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John Hurt (1940–2017) – a morte do actor operário

Por Rui Monteiro
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Às vezes mal se dava por ele, mas John Hurt, que morreu a semana passada, aos 77 anos, levado pelo cancro no pâncreas com que lutava há pelo menos dois anos, estava lá, sempre fazendo a sua personagem brilhar, por mais humilde que fosse o papel, nos 143 filmes em que participou, quase sempre como actor secundário.

Para David Lynch, com quem trabalhou em O Homem Elefante, era “o melhor actor do mundo”, o intérprete que se tornava na personagem. Fosse ela o Sr. Ollivander, que fabricava varinhas mágicas em Harry Potter, o Bobo de Rei Lear, o egocêntrico paranóico Calígula em Eu, Cláudio, ou, em The Naked Civil Servant, Quentin Crisp, o homossexual que no conservador Reino Unido da década de 1950 desafiou as regras e pagou por isso. E foi mais, muito mais, desde que se estreou no cinema, depois de muito teatro e bastante televisão, em Um Homem para a Eternidade, dirigido por Fred Zinnemann, em 1966. 

Actor versátil e capaz de qualquer composição, mas também um dos alcoólicos mais funcionais da história do cinema, foi requisitado por Sam Peckinpah e Roger Corman, por Stephen Frears, Jim Jarmusch, Gus van Sant, Guillermo del Toro, e ainda deu um jeitinho a Steven Spielberg em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Em Alien, o Oitavo Passageiro, Rydley Scott fez o malévolo bicharoco saltar-lhe do peito. Foi ditador fascista em V de Vingança, de James McTeague, com o mesmo empenho com que se entregou ao realizador Michael Radford quando este lhe destinou o desempenho de Winston Smith, a vítima do totalitarismo em 1984.

Quatro vezes casou, duas vezes teve filhos, uma vez foi tornado cavaleiro por Isabel II. Prémios profissionais, fora de Inglaterra, porém, foram parcos. Ganhou um Globo de Ouro, pelo seu papel em O Expresso da Meia-Noite; esteve entre os nomeados para os Óscares para Melhor Actor (O Homem Elefante) e para Melhor Actor Secundário (O Expresso da Meia-Noite); e, no Festival de Cinema de Berlim de 2009, o seu papel em An Englishman in New York, de Richard Laxton, valeu-lhe o prémio de interpretação. 

Com prémios ou sem eles, as loas que lhe são tecidas são todas justas, e ainda verificáveis, por exemplo, nos últimos cinco filmes que interpretou e ainda não estrearam, entre eles Jackie, de Pablo Larraín, e Darkest Hour, de Joe Wright, película onde interpreta Neville Chamberlain, o primeiro-ministro britânico que não viu o mal em Hitler e caiu justamente em desgraça. 

E queria a família que ele fosse pintor…

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