Eles voltaram e os workshops mais caseiros de Lisboa também

Depois de uma aventura em Lisboa, uma odisseia por três continentes. O casal Nic e Inês voltou com uma nova agenda de workshops e as histórias de quem passou quatro meses a viajar pelo mundo

Nic & Inês  (Fotografia: Arlindo Camacho)
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Fotografia: Arlindo CamachoNic e Inês arrumam a casa para a nova vaga de workshops ao sábado
Nic & Inês  (©DR)
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©DRRetrato de grupo depois de um workshop na Ashburton Primary School, em Melbourne
Nic & Inês  (©DR)
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©DRAinda em Melbourne, Nic e Inês antes de darem um workshop na Brunswick Street Bookstore
Nic & Inês  (©DR)
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©DRNic de passagem por Hosier Lane, as ruas mais grafitadas (e fotografadas) de Melbourne
Nic & Inês  (©DR)
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©DRFlores e papel reciclado, os dois ingredientes deste workshop, em Chiang Mai, na Tailândia
Nic & Inês  (©DR)
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©DREm Hanói, Nic e Inês foram surpreendidos por uma televisão vietnamita
Nic & Inês  (©DR)
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©DRNo Verão, antes da grande viagem, o casal convidou amigos e vizinhos para uma festa de despedida, no pátio
Nic & Inês  (©DR)
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©DRO casório, na Lx Factory

Ir ou ficar? A pergunta não é de agora, nem de há quatro meses, quando Nicholas Carvalho e Inês Almeida largaram tudo para fazer a viagem de sonho. É preciso recuar um pouco mais, até ao início de 2013, antes mesmo de termos encontrado este casal maravilha a receber estranhos em casa com fins meramente educativos. Ali e acolá, os amigos estavam a zarpar para os quatro cantos do globo, o desemprego tinha batido à porta e a vontade de conhecer mais mundo era sempre aquele bichinho. Mas não era o único. “Foi a viagem que tínhamos feito a Nova Iorque, dois anos antes, que desencadeou isto tudo”, conta Nicholas, na sala lá de casa, a mesma onde recebem os alunos de fim-de-semana. “Passámos lá dez dias e, enquanto cá, só encontrávamos workshops muito caros, para uma elite, lá havia uma grande descontracção na partilha”, acrescenta Inês.

Mais tempo livre tornou-se então sinónimo de pôr mãos à obra, mas com os pés bem assentes em Lisboa. Em Abril desse ano, já a Time Out lhes entrava pela casa adentro e tentava perceber o que levava um jovem casal com queda para as artes a dar workshops e cursos em casa. Percebemos logo que a empatia tinha de ser total. Que, ou as visitas se sentiam bem-vindas e relativamente à vontade, ou a ideia, por muito peregrina que fosse, não ia vingar. Reservas escusadas, para não dizer outra coisa.

Os primeiros workshops de livro de artista, cianotipia, ilustração e encadernação xpto juntaram modestos grupos de três ou quatro pessoas. Pouco tempo depois, a Casa Nic & Inês já começava a lotar. Os sábados passaram a dividir-se em dois turnos, cada um com cerca 15 alunos, quase todos na casa dos trintas e dos quarentas. Estudantes, professores (os de EVT aproveitavam para dar uma actualizada) funcionários de repartições de finanças, gente crescida com vontade de abancar na casa alheia e passar umas horas e recortar cartolinas coloridas, a fazer colagens e a relembrar o que é pegar em lápis de cor.

Conversa fiada

É no que dá ter anfitriões assim, bem relacionados. Nic e Inês quiseram dar um toque diferente às aulas, na medida do possível para quem tem um T1 na Estefânia. Começaram a convidar alguns ilustradores conhecidos para participar nos workshops, mas na verdade, quem aparecia queria era conversa. Fizeram a vontade às visitas. Pelas tardes de Parlapiê, como lhes chamaram, já passaram Afonso Cruz, Joana Bértholo e outros. A entrada foi sempre gratuita, quem aparecia só tinha de se encarregar do lanche. Pelos vistos, a melhor ideia de sempre. “Ficávamos com comida para uma semana cada vez que organizávamos estas conversas”, conta Inês.

O grande dia

Impossível de esquecer é o dia 29 de Junho de 2013, quando o projecto caseiro deu origem à primeira exposição, no Balneário da Lx Factory. “Casa” parecia ser só uma alusão ao contexto doméstico em que todas aquelas ilustrações tinham sido feitas, mas não foi bem assim. Com medo que a inauguração não tivesse a afluência que tanto queriam, decidiram casar no mesmo dia, no mesmo sítio, à mesma hora. Se resultou? É óbvio que sim, se bem que o centro das atenções não foram propriamente as paredes no Balneário.

Volta ao mundo em 100 dias

Já todos ouvimos uma história destas. Do amigo do amigo que se despede, faz as malas e vai viajar pelo mundo. Em Outubro, foi a vez deles. Deixaram os cursos e workshops caseiros e apanharam um avião para Nova Iorque, a cidade que, seis anos antes, os inspirou a abrirem as portas de casa. Não foi a primeira vez, mas foi especial. Conheceram Esther K. Smith, um nome que pouco diz aos comuns mortais, mas uma verdadeira guru na arte de trabalhar o papel. Ela convidou-os para o ateliê, em Manhattan, gravou com eles um pequeno workshop de livro ilustrado e ainda os levou a almoçar a China Town. Nos dias seguintes, passaram por Austin, no Texas, pelo Novo México e acabaram em cheio em Venice Beach, Los Angeles.

Ao fim de duas semanas, já chegava de Ocidente. Próxima paragem: Hanói, uma cidade agridoce, tal como na cozinha asiática. Durante duas semanas (eram para ter sido três), fizeram apresentações e deram workshops, um deles a crianças vítimas de tráfico humano. Chegaram a ser entrevistados para um canal de televisão vietnamita, mas nem o nome puderam dizer. Dobraram papel e ficaram por aí. As restrições no acesso ao blogue (uma espécie de diário de bordo, onde qualquer um podia acompanhar a jornada à distância) e o caos da capital, fizeram-nos encurtar a estadia. Afinal, havia ainda muita Ásia para descobrir: Seul, onde foram definitivamente conquistados pelas salas de karaoke, Taiwan, Malásia e Chiang Mai, a cidade do norte da Tailândia onde se aplicaram à séria nas aulas de cozinha.

Último destino: Austrália. O Natal? Festejado de calções, chinelos e com um churrasco no terraço. A agenda de workshops em escolas não deu tréguas, mas as saudades de Lisboa já começavam a apertar e Melbourne não tem assim tanto assunto quanto isso.

De volta à carga

Bem que eles disseram que a sala estava a ficar pequena. O tema é sensível, até porque esta casa já conquistou demasiados amigos para agora se mudar para outras bandas. “O espaço tem de ser este. As pessoas gostam deste cantinho. Vêm, trabalham e até ajudam a limpar a casa no fim”, conta Nicholas. Concluindo, para já, é mesmo assim que vão ficar, no aperto. A par disso, é preciso ir fazendo qualquer coisa fora de casa. Inês já voltou a trabalhar com uma escola em Lisboa. Nicholas, professor de inglês, está à coca do que vai aparecendo. As aulas caseiras já pagam as contas, mas ter um emprego é, neste momento, uma questão de bom ambiente doméstico.

Entretanto, na Casa Nic & Inês é tempo de regresso às aulas, enquanto procuram um espaço para expor todos os trabalhos feitos durante a viagem. O programa já arrancou em Fevereiro, mas para Março e Abril já há datas no calendário. Encadernação medieval, ilustração infantil e, imagine-se, litografia com Coca-Cola têm inscrições abertas. Por 12 euros, aguça-se a arte, agora com técnicas que os mestres trouxeram de outras paragens.

Inscrições: ineslcostalmeida@gmail.com

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