Haruo Nakajima: o verdadeiro Godzilla

Por detrás de um grande monstro, um pequeno homem: Haruo Nakajima, que faleceu no dia 7 de Agosto, aos 88 anos, vestiu a pele de Godzilla durante 17 anos

Antes da animação digital, o monstro criado no Japão por explosões nucleares tinha gente dentro. Durante quase duas décadas, apesar de outros papéis e outros filmes, Haruo Nakajima especializou-se em vestir o fato de Godzilla. Foi a sua glória repetida uma dúzia de vezes. Sete seguem a seguir, em jeito de amostra e de homenagem.

Haruo Nakajima: o verdadeiro Godzilla

Godzilla – O Monstro do Oceano Pacífico (1954)

Foi aqui que tudo começou. Nove anos depois de um par de ataques nucleares destruir Hiroshima e Nagasaki, o estúdio de cinema Toho entregou a Ishirō Honda a missão de escrever e realizar o primeiro filme da série Shōwa. Esta série sobre o monstro que nasce em consequência das explosões que destruíram as duas cidades japonesas duraria até 1975 (antes de Godzilla voltar para a série Heisei, entre 1984 e 1995, que por sua vez deu lugar, de 1999 a 2004, à série Millennium), e, até 1971, foi protagonizada por Nakajima. É a que interessa, aquela que os fãs da linha mais apreciam (pois, parece, crêem que esta encarnação do monstro é mais… realista). Sendo que este primeiro volume marca a origem de Godzilla, mistura-a com uma velha lenda, acrescenta uns navios desaparecidos e uns jornalistas curiosos como lhes compete (mas nem por isso muito competentes), e banha tudo em violência descabelada e numa mortandade raramente vista.

Godzilla Raids Again (1955)

Depois do êxito não há volta a dar e, agora, o actor volta a vestir-se de mostrengo para a história de dois pilotos que vão parar a uma ilha deserta, a bem dizer sabe-se lá como. Estão estes tristes para ali, no meio de rochas nascidas de erupções vulcânicas, passando tempo com a esperança da salvação estar a caminho, quando um ruído os desperta para uma realidade inesperada e capaz de lhes acrescentar chatices, que é o que acontece quando vêem Godzilla embrulhado em porradaria com outro monstro ainda o filme mal começou.

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King Kong vs. Godzilla (1962)

Por esta altura os argumentistas estavam, por assim dizer, em dificuldades criativas. Pior, estavam a ser pressionados pelo estúdio Toho para se desenrascarem o mais depressa possível, pois o próximo filme seria parte importante das comemorações do 30º aniversário da produtora. Vai daí, depois de fazerem um submarino nuclear americano chocar com um icebergue e libertar Godzilla (na versão japonesa ali aprisionado desde 1955), acharam os escritores de serviço à película dirigida por Ishirō Honda, com efeitos especiais de Eiji Tsuburaya, juntar à festa outro mostrengo de alto gabarito, King Kong, e pôr os dois à bulha. Pela terceira vez, Haruo Nakajima vestiu o fato, sem sequer sonhar que cinco anos depois seria ele a interpretar o macacão em A Fuga de King Kong), e menos ainda que King Kong vs. Godzilla ficaria para a história como o filme mais visto da série.

Ghidrah, O Monstro Tricéfalo (1964)

Depois do êxito de monstro contra monstro, pensou a equipa de Ishirō Honda, nada melhor que pôr Godzilla em conflito com mais uns quantos. E assim foi, com a personagem vestida por Nakajima entrando em sucessivos combates com outros seres da sua laia e tão assanhados como ele. Desta vez, provavelmente porque isto de bestas contra bestas se torna um bocado aborrecido, ao quinto filme, o, enfim, brilhante departamento de argumentistas do estúdio Toho, saiu-se com esta bisarma de três cabeçorras, todas mal dispostas. E como se isso não chegasse acrescentaram ao enredo uma princesa marciana prevendo coisas más para a Humanidade e mais uns ingredientes a dar para o esotérico.

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O Filho de Godzilla (1967)

Com Jun Fukuda na cadeira de realizador e Sadamasa Arikawa responsável pelos efeitos especiais, parece haver um esforço de tornar os filmes da série menos previsíveis, sem, no entanto, diminuir a carga de porrada e o fragor das explosões, que é o que realmente leva o povo ao cinema. Visto agora pode vislumbrar-se por aqui alguma consciência ecológica, envolvendo na trama uns cientistas tentando controlar o clima que, obviamente sem quererem, criam uma tempestade radioactiva, e quando vão investigar a coisa encontram um ovo do qual salta um bebé Godzilla, cujos gritos telepáticos por ajuda não só causaram o incidente que levou ao desastre como ainda atraíram o pai até ao local – com as consequências do costume desta vez envolvendo uma aranha gigante e outras bestas sortidas.

O Despertar dos Monstros (1968)

O regresso de Ishirō Honda à realização na nona película é também o regresso da luta entre monstros. Sinal de uma certa falta de imaginação, mas, pensava o realizador, receita garantida, o argumento introduz na série o conceito (então já um bocado batido) de ilha habitada por monstros, desta vez por via de uns extraterrestres que libertam uma multidão deles e lhes controlam a mente levando-as a fazer todas as maldades possíveis até Godzilla (mais uma vez interpretado por Haruo Nakajima, por uma vez também encarregado de vestir a pele de Baragon, um feioso carregadinho de maldade) intervir e, por assim dizer, meter ordem na coisa levando tudo a eito. O Despertar dos Monstros foi um desastre na bilheteira e as campainhas da decadência começaram a tocar.

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Godzilla vs. Hedorah (1971)

As campainhas tocaram e alguém as ouviu. Mesmo assim, logo após repetir a receita com All Monsters Attack, em 1969, desta vez, com Yoshimitsu Banno ao leme e Teruyoshi Nakano a mandar nos efeitos especiais, no último filme protagonizado por Haruo Nakajima (o seu nome ainda surgiria no elenco de Godzilla vs. Gigan, estreado no ano seguinte e encerrando a série Shōwa, mas o actor não participou na rodagem, pois as imagens de Godzilla utilizadas na película são de filmes anteriores) lá vem mais um monstro para se engalfinhar com o lagartão atómico. Godzilla vs. Hedorah é, mais coisa menos coisa, exactamente como outros. Apesar do esforço de aproveitar os sinais dos tempos introduzindo neste penúltimo tomo uma mensagem anti-poluição capaz de tocar os que acreditavam que os ventos estavam a mudar, o mal estava feito e este Godzilla moribundo. Paz à sua alma, que ainda hoje tanto nos faz rir.

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