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Jambinai: Há vida na Coreia para lá de “Gangnam Style”

Por José Carlos Fernandes
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Os Jambinai e a sua fascinante síntese da música e instrumentos tradicionais da Coreia do Sul com post rock e metal são ainda pouco conhecidos no Ocidente, mas deveriam servir de alerta para as riquezas musicais que estão a despontar na Ásia.
Entre os aspectos negativos da globalização há um que raramente é mencionado: é o facto de a trash culture se ter tornado planetária e de o melómano indefeso não estar hoje apenas sujeito ao refugo sonoro fabricado no seu país como ao que é gerado do outro lado do planeta. Disso se teve penosa prova em 2012, quando milhões de terráqueos que não faziam ideia de que existisse uma coisa chamada K-pop, que nunca tinham ouvido música feita por coreanos e nem sequer saberiam situar Seul no mapa, foram bombardeados com “Gangnam Style”, uma canção de Psy, uma vedeta da pop sul-coreana (K-pop). O vídeo de “Gangnam Style” tornou-se, rapidamente, no mais visto de sempre no YouTube e continua, ainda hoje, em nº1, com um total de 2.6 mil milhões de visualizações.
Uma vez que a componente musical de “Gangnam Style” é tão anódina, padronizada e desprovida de identidade como um terminal de aeroporto, nem sequer se lhe pode apontar o mérito de dar a conhecer no Ocidente algum aspecto da cultura coreana. Para isso será mais proveitoso escutar os Jambinai, um grupo que combina influências ocidentais – na área do post rock – com tradições e instrumentos típicos da Coreia.
O grupo formou-se em 2009 e tem um “núcleo duro” de três elementos: Lee Il-woo, que toca guitarra, piri e taepyeongso, canta (ocasionalmente) e compõe todo o material, Kim Bo-mi, que toca haegeum, e Sim Eun-yong, que toca geomungo, a que se somam um baixista e um baterista para as gravações e concertos.
Os instrumentos requerem, claro está, explicação: o geomungo é uma espécie de cítara cujas cordas (11 nos instrumentos modernos) são “beliscadas” com uma baqueta de bambu;

[Geomungo]

 o haegeum é uma espécie de rabeca de duas cordas, que são friccionadas com um arco;

[Haegeum]

o piri é um instrumento de sopro de palheta dupla, feito em bambu e semelhante no aspecto a uma flauta; o taepyeongso é outro instrumento de sopro de palheta dupla, de corpo em madeira e que termina numa campânula metálica.
Estes venerandos instrumentos – os primeiros registos da existência do geomungo datam do século IV – aliam-se em “Time of extinction” a riffs de guitarra e a grooves de baixo e bateria que não destoariam nos Rage Against The Machine.

 [“Time of extinction”, do álbum Différance (2012)]

Além desta faceta mais enérgica e agressiva, os Jambinai cultivam também uma faceta mais atmosférica e introspectiva, assente em padrões simples repetidos obsessivamente, próxima de bandas como Godspeed You Black Emperor!, mas sempre com o cunho particular do instrumentário coreano – o haegeum de Kim Bo-mi é capaz de gemidos lancinantes sem par no instrumentário ocidental, acústico ou electrónico, e o geomungo de Sim Eun-yong tece malhas hipnóticas.

 [“Connection”, ao vivo]

Os méritos dos Jambinai acabaram por chamar a atenção de alguns promotores de concertos ocidentais e em 2015 o grupo passou pelo festival MED, em Loulé e, em Agosto passado, pelo Teatro da Trindade, em Lisboa, e pelo FMM de Sines.
Não é fácil encontrar o seu primeiro álbum, Différance, fora da Coreia do Sul, mas entretanto o grupo assinou pela Bella Union, a editora dos ex-Cocteau Twins Robin Guthrie e Simon Raymonde, que, este Verão, lançou o segundo álbum do grupo, Hermitage.

 [“They Keep Silence”, do álbum Hermitage]


A globalização tornou corrente que numa cidade cosmopolita como Lisboa se possa desfrutar das gastronomias de todos os continentes, mas as ementas musicais continuam a ser essencialmente ocidentais – os Jambinai são uma boa porta de entrada para a música moderna do Oriente.

 [“For Everything That You Lost”, do álbum Hermitage]

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