Tatuagens ao domicílio

O que acontece quando ilustradores e artistas urbanos pegam na agulha
Tamara Alves a tatuar
Fotografia: Ana Luzia Tamara Alves: uma artista urbana a tatuar
Por Clara Silva |
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Do papel para a pele foi um saltinho para estes ilustradores que trocaram o lápis pela agulha. A Time Out falou com quatro artistas plásticos contemporâneos que fazem disto uma brincadeira de trazer por casa. 

André Teixeira a.k.a 'Hell Yeah'
©André Teixeira

André Teixeira a.k.a 'Hell Yeah'

“Amanhã vou estar a responder às mensagens que recebi nos últimos dias e quero fazer todas as tattoos. Obrigado.” O post já é antigo no Facebook de André Teixeira, também conhecido como Hell Yeah, mas há várias respostas de amigos e fãs. “Prepara-te para a minha”, “dá uma olhadela e arranja um tempinho” ou “vou enviar uma só para te dar mais trabalho” são alguns deles. Uma avalanche de trabalho no pequeno estúdio que montou em casa (apesar de às vezes também trabalhar como guest numa loja, a Studio 22, perto de Coimbra). “Tatuar em casa, ou ter um estúdio pequeno mais privativo, tem um charme diferente – ou falta dele –, e isso atrai clientes, alguns mais reservados que muitas vezes não querem ir a uma loja por alguma razão”, conta. Começou a tatuar há oito anos mas foi aos 18 que descobriu que era isso que queria fazer. “Entrei numa loja de tattoos, nessa altura não sabia o que queria ser ‘quando fosse grande’ e acabei por me apaixonar pela ideia de marcar pessoas para o resto da vida.” A primeira tatuagem que fez foi a si próprio, “uma minicaveira mexicana na perna”. Treinou com isso e com “bastantes meses a desenhar, desenhar, desenhar, desenhar”. Agora só se tatua a si próprio quando está aborrecido no estúdio “com o material montado e um cliente não aparece”, ri-se.

Primeira tatuagem

Uma minicaveira mexicana na perna.

Começou a tatuar
Há oito anos.

O que lhe pedem
Desde cactos, patos, vacas, punhais, barcos dentro de garrafas, um pouco de tudo.

Onde tatua
Em casa, num estúdio improvisado, ou como guest, no Studio 22, perto de Coimbra.

Tatuagem mais complicada
Tudo o que seja fora da sua zona de conforto, como aguarela ou linhas grandes, da dimensão das costas.

Gemeniano Cruz
©Gemeniano Cruz

Gemeniano Cruz

Antes de ser tatuador, já costumavam pedir ao ilustrador Gemeniano Cruz desenhos que depois eram passados para a pele. “É engraçado, diziam que o meu estilo se adequava bastante. Assim que fiz a minha primeira [tatuagem], começaram a pedir-me para fazer mais, o que me surpreendeu”. Foi por “constante pressão” de um colega que começou a tatuar “sem nunca ter pegado numa máquina”, recorda. “Ele confiava em mim. Mas eu estava supernervoso, a tremer e o ambiente foi de cortar à faca. Três pessoas em cima do que estava a fazer e eu superconcentrado.” Foi treinando para ganhar ritmo e começaram a pedir-lhe cada vez mais “conceitos náuticos”. “Exploro bastante esse tema, talvez por ter nascido em Sesimbra”. O que começou como uma brincadeira de trazer – neste caso de fazer – por casa, transformou-se num negócio sério, de tal forma que se profissionalizou e hoje está num estúdio – o Gury Tattoo, na Amora, na Margem Sul. “Vejo algumas vantagens em tatuar em casa, mas só para um profissional que já está no mercado há algum tempo, que já tenha marcado pelo seu trabalho e pelo seu nome”. Para começar, aconselha um estúdio. “Há uma melhor aprendizagem, mais completa e profissional, e também mais cuidados de higiene e segurança.”

Primeira tatuagem 
A um colega.

Começou a tatuar
Por constante pressão do mesmo colega.

O que lhe pedem
Motivos náuticos. Os clientes dão-lhe liberdade para criar um desenho ou escolhem algum do seu portfólio. Outros vêm com uma ideia formada na cabeça, que viram na internet ou em revistas.

Onde tatua
Na Gury Tattoo, na Amora, Margem Sul.

Tatuagem mais complicada
O que complica mais são zonas específicas e a forma do corpo e não propriamente o desenho.

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Tamara Alves
©Tamara Alves

Tamara Alves

Tamara Alves deu o corpo ao manifesto. A ilustradora e street artist deixou que um principiante lhe tatuasse um lobo nas costelas, “um dos sítios mais dolorosos”, conta. “Só depois percebi que era a primeira tatuagem do género que ele fazia. Uma coisa que podia ter sido rápida durou quatro horas, saí de lá com febre”. Quando começou a tatuar – mais um “suporte pouco convencional”, como o resto do seu trabalho – um grupo de amigos juntou-se para lhe oferecer uma máquina, “um kit de iniciados”. “Comecei a testar em pele falsa, pele de laranja e limões e até comprei orelhas de porco, que nunca cheguei a usar por causa do cheiro.” Os amigos já lhe conheciam os dotes e alguns corajosos ofereceram o corpo para que treinasse. Também começou a tatuar o seu próprio braço, primeiro com frases, depois fez uma pena e depois um enorme tigre, um dos animais mais presentes no seu trabalho, seja nas paredes da cidade ou das galerias. Hoje tudo se tornou mais sério e costuma receber pedidos de conhecidos e desconhecidos para passar o seu trabalho das telas e do papel para a pele. “Geralmente, tento não repetir nenhuma tatuagem”, conta. “As pessoas vão a minha casa e já cheguei a ir ao domicílio.” Nos últimos tempos também tem feito umas sessões rápidas de tatuagens, as flash tattoos sessions, na Ó! Galeria lisboeta. “Pequenas caveiras de pássaro, dentes, várias coroas Basquiat, um coração, uma traça, um lobo, um tigre…” Tudo coisas rápidas de tatuar, para que não haja sequer tempo para arrependimentos.

Primeira tatuagem
A si própria, uma palavra no braço.

Começou a tatuar
Com uma máquina dada por um grupo de amigos a testar várias peles falsas.

O que lhe pedem
De tudo, desde trabalhos seus como uma mulher metade caveira a fumar um cigarro, desenhos por encomenda, até um Bart Simpson numa nádega.

Onde tatua
Em casa, ao domicílio e na Ó!Galeria, nas flash tattoos sessions.

Tatuagem mais complicada
Em Bruxelas, uma coxa inteira, com uma personagem com uma cabeça de lobo e um corvo a sair do cabelo.

Wasted Rita
©Wasted Rita

Wasted Rita

Não foi fácil convencer Rita Gomes, mais conhecida por esse mundo fora por Wasted Rita, a entrar neste artigo. "Não faz muito sentido porque só fiz duas tatuagens na vida", diz a ilustradora do Porto, a viver em Lisboa. O que lhe costuma acontecer com frequência é receber por email fotos de desconhecidos que tatuam trabalhos seus pelo corpo. De tal forma, que já criou um hashtag para a ocasião, wastedritaonskin, “para reunir fotos que vão surgindo na caixa de email” e que depois partilha nas redes sociais. “It’s not you, it’s my inhability to stand human beings”, “I might be a fool, karma ain’t” ou “So priceless you’ll never get” – esta última com uma palavra riscada no braço de alguém – são algumas delas. “A primeira que fiz foi quando estava a viver em Zagreb, há dois anos, a um rapaz que tinha acabado de conhecer, amigo de amigos”, conta. “Correu melhor do que pensava, visto ter sido feita sem desenho prévio e com uma dimensão assustadora para primeira experiência.” Já a primeira vez que alguém fez uma tatuagem de um trabalho seu, foi um “desconhecido qualquer, austríaco”, recorda. “Tatuou um desenho/logotipo que fiz para uma banda holandesa de uns amigos, Antillectual. Era um coração meio esborratado e sujo.” Se algum dia decidir fazer mais tatuagens será em sua casa. “Com o meu material comprado há dois anos e usado duas vezes”, diz. Vamos esperar por isso.

Primeira tatuagem
Foi há dois anos, sem desenho prévio, a um amigo de amigos em Zagreb.

Primeira tatuagem que alguém fez de um trabalho seu
O logotipo de uma banda holandesa, Antillectual.

Onde tatua
Por enquanto em lado nenhum, mas se o fizer será em sua casa, com o material que só usou duas vezes.

O que sente quando recebe tatuagens de desconhecidos na caixa de email
“OK, don’t make a fuss about it”.

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