mas os relatos de quem o tinha visto em 1515 falavam numa cabeça com apenas um (já que era um rinoceronte asiático). Sem nunca ter visto o animal, arranjou um engenhoso compromisso entre as duas versões e pôs um ensaio de corno no dorso do animal.

Camafeu de um rinoceronte asiático de 1577, conhecido como “A Maravilha de Lisboa”
©Didier Loire, Paris

Um camafeu da Maravilha de Lisboa

Esse rinoceronte foi oferecido ao Papa Leão X por D. Manuel, que a determinada altura se auto-intitulava como “imperador do resto do mundo”, já que dentro da Europa não podia rivalizar com Carlos V. Enviar um rinoceronte e um elefante ao Papa mostrava, mais do que o exótico, onde o rei português já tinha chegado. O bicho tornou-se um hit, mas naufragou junto à costa italiana e a Europa só voltaria a ver outro nos anos 70 do século XVI, no reinado de D.Filipe II de Espanha, Filipe I de Portugal. Ficou conhecido como A Maravilha de Lisboa, embora tenha vivido a maior parte da vida em Madrid, e passou até a ser reproduzido, entre outras peças, em brinquinhos – pequenos objectos (mais ou menos inúteis) para guardar em gavetinhas.

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Taça contendo Pedra de Goa
©Emanuel Santos de Almeida

Um bezoar

O segundo núcleo da exposição é dedicado àquilo que parece ser uma redundância: as “novas novidades”. O último grito da ciência e tecnologia estava à venda em Lisboa, fosse nos instrumentos matemáticos, em alguns mapas do mundo conhecido (desactualizados, para não fazer concorrência à exploração portuguesa) ou em tratados medicinais como o Colóquio dos Simples e Drogas e Coisas Medicinais da Índia, de Garcia de Orta. Aí fala sobretudo das ervas e drogas medicinais no Oriente, de que serve de exemplo o bezoar, uma pedra formada no sistema digestivo de cabras e vacas, que se usava como um amuleto místico, que trazia saúde, digno de uma caixa trabalhada e valiosa. Alguns eram artificiais, produzidos por farmacêuticos segundo receitas secretas, e chamados pedras de Goa.

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