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Júlia: o corpo é que manda

Por Miguel Branco
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O Teatro do Vão, à boleia de Strindberg, regressa ao palco, desta vez na Sala Mário Viegas do São Luiz Teatro Municipal. Espectáculo para ver até dia 7 de Maio

Esta peça começa numa festa. Luzes intermitentes, techno a sair das colunas, conversas-berros. É nesse ambiente taciturno e pouco íntimo que emerge o ritual de acasalamento cujos protagonistas são Júlia (Teresa Tavares) e Jean (João Villas-Boas). 

“Esta noite somos apenas pessoas a divertirem-se, não há classes sociais”, afirma Júlia ao seu criado Jean. A after-party dá-se a dois, na privacidade de quem já se resignou às evidências do desejo, num qualquer recanto de jardim que podia estar entre o Lisb-On e o Brunch Electronik. Isso ou o encenador Daniel Gorjão a atirar-se a um dos clássicos de Strindberg (Menina Júlia, 1888) com a certeza de que isto, dançado, banhado a electrónica e ao barulho das luzes, é profundamente actual. A nova produção do Teatro do Vão estreia hoje na Sala Mário Viegas do São Luiz Teatro Municipal. E por lá fica até 7 de Maio. 

“Este projecto surge em continuidade do trabalho que comecei a desenvolver em 2015 com o Shakespeare, através do Romeu e Julieta, nesta coisa de tentar perceber como é que é fazer um clássico agora, como é que isso se torna contemporâneo. Depois havia a grande vontade da Teresa Tavares de fazer este texto... e isso chega”, explica Gorjão, que já nessa encenação do texto mítico de Shakespeare levou Romeu e Julieta à discoteca. Lugar onde se parece sentir em casa. E de onde pode bem arrancar qualquer relação. 

Em palco, há um tapete gigante de musgo desidratado que serve de cenário a um duelo de titãs. Quando o desejo se precipita e não há regresso, em que é que ficamos? “Peguei no texto e tentei dar-lhe o meu ponto de vista sobre uma coisa de que eu quero falar, neste caso é o desejo e o poder dentro de uma relação. Acho que o desejo é que te move, em todos os campos. Isso é muito premente na peça, o desejo é que os leva à situação e depois ao poder, não tanto o poder social, mas o poder de duas pessoas na mesma relação.”

E estes dois são superguerreiros. Ora domino eu, oras dominas tu, numa caçada que se torna guerra fria e que depois aquece ao ponto de aniquilar um eventual pacto de não agressão. Júlia e Jean desejam-se da mesma forma que se odeiam, que são sugados para o corpo oposto que nem escravos. 

Podemos chamar-lhe ditadura do corpo. Aquela que Gorjão explora através de uma encenação que passa por um conjunto de movimentos mecânicos que se repetem sempre, durante os cerca de 60 minutos do espectáculo. 

Sobem-se e descem-se as mangas da camisa, apertam-se e desapertam-se os botões, Júlia salta contra o peito de Jean, um deles senta-se de joelhos e o outro circunda-o num andar furibundo, tudo isto em loop. “Chamamos-lhe partitura. Decidi não coreografar nada, foi uma série de movimentos que descobrimos juntos, percebi que aquilo tinha muito sentido se fosse repetido, tal como o que acontece com as relações. Andamos ali numa ladainha, depois invertemos os papéis, depois está cada um para o seu lado, mas no início há um ritual, que a pouco e pouco vai progredindo, vai mudando de posições, aqui é importante o poder, quem é que está por cima e quem é está por baixo”, contextualiza. 

Mecanização que por vezes quase torna um texto num adereço, numa muleta para desvendar todos os detalhes do nosso corpo. Nesta luta para saber quem fica por cima, no lugar do poderoso, nenhuma das personagens sai vitoriosa. Ganha Daniel Gorjão. 

Sala Mário Viegas do São Luiz Teatro Municipal. Qui-Sáb 21.00. Dom 17.30. 12€. 

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