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Contra o Nobel Dylan: A Academia Sueca entrou na era pop

Por José Carlos Fernandes
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A atribuição do Prémio Nobel da Literatura 2016 a Bob Dylan surpreendeu quem apostava em Ngugi wa Thiongo, Ko Un, Rohinto Mistry, Kjell Askildsen, Mircea Cartarescu ou Adam Zagajewski.

Azkena Rock Festival 2010
©Wikipedia

Conta-se que, quando questionado sobre o que o levara a começar a cantar, Jimi Hendrix, cujos dotes vocais estavam a anos-luz das suas mirabolantes capacidades como guitarrista, explicou que, a princípio, não pusera essa hipótese, mas ao ouvir Bob Dylan na rádio pensara que se aquela voz era aceitável e tinha sucesso, também ele poderia tentar a sua sorte. Talvez a história seja apócrifa, mas depois de Dylan ter sido hoje galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, é possível que milhões de escrevinhadores pelo mundo pensem “se ele ganhou o Nobel, porque não eu?”. À luz do Nobel de Dylan, a aspiração expressa por José António Saraiva, logo ao primeiro romance (O último Verão na Ria Formosa, de 2001), de conquistar tal galardão, e que tantos comentários trocistas tem gerado, parece agora bem mais razoável.

Sic transit gloria mundi: Alguém fora da Noruega tem na estante ou teve na mão um livro de Bjornstjerne Bjornson, Nobel da Literatura de 1903?
©Wikipedia

Nestes tempos de interdisciplinaridade e transdisciplinaridade e de “pensar fora da caixa”, a Academia Sueca parece andar – e bem – com vontade de quebrar regras rígidas e de deixar de restringir o Nobel da Literatura a romancistas e poetas – uma prática que terá sido determinante na não-atribuição do Nobel a um contista genial como Borges.

Já em 2015, a Academia Sueca escolhera Svetlana Alexievich, autora que escapa completamente às categorias de “romance” ou “poesia”. Os seus livros, destituídos de artifícios “literários”, são laboriosamente destilados a partir de centenas de entrevistas, em que a autora se apaga e se “limita” a deixar falar as testemunhas de eventos históricos, quase sempre traumáticos, como as mulheres soviéticas que combateram na II Guerra Mundial (A guerra não tem rosto de mulher, acabado de editar pela Elsinore e a ter crítica em breve nas páginas da Time Out Lisboa), as vítimas do desastre nuclear de Chernobyl (Vozes de Chernobyl, também na Elsinore e elogiado pela Time Out Lisboa) ou os soldados soviéticos que combateram no Afeganistão (Rapazes de Zinco, a editar em 2017 pela Elsinore).

©DR

Em 2016, a Academia decidiu ser ainda mais ousada na quebra das tradições e contemplar um “cantautor” – e supõe-se que terá sido o Dylan escritor de letras de canções a merecer o galardão, já que a restante obra literária de Dylan se limita a Tarantula (1971), um livro de “prosa poética experimental” (“logorreia” poderia ser uma descrição mais apropriada). Dylan é escritor no mesmo sentido em que é artista plástico: atingiu um estatuto e uma notoriedade tais que seja o que for que produza despertará a atenção dos media e terá compradores interessados. Se Dylan se lembrasse de realizar, esculpir, cozinhar ou desenhar sapatos, seria de imediato reconhecido nesse domínio, por lamentáveis que fossem as suas “obras”.

Side track, quadro de Bob Dylan, da série Drawn blank, 1989-1992: não seria um mau esforço se viesse de um miúdo de 14 anos
©Wikipedia

Não há nenhum impedimento a que as letras de canções não sejam consideradas literariamente tão dignas como um romance, mas antes de contemplar o surrealismo críptico e autocentrado das letras de Dylan, o primeiro Nobel nessa área teria de ir, sem hesitações, para Leonard Cohen. E não fosse a relutância da Academia Sueca em distinguir autores com menos de 60 anos, poderiam ser candidatos prioritários escritores de canções como Mark Kozelek (Red House Painters, Sun Kil Moon), Mark Eitzel (American Music Club) ou Michael Franti (The Beatnigs, The Disposable Heroes of Hiphoprisy, Spearhead), todos eles criadores de “novas expressões poéticas na linha da grande tradição da canção americana” (foram estas as palavras com que a Academia justificou a escolha de Dylan).

“Music and politics”, do álbum Hipocrisy is the greatest luxury (1992), por The Disposable Heroes of Hiphoprisy; letra e voz de Michael Franti

 

Entretanto, não é arriscado imaginar que António Lobo Antunes, que costuma manifestar publicamente o seu desprezo por prémios e distinções públicas, mas não consegue disfarçar a amargura por nunca ter sido distinguido com o Nobel, tenha ficado particularmente acabrunhado: em vez do japonês Haruki Murakami, do sírio Adonis, do queniano Ngugi wa Thiongo ou do coreano Ko Un (candidatos que, nos últimos anos, têm surgido regularmente nas apostas para o Nobel), foi ultrapassado pela direita por um cantor pop (e logo por um que soa como um ganso constipado). Mas como Lobo Antunes tem escrito letras para fados e para Vitorino, agora que a Academia começou a prestar atenção à canção popular, talvez aceda mais facilmente ao Nobel no contingente dos letristas do que dos romancistas (vamos a ver se a Academia Sueca não cai na tentação de dar o Nobel aos seus conterrâneos ABBA).

De qualquer modo, custa a perceber porque há-de Lobo Antunes – ou qualquer outro grande escritor – ambicionar receber um prémio que também foi atribuído a Pearl S. Buck e Mikhail Sholokhov.

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