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Filme, Cinema, Aventura, Sci-fi, Viúva Negra (2021)
©Marvel Studios Viúva Negra de Cate Shortland

Filmes em cartaz

Saiba tudo sobre os filmes em cartaz, avaliados pelos críticos de cinema da Time Out

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Mais filmes em cartaz

Filme, Cinema, Drama, Sweet Thing - Infância à Deriva (2020)
Filme, Cinema, Drama, Sweet Thing - Infância à Deriva (2020)
©DR

Sweet Thing - Infância à Deriva

Filmes

Alexandre Rockwell assina este filme onde parte da sua família consta do elenco. Dois irmãos com um pai alcoólico e uma mãe negligente acabam por fugir de casa na companhia de um menino amigo, partindo à aventura pela estrada fora.

Filme, Cinema, Animação, Aventura, Upsss! 2 - A Aventura Continua (2020)
Filme, Cinema, Animação, Aventura, Upsss! 2 - A Aventura Continua (2020)
©DR

Upsss! 2 - A Aventura Continua

Filmes

Finny, Leah e os animais da Arca de Noé voltam a ser os protagonistas desta longa-metragem animada produzida pela Irlanda e pelo Luxemburgo, com realização de Toby Genkel e Sean McCormack.

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Gunda
Gunda
Photograph: Neon

Gunda

Filmes Documentários

Documentário de Viktor Kossakovsiy, sem palavras nem banda sonora e a preto e branco, que acompanha a existência de uma porca, a Gunda do título, e das duas vacas e da galinha perneta que vivem na mesma quinta que ela.

Black Widow
Black Widow
Photograph: Jay Maidment/Marvel Studios

Víuva Negra

4 /5 estrelas
Filmes Acção e aventura

Há um super-herói que rouba a cena em Víuva Negra – e não é a Viúva Negra. Pelo menos, não é essa Viúva Negra (já que há muitas ‘Viúvas Negras’ neste 24.º filme do Universo Cinematográfico da Marvel). Depois de uma eternidade à espera do filme a solo da Vingadora de Scarlett Johansson – sem Tony, Steve e companhia –, eis que vem Florence Pugh e lhe rouba o protagonismo. A actriz interpreta a irmã mais nova de Natasha Romanoff (Johansson), Yelena Belova, também ela membro do programa das Viúvas Negras, e fá-lo com o brilho e naturalidade de quem está nestas andanças do “Marvelverse” desde o primeiro dia.

A mistura feliz de músculos e emoção lembra, em pelo menos metade do tempo, o franchise Jason Bourne. As cenas de luta têm um vigor de abalar os ossos. Um confronto violento entre Romanoff e Belova, numa casa-segura que de segura tem pouco (vamos arquivar a relação destas irmãs na categoria “é complicado”), resulta na interpretação mais arrepiante de Johansson desde Marriage Story. Viúva Negra inclina-se em influências de filmes de espionagem, com referências claras ao mundo dos espiões (parabéns a quem pensou no nome ‘Fanny Longbottom’ para o passaporte falso de Romanoff) até nos locais onde a acção se desenrola, como Budapeste, Marrocos e Noruega. E quando Romanoff se senta para beber uma cerveja, enquanto cita 007 – Aventura no Espaço, parece ser a forma de este Viúva Negra reconhecer uma dívida ao filme de James Bond, pela escolha de um vilão com semelhanças a Hugo Drax (Michael Lonsdale).

Embora a história aconteça no rescaldo da discórdia entre os Vingadores, em Capitão América: Guerra Civil, o prelúdio leva-nos de volta ao Ohio de 1995, onde uma Natasha Romanoff adolescente, de cabelos azuis, acomodada e feliz, de repente é levada, juntamente com a irmã mais nova (Violet McGraw), pela mãe (Rachel Weisz) e pelo pai cientista (David Harbor). Acontece que esta família é nuclear apenas no sentido em que trabalham para pessoas com posse de muitas armas nucleares: são uma célula soviética adormecida, em busca de informações secretas dos EUA, e tão americanos quanto uma ressaca de Stoli – o pai é na verdade um super-herói soviético e corpulento chamado Red Guardian.

Os créditos iniciais que se seguem dão continuidade à história ao estilo de docudrama: Natasha e a irmã são deixadas ao cuidado de um malvado general soviético, Dreykov (Ray Winston, com um terrível e inconsistente sotaque russo), numa academia para treino de assassinas chamada Red Room. Romanoff está à procura de vingança, com a irmã ao lado para a ajudar – e para fazer pouco das suas poses de luta. “Duvido que o deus vindo do Espaço tenha de tomar um ibuprofeno depois de cada luta”, goza a irmã. Para complicar as coisas, Dreykov tem um executor na máquina implacável, com cara de caveira, chamado Taskmaster (imagine o filho ilegítimo do Exterminador Implacável com o Skeletor).

Depois da trama complicada dos últimos filmes do Universo da Marvel, a falta de Pedras do Infinito nos bolsos deste filme é revigorante. E embora Viúva Negra não seja totalmente livre de um MacGuffin – há um dispositivo de controlo da mente para desarmar e um vilão para desmascarar – Cate Shortland (Somersault, Lore) tem aqui muito espaço para aprofundar as lutas de identidade de Romanoff e trazer ao de cima uma velha culpa sobre uma missão que correu terrivelmente mal. E também há muitas risadas para contrabalançar os temas mais pesados. A velocidade com que os quatro membros desta falsa família regridem a arrufos e picardias quando finalmente se reencontram é uma das muitas pequenas alegrias deste filme. Tal como quando Harbor se diverte no papel do pomposo Red Guardian, a tentar espremer-se para caber novamente no fato de super-herói enquanto imagina, em voz alta, uma rivalidade com o Capitão América.

Algumas falhas deixam Viúva Negra um degrau ou dois abaixo dos melhores filmes da Marvel, incluindo um acto final lento, alguma vilania genérica e ainda o longo tempo de duração da fita – vá lá, duas horas são mais do que suficientes – mas se procura um grande blockbuster, habilmente elaborado e autoconsciente, a Marvel, como sempre, dá conta do recado.

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The Human Voice
The Human Voice
Photograph: Sony Picture Classics

A Voz Humana

3 /5 estrelas
Filmes

Pedro Almodóvar pegou na peça/monólogo de Jean Cocteau, chamou Tilda Swinton para interpretar a mulher deixada pelo amante e que espera desesperadamente por um telefonema dele, e “almodóvarizou” tudo de cima a baixo nesta curta-metragem: encenação, ambientes, cores, atmosfera emocional e estado de espírito e guarda-roupa da personagem, que passa de mulher submissa e ansiosa a angustiada e furiosa, tal como todas as dos filmes do realizador. No final, Almodóvar acaba por dinamitar o texto original, com a mulher a pôr fogo à casa onde viveu com o amante e a partir para outra levando o cão dele consigo.

Em complemento, há uma entrevista com Almodóvar e Swinton feita pelo crítico inglês Mark Kermode. Uma miniatura para saborear enquanto não chega Madres Paralelas, a nova longa-metragem do realizador.

Filme, Cinema, Animação, Aventura, Comédia, Space Jam: Uma Nova Era (2021)
Filme, Cinema, Animação, Aventura, Comédia, Space Jam: Uma Nova Era (2021)
©DR

Space Jam: Uma Nova Era

Filmes

Malcom D. Lee realiza esta longa-metragem que combina actores de carne e osso e animação digital, e é a continuação do filme de 1966. Agora, LeBron James e o seu filho Dom vão orientar Bugs Bunny e os restantes Looney Tunes num jogo de basquetebol contra uma equipa de vilões.

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Filme, Cinema, Acção, Terror, Escape Room 2: Sem Saída (2021)
Filme, Cinema, Acção, Terror, Escape Room 2: Sem Saída (2021)
©Sony Pictures

Escape Room 2: Sem Saída

Filmes

Seis pessoas ficam inadvertidamente fechadas numa série de salas de fuga, descobrindo a pouco e pouco o que têm que fazer para sobreviver. Juntando forças com dois dos sobreviventes do filme de terror original, percebem que já jogaram este jogo antes.

Filme, Cinema, Drama, Música, Bem Bom (2021)
Filme, Cinema, Drama, Música, Bem Bom (2021)
©NashDoesWork

Bem Bom

Filmes

Patrícia Sequeira (Snu) realiza este filme (que será também uma série de televisão) em que conta a história das Doce entre 1979 e 1982, quando, à terceira vez, ganharam o Festival da Canção com “Bem Bom”. Ao mesmo tempo, procura mostrar como era o Portugal em ressaca dos tempos ainda agitados do pós-25 de Abril em que elas irromperam, e como participaram no boom da música ligeira e pop/rock dos anos 80 e se tornaram num fenómeno. Bem Bom tem falhas e insuficiências (ver a pobreza das sequências musicais, em especial as passadas nos festivais da canção), mas funciona muito bem na caracterização do quarteto. Bárbara Branco (Fátima), Lia Carvalho (Teresa Miguel), Ana Marta Ferreira (Laura Diogo) e Carolina Carvalho (Lena Coelho) metem-se de imediato e com desembaraço nas personagens, e transmitem-nos com garra, graça e vivacidade os seus diferentes modos de ser, reagir e viver a música e o grupo, os percalços e os sucessos, e o preço cobrado pelas exigências do trabalho e da fama nas suas vidas privadas.

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Filme, Cinema, Documentário, Visões do Império (2021)
Filme, Cinema, Documentário, Visões do Império (2021)
©DR

Visões do Império

Filmes

Um documentário assinado pela realizadora portuguesa Joana Pontes, que faz uma viagem crítica até ao passado colonial português através de uma selecção de fotografias, tiradas desde o final do século XIX até à revolução de Abril de 1974, que acabou com o regime do Estado Novo.

Filme, Cinema, Animação, Aventura, Os Croods: Uma Nova Era (2020)
Filme, Cinema, Animação, Aventura, Os Croods: Uma Nova Era (2020)
©DR

Os Croods: Uma Nova Era

Filmes

A nova animação de longa-metragem da família pré-histórica dos Croods põe-a a aventurar-se pelo mundo, em busca de um lugar para viver a que possam chamar lar. Só que quando o encontram, já lá vive outra família, os Megamanos. Que, do ponto de vista da evolução, está um passo à frente dos Croods.

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Filme, Cinema, Aventura, Drama, The Ice Road: Missão de Risco (2021)
Filme, Cinema, Aventura, Drama, The Ice Road: Missão de Risco (2021)
©DR

The Ice Road – Missão de Risco

Filmes

Após um desabamento numa mina de diamantes situada numa região remota do Canadá, um camionista de longo curso (Liam Neeson), especializado em conduzir em condições invernosas extremas, vai liderar uma missão de salvamento vista como impossível, em que terá que atravessar um oceano gelado.

Annette
Annette
Photograph: CG Cinéma International

Annette

Filmes

O novo filme do francês Leos Carax tem Adam Driver e Marion Cottilard num casal, ele cómico de stand-up, ela cantora de ópera, cujas vidas vão ser mudadas após o nascimento da filha, Annette, que tem um dom surpreendente. O argumento é de Carax e de Ron e Russell Mael, da banda pop/rock Sparks.

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Filme, Cinema, Acção, Comédia, O Guarda-Costas e a Mulher do Assassino (2021)
Filme, Cinema, Acção, Comédia, O Guarda-Costas e a Mulher do Assassino (2021)
©DR

O Guarda-Costas e a Mulher do Assassino

Filmes

Michael, o guarda-costas (Ryan Reynolds), e Darius, o assassino profissional (Samuel L. Jackson), estão de volta para mais uma missão, que mete ao barulho a mulher de Darius (Salma Hayek) e um louco que quer destruir a Europa. Também com Morgan Freeman, Antonio Banderas e Richard E. Grant.

Filme, Cinema, Acção, Aventura, Velocidade Furiosa 9 (2021)
Filme, Cinema, Acção, Aventura, Velocidade Furiosa 9 (2021)
©DR

Velocidade Furiosa 9

1 /5 estrelas
Filmes Acção e aventura

Inaugurada há precisamente 20 anos com o filme original realizado por Rob Cohen, a série Velocidade Furiosa transformou-se numa das mais lucrativas de todos os tempos (ocupa a sétima posição na respectiva lista) e é a mais rentável da história dos estúdios Universal. Já foram feitas nove fitas e um spin-off, mais duas curtas-metragens e uma série de animação. Isto sem contar com as atracções temáticas do parque de diversões da Universal e ainda um espectáculo itinerante, Fast & Furious Live Tour.

Aquilo que começou, em 2001, com um filme policial de acção, sobre speed freaks, maluquinhos da velocidade, dos carros modificados e das corridas ilegais, acabou por evoluir com a sucessão dos títulos, acabando por se transformar num émulo das superproduções de espionagem, aventura e intriga internacional. Em Velocidade Furiosa 9, de Justin Lin, esta tendência atinge o seu apogeu. É um compósito hipertrofiado dos filmes de James Bond, da série Missão: Impossível e de fita de super-heróis à paisana. Não é por acaso que, a certa altura, Roman (Chris “Ludacris” Bridges), depois de ter escapado a uma saraivada cerrada de balázios de militares mexicanos, diz aos seus parceiros que está convencido de que os membros do grupo são invulneráveis. E a verdade é que em Velocidade Furiosa 9 essa capacidade dos protagonistas de saírem incólumes – ou apenas com dois ou três arranhões – das mais abracadabrantes situações de perigo sobre duas, quatro ou mais rodas, de campos minados, de tiroteios alucinantes e de mísseis lançados por drones, bem como de enormes ensaios de pancada e de quedas das mais variadas alturas, em especial de veículos em movimento para cima de outros, ou para a rua, é levada ao extremo mais delirantemente inverosímil.

Tal como sucede nos desenhos animados, as leis da Física não funcionam no mundo de Velocidade Furiosa. Neste novo filme, que é um verdadeiro apocalipse de chapa batida, o longo sonho húmido de qualquer sucateiro que se preze, chega-se ao ponto de pôr um carro equipado com foguetes a colidir com um satélite no espaço sideral, e os dois ocupantes sobrevivem e até conseguem obter uma boleia de volta à Terra graças à Estação Espacial Internacional. Já lá vão os tempos em que até os mais espectaculares filmes de acção procuravam manter sempre um mínimo de credibilidade. Mais do que os seus predecessores, Velocidade Furiosa 9 é insondavelmente disparatado, abissalmente estapafúrdio, pedindo aos espectadores que deixem o cérebro à entrada do cinema.

A história assenta numa trágica querela de juventude entre os irmãos Toretto, Dominic (Vin Diesel) e Jakob (John Cena, tão canastrão que, ao pé dele, Diesel faz figura de Sir Laurence Olivier) e usa como MacGuffin um dispositivo que permite a quem o detém controlar todos os sistemas de armas e informáticos do mundo. A coisa é cobiçada por um multimilionário vilão de Leste que recrutou os serviços de Jakob para a roubar, o que obriga Dominic e Letty (Michelle Rodriguez) a saírem da reforma e a juntarem-se ao resto do grupo para salvarem o mundo. A Cipher de Charlize Theron regressa, há mortos que voltam à vida porque afinal não morreram e novas personagens, todos eles a contribuir para o descomunal e absurdo charivari que é Velocidade Furiosa 9. E cujos verdadeiros heróis acabam por ser as dezenas e dezenas de “duplos” creditados na longa ficha técnica final, onde Justin Lin nos dá também um cheirinho do 10.º filme da série, alegadamente o último. Fiem-se nisso, fiem…

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Filme, Cinema, Animação, Aventura, Demon Slayer - Comboio Infinito (2020)
Filme, Cinema, Animação, Aventura, Demon Slayer - Comboio Infinito (2020)
©DR

Demon Slayer - Comboio Infinito

Filmes

Esta animação japonesa tem como herói Tanjiro Kamado, que dedicou a vida a matar demónios, após a sua família ter sido brutalmente assassinada e a sua irmã transformada num deles. A sua nova missão leva-o ao Comboio do Infinito.

Filme, Cinema, Animação, Aventura, Os Flofos: Viagem no Tempo (2021)
Filme, Cinema, Animação, Aventura, Os Flofos: Viagem no Tempo (2021)
©DR

Os Flofos: Viagem no Tempo

Filmes

Longa-metragem animada sobre dois Flofos, uns animaizinhos com um buraco no meio do corpo, que são magicamente transportados do passado para os nossos dias e descobrem que estão extintos. Têm então que viajar no tempo e impedir que isto aconteça.

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Cruella
Cruella
Photograph: Disney

Cruella

2 /5 estrelas
Filmes Família e crianças

Glenn Close foi uma Cruella de Vil deliciosamente camp em 101 Dálmatas (1996) e Os 102 Dálmatas, os dois filmes de imagem real que a Disney tirou da longa-metragem animada original de 1961 (simpático, o primeiro; muito mau, o segundo). Cabe agora a Emma Stone suceder-lhe na personagem em Cruella, de Craig Gillespie, a nova fita da Disney com actores inspirada num clássico de animação da casa, quee é uma origin story que conta a infância e a juventude da vilã estilista obcecada por fazer casacos da pele de dálmatas.

Em Maléfica, sobre a feiticeira de A Bela Adormecida, interpretada por Angelina Jolie, a Disney fez o erro de optar por uma abordagem radicalmente revisionista e a transformar na verdadeira heroína da história, esvaziando assim a personagem da malignidade que lhe dava razão de ser. Esta tendência do estúdio de atenuar a maldade dos seus vilões animados continua em Cruella, que explica porque é que a jovem Estella, de seu verdadeiro nome, se tornou em Cruella, com bastantes atenuantes (por exemplo, ela afinal gosta de cães e tem um desde pequenina, odiando apenas os dálmatas devido a um episódio traumático de infância). E o seu cabelo a preto e branco afinal é de nascença, não artificial.

A verdadeira vilã do filme é a riquíssima, sobranceira e tirânica Baronesa (Emma Thompson), que domina a cena da moda em Londres e para a qual a ambiciosa e criativa Estella, que quer ser estilista desde miúda, vai trabalhar, e depois desafiar no seu próprio terreno. Com a ajuda dos seus parceiros de crime, Jasper e Horace (Joel Fry e Paul Walter Hauser), que conhece quando chega a Londres, ainda miúda, órfã e sem eira nem beira, e lhe dão abrigo e ensinam a arte de roubar carteiras e outros bens ao próximo, ajudando-a mais tarde a entrar no mundo da moda, falsificando-lhe um currículo.

Remetendo aqui para o Charles Dickens de Oliver Twist, ali para O Diabo Veste Prada e acolá para os estereótipos da literatura de cordel (há um sub-enredo de vingança e uma dramática revelação de índole familiar), a fita recria, num registo muito camp e a tombar para o slapstick com pretensões a comédia negra, a Londres das décadas de 60 e 70. Estelle/Cruella é assim como uma émula tendencialmente sociopata de Vivienne Westwood, que quer derrubar a ultrapassada Baronesa do seu pedestal e impôr com insolência, atitude e estética punk, as suas exuberantes criações (a veterana e duplamente oscarizada Jenny Beaven teve um trabalhão com o guarda-roupa de Cruella, e deverá arrancar a sua 11.ª nomeação graças a ele).

Por mais que simpatizemos com Stone e Thompson, elas lidam aqui com personagens óbvia e fortemente caricaturais, e com limitado sumo cómico (ou dramático) para espremer, multiplicando-se em trejeitos e poses. O argumento está esburacado como um queijo Emmental e Craig Gillespie alinha sequências movimentadas a trouxe-mouxe (Cruella pertence àquela irritante categoria de fitas que não sabe o que é dar um momento de pausa ao espectador, e confunde ritmo com afobação), até chegar ao exagero de mais de duas horas e meia de duração. Enquanto isso, a banda sonora não pára de disparar em rajada, e sem o menor critério, sucessos pop/rock dos anos 60 e 70, na esperança de ajudar a criar o ambiente dessas épocas.

Em Cruella, a Disney estraga as boas memórias de Os 101 Dálmatas animado e do primeiro remake em imagem real com Glenn Close e, tão forçada como inutilmente, vai longe demais com esta origin story.

Filme, Cinema, Animação, Comédia, Peter Rabbit: Coelho à Solta (2021)
Filme, Cinema, Animação, Comédia, Peter Rabbit: Coelho à Solta (2021)
©DR

Peter Rabbit: Coelho à Solta

Filmes

Peter e a sua família vivem agora com Thomas e Bea, que se casaram. Mas o irrequieto coelho está cansado da monotonia da vida no seu jardim e acaba por se aventurar na cidade grande, onde conhece gente pouco recomendável.

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The Father
The Father
Photograph: SEAN GLEASON

O Pai

Filmes Drama

Em O Pai, de Florian Zeller, Anthony (Anthony Hopkins) é um octogenário que vive sozinho num amplo e confortável apartamento em Londres. Para grande preocupação da filha, Anne (Olivia Colman), Anthony tem o costume de afugentar em pouco tempo as cuidadoras que ela lhe põe em casa para o ajudar nas rotinas diárias, protestando que está muito bem assim e não precisa da ajuda de ninguém. Só que agora Anne vai para Paris com o marido e está em ainda maior cuidado com o pai. Por isso, vai tentar convencê-lo a aceitar uma nova cuidadora, a jovem e afável Laura (Imogen Poots), que Anthony acha muito parecida com a sua outra filha, Lucy, que não vê há muito tempo.

Mas, de repente, Anthony repara que tudo mudou à sua volta. Há um homem, Paul (Mark Gatiss) a viver no seu apartamento, que se apresenta como sendo o marido de Anne. A seguir, Anne é outra pessoa (Olivia Williams), e já não vai para Paris; e Paul, embora também não mude de nome como Anne, passa igualmente a ser um outro (Rufus Sewell). E dizem a Anthony que o apartamento é deles e que ele vive lá já há algum tempo. Pouco depois, a segunda Anne aparecerá na pele de ainda outra personagem. O que se está a passar? Será que os seus familiares estão a tentar confundir Anthony para o poderem internar e ficarem com o apartamento e a herança? Será O Pai um thriller psicológico-conspirativo?

A resposta é mais simples e mais terrivelmente dramática. Aquilo que nos está a mostrar Florian Zeller, autor da peça de teatro em que a fita se baseia, e também do argumento desta, com o seu colega Christopher Hampton, é o interior da cabeça de Anthony. Este sofre de demência e está, pouco a pouco, a perder o pé à realidade, a alienar todos os azimutes que lhe permitem compreender e organizar o mundo, movimentar-se nele, e a despedir-se da percepção da sua própria identidade. E durante todo este aflitivo processo, a câmara de Zeller mantém a mesma impassível compostura. O Pai é um filme de suspense em que o culpado não é uma pessoa mas sim uma doença degenerativa.

Enquanto cinema, O Pai é muito competente teatro filmado, cuja incómoda, angustiante e dolorosa eficácia depende a 99% da interpretação de Anthony Hopkins, que está na mesma faixa etária da sua personagem e é positivamente imperial do princípio ao fim. Quer nos momentos de lucidez em que Anthony enuncia a Anne as razões por que pode perfeitamente ficar sozinho, ou em que liga o interruptor do charme e conta umas balelas para impressionar a jovem Laura, antes de a mandar passear com veemente aspereza; quer nas alturas de desorientação e de desamparo, que culminarão numa sequência devastadora na clínica em que a filha o internou.

O retrato que Hopkins faz da experiência desta doença que todos temem e desejam que nunca lhes bata à porta, e que muitos conhecem por ter atingido pessoas próximas, é arrasadoramente crível e lancinantemente expressivo. E sem que por um momento que seja vejamos o trabalho por trás da interpretação, que o actor sinta a tentação do exibicionismo do seu talento ou que venha mendigar a nossa compaixão para a personagem. Esta não é a primeira vez que o cinema fala sobre esse lento naufrágio da apreensão do mundo e de nós mesmos que é a demência (recordemos Longe Dela, de Sarah Polley, ou O Meu Nome é Alice, de Richard Glatzer e Wash Westmoreland), mas graças a Anthony Hopkins, O Pai torna-se no filme de citação obrigatória.

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