Cinco coisas que não sabe sobre a exposição de Amadeo de Souza-Cardoso, em 1916

Cem anos depois da grande exposição, o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado recebe mais de 80 obras de Amadeo de Souza-Cardoso. Um belo pretexto para recordarmos o reboliço de 1916
A casita clara    paysagem de Amadeo Souza-cardoso
©Museu Calouste Gulbenkian – Colecção Moderna A casita clara paysagem, de Amadeo de Souza-Cardoso
Por Mauro Gonçalves |
Publicidade

Não, a viagem no tempo não é gratuita. A partir de dia 12 de Janeiro, o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado assinala aquela que foi a primeira grande exposição individual de Amadeo de Souza-Cardoso, em Portugal. Um século depois e 33 obras a menos, primeiro no Porto e agora em Lisboa, o génio é recordado, se bem que sem o alarido de outros tempos. Vejamos. 

Mais do que vender, provocar

É Marta Soares, uma das curadoras da actual exposição, que o diz. E a verdade é que dinheiro não era coisa que lhe fizesse falta, propriamente. Os preços eram puxadotes, ainda assim, ficavam a baixo dos malhoas e columbanos da vida. Já a exposição, parece que foi bancada pelo pai do artista, sem restrições de orçamento e como convinha a um Amadeo desejoso de fazer ondas.

Adeus Paris. Olá Manhufe

A troca não parece justa, mas foi necessária. Quando inaugura a exposição, a 1 de Novembro de 1916, no Jardim Passos Manuel, Amadeo já se tinha mudado para Portugal há dois anos. Veio com a mulher, Lúcia, e assentou arraiais na sua terra-natal, Manhufe, em Amarante. Para trás, deixou um apartamento bem recheado, mas também uma guerra mundial, onde ser chamado para combater não dava mesmo jeito nenhum.

Um caos organizado

Tanto no Porto como em Lisboa, Amadeo de Souza-Cardoso foi o seu próprio curador. Escolheu os espaços, organizou e dispôs as obras como bem entendeu. E, claramente, a julgar pelo catálogo da época, só mesmo o próprio para se orientar. O registo dificultou a vida a quem teve de reunir as obras 100 anos depois. Nada de imagens, descrições nem medidas. Apenas os títulos lá estavam à espera de serem desvendados pelos mais perspicazes.

Porto e Lisboa

Os dois públicos comportaram-se de maneiras muitos diferentes. No Porto, foi um alvoroço. Trinta mil visitantes em 12 dias, gente escandalizada com os preços e com os títulos (alguns eram, de facto, meio doidos). O próprio traço modernista era visto como afronta para os mais conservadores. Não é certo que tenha mesmo havido pessoas a cuspir nos quadros, mas de uns sopapos no meio da rua, disso temos a certeza, o pintor não de livrou. Em Lisboa, o clima foi outro. Menos gente e um ambiente mais elitista, proporcionado pela Associação Naval Portuguesa.

O caso Maria Arade

Sem recurso à violência física, a imprensa também contribuiu para o aparato. Alguns críticos reconheceram valor no trabalho do mestre modernista, outros só viram atentados aos valores estéticos em vigor. Maria Arade, repórter sensação do jornal A Luta, escreveu “A única coisa que se percebe d’A ascensão do quadrado verde e a mulher do violino é que custa 600 mil réis”. Falou e disse.

Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Rua Serpa Pinto, 4. 21 343 2148. Ter-Dom 10.00-18.00. Até 26 de Fevereiro. Entrada: 4,50€.

Publicidade
Esta página foi migrada de forma automatizada para o nosso novo visual. Informe-nos caso algo aparente estar errado através do endereço feedback@timeout.com