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Os “Lírios” de Van Gogh dançaram na minha barriga

Os “Lírios” de Van Gogh dançaram na minha barriga
©Dr

Estive na inauguração de “Van Gogh Alive – The Experience”, exposição multissensorial que fica até Agosto na Cordoaria Nacional. E sobrevivi para contar

O aviso estava feito, e logo no nome: “Van Gogh Alive – The Experience”. Claramente não é um nome de exposição comum, daquelas com paredes brancas, ocupadas por quadros alinhados. Isto pressupõe um ingrediente secreto, um o-segredo-está-na-massa. Meto um pé lá dentro e a primeira garantia é: isto não tem nada a ver com pizzas. No entanto, não deixa de soar a encomenda, uma proposta artística inédita em Portugal, que a Cofina Eventos tratou de trazer para a Cordoaria Nacional. 

Uma escadaria depois e estamos noutro planeta. Ponho em prática, eu e todos os presentes, a posição sagrada de quem entrou numa igreja. O tecto não tem detalhes manuelinos, mas obriga a olhar atentamente, tal é a projecção de imagens relativas a Van Gogh, que aliás percorrem todo o espaço entre telas gigantes em vários ângulos. São obras, dados biográficos, frases do holandês. Tudo acompanhado por uma banda sonora que desafia os tímpanos e quase me obriga a sentar, a perceber o que me rodeia. É que isto, para quem tem vertigens desde que visitou o Cristo Rei em miúdo, pode-se revelar uma experiência complexa. 

Há algo de magnânimo, que me obriga a controlar a respiração antes de perceber o que há aqui de Van Gogh para levar para a posteridade. Mas há, e muito.

Na salinha mais convencional, como estamos habituados a consumir em galerias e museus, podemos espreitar grande parte das obras presentes, como “Auto-retrato com Orelha Ligada” (1889) ou “A Vinha Encarnada” (1888). Sim, que “Van Gogh Alive – The Experience” centra-se sobretudo na década de 1880 a 1890, quando Van Gogh viveu em Arles, Sanit Rémy e Auvers-sur-Oise. 

 

A melhor forma de explicar esta experiência é enquadrá-la como um Van Gogh 360º. “Lírios” (1889) e “Os Girassóis” percorrem-me a barriga, onde até percebo que gostem de se refugiar. Daqui a uns anos, quando se inventarem jardins botânicos cinematográficos (ou apenas projectados, com aromas da vegetação para ser tudo mais fiel à realidade), vou lembrar-me desta exposição inovadora. 

E como bom português que sou, se é evolução, se é coisa nova e tecnológica, tenho que questionar, tenho que duvidar do seu interesse para a existência humana. Vale a pena experimentar, porque a ignorância é dos piores inimigos do homem. Mas também lhe digo que a velocidade a que mudam as imagens e a música questionam, por certo, o conceito de observação de arte, em que, por norma, gosto de me deixar estar, de perder o tempo que acho necessário em cada peça. 

Uma última nota: cuidado com os torcicolos. 

Cordoaria Nacional (Torreão Poente), Rua da Junqueira, 342. Dom-Qui 10.00-20.00, Sex-Sáb 10.00-21.00. 9,50€

 

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Comentários

2 comments
Tatiana C tastemaker

Amei a experiência. A arte vivida num formato diferente é sempre positivo para mim. Uma sala vasta que oferece uma autêntica viagem pelo mundo de Van Gogh (o seu percurso, as suas criações, textos e frases que descrevem os eu mundo e visão) acompanhada por uma banda sonora de música clássica que enche a alma. Levei a minha filha de 15 anos que ficou deitada no chão a ver as imagens a passar e a ler as frases projectadas. É uma forma totalmente inovadora de viver uma exibição. É completamente sensorial e uma experiência que nos convida a entrar para dentro de um mundo no primeiro momento. O preço é alto. Para a exposição em si, que está concentrada numa sala apenas, acaba por ser elevado. Compreendo que seja uma exibição privada mas mesmo assim, para muitas pessoas / familias, acaba por ser um valor proibitivo.

Margarida Silva tastemaker

É um conceito de exposição diferente e que merece a visita. Senti-me como que espectadora de um espectáculo alternativo em que me passava pelos olhos e ouvidos uma época contada pelo perturbado e sábio pintor e poeta.

A exposição oferece uma viagem pelas fases da vida do artista contadas pelo próprio, através da sua arte e da sua mente. Visitamos desde os campos agrícolas da Holanda até a telhados idílicos de Paris. Conhecemos alguns rostos que fizeram parte do percurso de Vincent e sentimos a beleza dos girassóis e a calma das noites estreladas. O rebuliço do seu auto retrato e a beleza dos ciprestes.

No entanto, e falando do aspeto mais logístico da exposição, achei que é demasiado cara para a infraestrutura. Por muito inovador que seja o conveito e por muito que tenha gostado, penso que em Portugal a cultura deveria ser mais acessível para que todos possamos ter a mesma oportunidade de conhecer este tipo de trabalhos. 


Não tenho certeza de nada, mas a visão das estrelas me faz sonhar.” 

Vincent Van Gogh