100 anos de Carson McCullers: uma angústia americana em filmes

Estivesse viva e teria 100 anos. Carson McCullers viveu metade desse tempo, mas os seus livros, à frente deles 'O Coração é um Caçador Solitário', continuam a retratar uma angústia que nunca foi só americana

©Carl Van VechtenCarson McCullers

Aparte Relógio sem Ponteiros, todos os romances de Carson McCullers foram adaptados ao cinema. Uma boa razão para ler os originais, todos traduzidos. Pois destes filmes, nem por isso desprezíveis, nenhum chegou ao interior da poética e elaborada substância da escritora do gótico sulista. 

100 anos de Carson McCullers: uma angústia americana em filmes

The Member of the Wedding (1952)



O romance de 1946 de Carson McCullers (disponível em português com o título Frankie e o Casamento), podia muito bem começar por “Era uma vez…” Não começa, mas é numa pequena cidade da Geórgia que damos com Frankie Addams, uma maria-rapaz de 12 anos, particularmente opinativa e pouco convencional nos seus pontos de vista que, claro, se sente desligada do mundo. O filme de Fred Zinnemann, com Ethel Waters, Julie Harris e Brandon De Wilde, conta a história, digamos, correctamente, mas com os sentimentos muito amenizados pelos códigos cinematográficos da época.

Reflexos num Olho Dourado (1967)



É, sem dúvida, o melhor deste lote de filmes, aquele em que, ancorado em Elizabeth Taylor e Marlon Brando, John Huston adapta o segundo romance de Carson McCullers, Reflexos num Olho Dourado (1941). O realizador tomou-se de grandes liberdades na adaptação, mas não evitou as alusões ao voyeurismo e à homossexualidade (embora as tenha, por assim dizer, amaciadas) que sustentam o original. Como o romance também a película não gozou de grande popularidade na época. Porém, com o tempo, um pelas suas qualidades literárias, o outro pela sua categoria cinematográfica, ambas as obras ganharam o seu devido lugar nos respectivos panteões.

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Um Coração Solitário (1968)



O Coração é um Caçador Solitário (em outras traduções disponíveis em alfarrabistas: Coração, Solitário Caçador), publicado em 1940, é o primeiro e o mais extraordinário romance de Carson McCullers. E foi um êxito retumbante, que tirou a escritora, então com 23 anos, da pobreza e a lançou na alta-roda do universo literário nova-iorquino. Um êxito comercial que não se repetiu, apesar da qualidade do resto da sua obra, do reconhecimento crítico e, principalmente, das suas repetidas edições e traduções que sempre mantiveram todos os romances (assim como os contos, as versões teatrais e as memórias inacabadas) nos escaparates das livrarias. O cinema, porém, ou melhor, a versão filmada por Robert Ellis Miller, da história de John Singer de acordo com a visão juvenil de Mick Kelly, lamento, mas é uma porcaria. Não que não conte a história, ou que Alan Arkin, Sondra Locke e Chuck McCann não façam os seus papéis com brio, mas a direcção é frouxa, rotineira e nem por um momento capaz de captar a ansiedade e a angústia que fazem a poética beleza do livro.

A Balada das Paixões (1991)



Com um elenco (apesar de Keith Carradine) do melhor, até porque encabeçado por Vanessa Redgrave, uma das mais supinas actrizes ao cimo da Terra, sempre perfeita, mesmo no mais humilde dos papéis, Simon Callow não soube mesmo o que fazer com A Balada do Café Triste (1951). E esta história de amor e paixão, cheia de insinuações sexuais e sentimentais; este intrincado triângulo campestre carregado de drama e de dor, dominado pela traição e pelo ciúme, parece passado por lixívia e depois engomado, não fossem passar algumas subtilezas emocionais. Saciada a curiosidade, mesmo ao mais empedernido cinéfilo se recomenda a leitura do livro de Carson McCullers.

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