O Bom, o Mau e o Glutão: os melhores chocolates que provámos em 2016

Desde Outubro que analisamos as novidades da junk food com a seriedade que ela não merece. Estas são as conclusões da coluna de opinião preferida dos nutricionistas sádicos de Lisboa. Conheça os melhores chocolates e os que deve evitar

©DRM&M's de bolo de anos

Mas vamos lá ver: o cacau é o fruto de uma planta, o cacaueiro, por isso estas guloseimas são praticamente uma salada de frutas. Saiba aqui quais são os melhores chocolates

O Bom, o Mau e o Glutão

Kit Kat Chunky Peanut Butter

Kit Kat Chunky Peanut Butter

5 Estrelas

Daqui a uns anos as pessoas vão perguntar-se: o que chegou primeiro, o Kit Kat ou o Kit Kat Chunky? Pertencemos provavelmente à última geração a lembrar-se do mundo antes deste Kit Kat em esteróides, espécie de tijolo com o qual construímos um monumento à diabetes. A variedade analisada recentemente segue o menos conhecido dos Dez Mandamentos, o décimo primeiro: “Colocarás manteiga de amendoim em tudo. E tudo saberá melhor”. A lei é confirmada de forma avassaladora à primeira dentada: uma javardose de açúcar e gordura que nunca será tema de conversa com o nosso médico de família. É um chocolate metabolicamente desafiante, se quisermos usar um eufemismo. E este é um daqueles casos em precisamos muito de um eufemismo.

Comacompão

Comacompão

3 Estrelas

Não há chocolate tão autoritário: “Coma Com Pão!”. Já imaginaram um bolo chamado Mastigue Devagar ou um sorvete da marca Lamba? O nome dá a receita e o slogan uma sugestão: “Delicioso para o Lanche”, frase que os nutricionistas são conhecidos por não dizer. Está na mesma categoria da Nutella e outras invenções tulicriminosas e permite transformar qualquer papo-seco num pain au chocolat, democratizando o acesso à pastelaria francesa. É um souvenir dos anos 70 e 80 e vende-se n’A Vida Portuguesa.

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Nutella B-ready

Nutella B-ready

3 Estrelas

A criação mefistofélica de Pietro Ferrero surge agora nas prateleiras de supermercado com uma nova forma: chama-se Nutella B-ready e pertence à categoria das “guloseimas cavalo-de-tróia”, doces hipercalóricos disfarçados de complementos benignos às refeições. São pequenas barras do diabólico creme de chocolate e avelã cobertas por uma massa que faz lembrar um cone da Progelcone ou (Deus nos livre!) uma hóstia abaunilhada. Tudo isto camuflado de snack de pequeno-almoço e vendido num pacote com oito embalagens individuais. É uma maneira de comer Nutella sem sujar talheres, longe de casa e sem parecer o selvagem dependente de açúcar que, lá no fundo, sabemos que somos. Se gosta de Nutella, vai adorar. Se ainda não vendeu a alma ao diabo, não vai ser desta.

Milka & Daim

Milka & Daim

4 Estrelas

Milka é um chocolate, Daim é um chocolate, Milka & Daim é outro chocolate. Como? Não estamos perante uma sobremesa siamesa, apenas um chocolate de leite Milka com pedaços do caramelo Daim. Imaginem um fóssil representativo de uma fase de canibalismo entre tabletes. “Professor, temos provas de que os Milkainos e os Daimlios eram tribos rivais.” É uma guloseima obtida através de aglutinação, um processo muito popular na semântica para a criação de neologismos, aqui adaptado à culinária. Uma matrioska de açúcar para gente gulosa e mandriona que não tem vagar para comer uma coisa de cada vez. É, obviamente, o tipo de coisas que aprovamos com entusiasmo.

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Delicious: Chocolate com amêndoas caramelizadas

Delicious: Chocolate com amêndoas caramelizadas

5 Estrelas

Os chocolates de marca branca são o parente pobre das guloseimas de supermercado. Discretos, embrulhados nas suas embalagens genéricas, pedindo desculpa por existir. Alguns são dispensáveis, pobres em cacau e a um percentil da categoria sucedâneo. Mas depois há surpresas como esta tabletecinderela que muitos snobs da doçaria industrial podem ignorar – “o quê? o príncipe mesmo vai dançar com ela!?”. Tem o apelativo nome de Chocolate de Leite com Amêndoas Caramelizadas e um Toque de Sal e faz parte da submarca gourmet de duas grandes superfícies de desconto: Dia e Minipreço. É uma das melhores relações qualidadepreço que as nossas papilas gustativas já conheceram: primeiro sente-se o chocolate de leite, a seguir trincam-se as amêndoas e depois vem uma pedra de sal dizer “bom dia!” às glândulas salivares. Um chocolate à medida de qualquer sapato de cristal.

M&M's de bolo de anos

M&M's de bolo de anos

4 Estrelas

Estes curiosos M&M’s tentam emular um sabor hiper-específico que corresponde, simultaneamente, a um espectro alargado de referências. O que é um bolo de anos? Para umas pessoas é um pão de ló com recheio de ananás e chantilly, para outras é um bolo com creme de pasteleiro e pedaços de amêndoa (ou será noz?). Mas o bolo de anos destes M&M’s não é um sabor, mas uma memória. Sabe ao acordar de manhã nessa espécie de Natal antecipado; sabe a despreocupação e a Legos. Por outras palavras: açúcar, baunilha e nostalgia. Não é um gosto adquirido, mas o seu oposto: um gosto desaparecido que de repente foi lá a casa lanchar.

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Choc Ovo

Choc Ovo

2 Estrelas

É a primeira vez que criticamos um chocolate que se vende em lojas de desporto. Isso mesmo, uma guloseima que está perto da caixa registadora do sítio onde se compram meias para correr, chuteiras para jogar futebol e calças de fato de treino para passar a tarde no sofá. As barras de Choc Ovo são uma derivação da marca de chocolate em pó Ovomaltine, inventada para misturar no leite, mas que algumas pessoas (não vamos dizer quem) comiam à colherada sem ninguém saber. É por isso que para algumas pessoas (já perceberam quem) uma versão sólida deste produto à base de ovo, malte e cacau parecia uma óptima ideia. Parecia. À primeira dentada percebemos que a elevada concentração de Ovomaltine deixa o paladar sobrecarregado e a boca seca. A desilusão cai sobre nós. Isso e a ideia de que comer publicamente um chocolate comprado numa loja de desporto nunca será tão bom como ir às escondidas à cozinha esvaziar uma lata.

Crunch Noir

Crunch Noir

3 Estrelas

Provar um chocolate de uma multinacional comprado num supermercado e pensar, “isto ia bem com um copo de vinho”, significa três coisas: a) que o nosso paladar está desenvolvido ao ponto de procurar instintivamente o emparelhamento entre uma sobremesa e um vinho; b) qualquer desculpa serve para beber; c) estamos a ficar crescidos. O Crunch Noir é um Crunch adulto, amargo, a esforçar-se por parecer mais requintado. Reparem, o apelido é “noir”, do francês, e não “dark” ou “negro”. É um chocolate sério que, por entre a elevada concentração de cacau e arroz tufado, nos julga por ainda não termos feito um PPR ou por termos tirado um curso com tão pouca saída. “Medicina, engenharia, direito, isso sim são cursos a sério!”, diz o Crunch Noir. Vamos ser sinceros: é uma boa variação do original mas nós não comemos chocolates para nos sentirmos mais crescidos. É ao contrário.

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Milka Choco Jelly

Milka Choco Jelly

1 Estrela

Há coisas que parecem boa ideia na altura, mas depois revelam ser congeminações desastrosas. Como pôr a nossa canção preferida como toque de despertador, tirar o curso de Direito ou marchar sobre Alcácer-Quibir. São projectos aos quais nos dedicamos com confiança e tranquilidade – o que pode falhar? – e depois se comportam como a Bolsa de Valores de Nova Iorque naquela terça-feira de 1929. A Milka avançou destemida com uma ideia aparentemente infalível: as pessoas gostam de chocolate, gomas, M&M’s, peta zetas e caramelo? Então vamos dar-lhes uma tablete gigante que junta isso tudo! O resultado é este Milka Choco Jelly, um álbum de recordações comestível de cada má decisão que fizemos num buffet de sobremesas, uma espécie de resumo Europa-América das guloseimas de supermercado. É o arroz à valenciana das tabletes de chocolate ou o bloco de açúcar que nos ampara a queda quando batemos no fundo. Um Titanic de gula que encontra o seu iceberg logo à primeira dentada. E não há nada que o possa salvar.

Kit Kat Dark

Kit Kat Dark

3 Estrelas

O Kit Kat, um dos chocolates mais populares do mundo, apresenta-se agora numa versão mais sombria. Este irmão gémeo gótico, amargo e taciturno vende-se em supermercados numa embalagem de oito unidades, por isso, mesmo que não goste dele à primeira dentada vai ter de o aturar. Tem mais cacau e menos calorias, o que permite comer um Kit Kat em público sem vergonha. Acresce ainda a possibilidade de se dirigir às pessoas à sua volta num tom arrogante e dizer: “O cacau é um poderoso antioxidante, sabia?”. Saúda-se a chegada ao mercado nacional de um produto extra desta gama onde se incluem, por exemplo, o Kit Kat de chá verde, tarte de maçã, batata doce e wasabi. É uma variação interessante, mas quem é viciado na sobremesa original vai sempre preferir heroína a esta metadona.

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