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Leonard Cohen (1934-2016). A morte de um poeta

Por Rui Monteiro
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Agora, na hora da morte de um poeta que sobreviveu ao álcool e às drogas e à psicanálise e ao budismo e à falência; um artista que sobreviveu até à fama e que encontrou, no fundo do seu próprio abismo, inspiração para um poemário e um cancioneiro de sentimentos e sensações que é porto de abrigo para o que nenhum antidepressivo alivia. Agora, na hora da morte de um homem assim, perante o turbilhão de palavras que o lembram, que o recordam, que o choram com sinceridade, que alinham frases por dever ou apenas por ser a tendência do dia; numa altura como esta, parece vão acrescentar, contribuir para o ruído em vez de ouvir as palavras e as melodias que deixou.
Porque na vida real a Fénix não renasce das suas próprias cinzas. O que sobra é memória. A memória de uma obra que, ao contrário da sua vida, nunca se transformará em pó, pois antes adubou a criatividade de quem influenciou, enraizando-se e crescendo e instalando-se no coração dos que a admiram, mesmo contra a vontade ou a inércia do criador. Que é como quem diz: Leonard Cohen não é um dogma. O seu trabalho, porém, inspira um respeito e uma devoção de ordem praticamente religiosa. Coisa que musicalmente começou na transição dos anos de 1960 para a década de 1970, com a publicação de Songs of Leonard Cohen, Songs from a Room e Songs of Love and Hate, quando um poeta canadiano, já com uma década de trabalho publicado e reconhecido e premiado, construiu os pilares da sua obra musical sobre o cadáver das festivas quimeras hippies.
Foi na época em que o exibicionismo derrotou a genuinidade, o rock deu o berro criativo, e as ilusões de grandeza do sinfonismo dominavam a música popular. Nessa época, as canções de Cohen eram como um resguardo que protegia da avalancha de mau gosto generalizado que foi a década de 70 do século passado. Aliás, foram quase sempre dele os temas que se mantiveram à tona no mar de delírio lisérgico em que a pop/rock se afundou daí até à redenção punk. O que não é de admirar, pois enquanto os seus pares veneravam Robert Johnson, Muddy Waters ou Leadbelly, os heróis do novo compositor eram Camus, Sartre, Yeats e, claro, o santo padre da sua poesia, Federico García Lorca – exemplos muito mais apropriados para inspirar a banda sonora de um tempo em que a prosperidade do pós-guerra se desvanecia, a crise do petróleo não prometia nada de bom e era garantido não haver nenhuma sociedade de pão e rosas no horizonte.
O lirismo de Leonard Cohen em New Skin for the Old Ceremony (1974) transita do desespero estóico para o humor sarcástico, e em Death of a Ladies’ Man (1977) constata a sua impotência em poesia despida de qualquer prazer, apenas martírio. A partir de Recent Songs (1979) só em exemplos esparsos se encontra a mistura de fé e desespero que criou este exemplar poeta e contador de histórias, capaz de melodias cativantes e de uma interpretação dramaticamente perfeita da desilusão, do ciúme, dos amores moribundos, do desejo e da traição, da solidão, da ganância e da saudade amarga do que foi e se perdeu. Canções onde, gradualmente, a continuada interrogação, a dúvida existencial e persistente perde a réstia de esperança original (acentuada nos derradeiros álbuns, a chamada trilogia da falência, iniciada em 2012 com Old Ideas, prosseguida dois anos depois por Popular Problems e concluída este ano em You Want It Darker), tornando-se uma resignação tranquila, o rancor capciosamente camuflado, o desespero poeticamente insinuado até se tornar propriedade comum. Afinal, quando abrir os pulsos é uma alternativa, é deveras agradável saber que alguém vive em estado ainda mais lastimável. E agora – porra – morreu.

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