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Laura Nyro, 20 anos depois

Por Rui Monteiro
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O nome, hoje, não diz nada a ninguém. E quando morreu, faz agora 20 anos, também eram poucos os que a ouviam. Embora muitos recordem as canções, o mais das vezes interpretadas por outros. Laura Nyro é… uma sombra – e a prova de existir luz na penumbra.

O dia foi vulgar no Dia da Terra de 1990 em Nova Iorque. O tempo estava ameno, fizeram-se as manifestações do costume, as declarações a propósito que se fazem sempre; a maioria foi trabalhar ou tratar de outras coisas da sua vida e passou de largo pelo apelo cívico-ecológico. Talvez houvesse mais bicicletas nas ruas. Mas nem por isso o cheiro de combustível usado e pneus gastos no asfalto irregularmente remendado da cidade desapareceu. O que não interessa nada, aliás. Pois se o Dia da Terra foi de rotina, a noite de 22 de Abril de 1990 foi um acontecimento. Exagero. Não houve epifania nem qualquer espécie de revelação, e a maior parte dos que estavam a tentar chegar ao bar do Bottom Line, os que seguiam entre conversas os artistas sobre o palco, ou os que se acotovelavam o mais polidamente possível na frente do palco deram importância por aí além. Afinal era mais uma cantora de um longo alinhamento nem por isso especialmente aliciante.

Falo por mim, portanto (e, pronto, talvez por mais dúzia e meia). Porque à minha frente, Laura Nyro cantava. Foi uma emoção. E uma frustração, quando concluída Broken Rainbow se levantou e foi embora e não houve motim para ela voltar e cantar cinco vezes o reportório completo. Perdoem-me o pouco profissional testemunho pessoal, mas senti-me abandonado, como daquela vez, um ror, mas mesmo um ror de anos antes, quando ouvi pela primeira vez aquela voz numa canção entalada entre faixas de duas bandas que pouco passaram daquela compilação (It’s Only Rock ‘n’ Roll, talvez? Sei lá?) Como depois aconteceria, deixara-me com uma canção. Canção que levou anos a encontrar as outras, suas pares, dispersas por uma mão mal cheia de álbuns, e confirmar a primeira impressão.

Pondo a coisa de maneira crua, a música de Laura Nyro é uma raridade desconhecida, melhor, esquecida. No entanto muitas das suas canções foram adoptadas por intérpretes como Barbra Streisand, ou Peter, Paul and Mary, Carole King, Three Dog Night, Blood Sweat and Tears e 5th Dimension (que, acreditem, foram artistas verdadeiramente populares durante muitos anos), e são influência reconhecida por cantoras e compositoras da estirpe de Joni Mitchell. Até os seus discos a solo, principalmente New York Tendaberry, mas também Eli and the Thirteenth Confession, Christmas and the Beads of Sweat e Gonna Take a Miracle, por exemplo, tiveram vendas consideráveis. Era agenciada pelo influente David Geffen e o poderoso presidente da CBS, Clive Davis, deu-se ao trabalho de a ir ver cantar. As portas das salas de concerto estavam abertas por todo o lado. Pediam-lhe entrevistas por dá cá aquela palha. A publicidade desejava canções para os seus anúncios. O cinema queria-a a compor bandas sonoras (a única autorização que alguma vez deu foi a de incluir Broken Rainbow no filme com o mesmo título que documentava o realojamento forçado dos navajos). O êxito era dela. Ela não o quis.

Foi o que foi. E não vale a pena fazer do carpinteiro com quem casou, aos 24 anos, em 1971, e que a levou para o interior rural do Massachusetts, uma variedade de Yoko Ono. Nyro divorciou-se depressa e em 1973 publicou Smile e realizou uma digressão, dois anos depois Nested. A seguir desapareceu (para o seu ninho?), outra vez. Para só voltar uma década depois, editando Mother's Spiritual, e esperar mais uma década antes de Walk the Dog and Light the Light nascer, dar-lhe nova oportunidade de estrelato e, mais uma vez, ela recusar a proposta e eclipsar-se, como certas mulheres nas suas canções perante amantes possessivos.

As canções de Laura Nyro são como uma sucessão de convulsões melódicas; a harmonia um sobressalto dos sentidos a que a voz acrescenta uma sensibilidade aventurosa e inquieta; as letras manifesto da existência onde as partes más convivem com as boas numa espécie de realidade transformada que não teme a luz no fundo do túnel, mesmo quando duvida. De certo modo são reflexo do ambiente nova-iorquino, onde nasceu e cresceu entre a aspereza das ruas e a doçura dos sonhos antes do quotidiano os tornar cada vez mais cinzentos e íntimos, porém ainda (e por ventura mais) universalmente cosmopolitas e inquietantemente belas. Na sua voz sente-se o pulsar da vida, uma vida procurando a beleza nos recantos mais esconsos da alma, traduzida em palavras alinhadas em frases que tocam fundo, pois nelas habitam as contradições e as ambições e as perversões e as quimeras e as tristezas e as frustrações e a paixão e o desapontamento e as alegrias, enfim, o que nos torna humanos e conscientes, para o melhor e para o pior. O faz dela uma contadora de histórias exemplar.

E, no fim, ninguém lhe liga. As canções, contudo, andam aí. Arrebatadoras, como mais estas três.

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