IndieLisboa 2017 ou a busca da originalidade

Onze dias, cinco salas, filmes de todos os formatos vindos de diferentes idades e com distintas intenções, sessões a bem dizer a toda a hora, mais actividades paralelas… O IndieLisboa é obra. Mas um filme por dia, enfim, sabe-se o bem que fazia
Colo
©DR Colo de Teresa Villaverde
Por Rui Monteiro |
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Chegou aquela altura do ano. Pela 14ª vez. Cada vez mais tentacular, pode dizer-se, o Capitólio acrescentado à lista de salas do costume: Culturgest, Cinemateca, São Jorge, Ideal. Uma programação que vai na direcção de várias pistas sem se despistar. Em jeito de serviços mínimos, aí vão onze filmes a ver no IndieLisboa 2017.

IndieLisboa 2017 ou a busca da originalidade

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Colo


No novo filme de Teresa Villaverde, com João Pedro Vaz, Alice Albergaria Borges, Beatriz Batarda e Rita Blanco, a realizadora mantém-se fiel à sua ideia e prática de cinema. Desta vez, esses princípios que tornam a sua obra singular traduzem-se numa observação particularmente realista da queda de uma família na pobreza, que, no olhar da realizadora, estabelece uma estimulante relação entre o acentuar da crise económica e o drama interior das personagens perante a crise familiar que nasce das suas contradições e, principalmente, dos seus desejos.

Quarta, 3, 21.00, São Jorge – Sala Manoel de Oliveira

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El mar la mar


Documentário concluído já este ano, presente na competição internacional, a película de Joshua Bonnetta (que, aliás, com J.P. Sniadecki, assume todas as outras posições na ficha técnica) é uma viagem até ao deserto de Sonora, no México. Parte da fronteira com os Estados Unidos, sítio do mais perigoso que há e onde seis mil cadáveres, até agora, foram encontrados enterrados nas dunas. No entanto local de atracção para cineastas como Bonetta, que, durante três anos, usaram o testemunho de polícias e traficantes e trabalhadores de organizações humanitárias para, paradoxalmente, criarem uma variedade de filme-poema sobre os escombros da civilização.

Quinta, 4, 19.00, Culturgest – Grande Auditório

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Fitzcarraldo (1982)

Entre tanta novidade, tanta experiência, tanta procura pela originalidade e pela excelência, voltar ao mítico filme de Werner Herzog, olhando-o de preferência na ignorância do seu traumático efeito sobre actores e realizador e produtores e técnicos e figurantes, é encontrar um cinema onde apenas conta a inspiração e a determinação, melhor, neste caso, a obstinação doentia e paranóica do artista em busca da obra perfeita. Com Klaus Kinski (que substituiu Jason Robards, primeira vítima da disenteria mal chegou à selva peruana), Claudia Cardinale e o actor brasileiro José Lewgoy, o filme conta a história de outro obcecado: um comerciante irlandês na bancarrota, ainda assim pronto a mover o céu e a terra até construir uma sala de ópera no meio da selva.

Sexta, 5, 15.30, Cinemateca – Sala Félix Ribeiro

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Home

A secção Boca do Inferno não é tímida na sua promoção. Por exemplo, a propósito de Home, da realizadora Fien Troch (prémio de realização na secção Horizontes do Festival de Veneza), diz: “Pontuada pela banda sonora original dos Chromatics, por imagens de ‘smartphones’ e pela franqueza do sexo, esta é uma história de violência e angústia.” O que é uma maneira de ver esta filme pujante no seu esforço por apresentar a hostilidade social adolescente sem condescendência.

Sábado, 6, 21.00, Ideal

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The Man from Mo’Wax

James Lavelle era o tipo de puto ambicioso com gosto por música e a quem a música tornou milionário aos 21 anos. O documentário de Matthew Jones segue a vida do “padrinho” do trip hop, ao longo de 30 anos que incluem naturalmente a criação da editora Mo’Wax e a sua banda, U.N.K.L.E. A perspectiva da realização é a de revelar um homem dividido entre a arte e o comércio, que é, evidentemente, a maneira de Lavelle se ver. A quase ausência de olhar crítico é, no entanto, compensada pela categoria da banda sonora, que inclui, entre outros, DJ Shadow, Thom Yorke, Ian Brown, ou Grandmaster Flash.

Domingo, 7, 21.30, Capitólio

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Corps à Cœur


Um dos heróis independentes do IndieLisboa, o veterano Paul Vecchiali, neste filme, como que viaja no tempo, até à sua infância, e daí retira o seu fascínio pelos melodramas de autores como Pierre Prévert, René Clair e Marcel Carné e usa-o como influência determinante em Corps à Cœur. Apropriadamente, aliás, narrando a história trágica de um mecânico e de uma farmacêutica ao som do Requiem de Fauré.

Segunda, 8, 21.30, Cinemateca – Sala Félix Ribeiro

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The Alchemist Cookbook

Os habituais do festival já deram com certeza com o cinema – para pôr a coisa de maneira educada – psicótico de Joel Potrykus. Aqui esteve em 2013, com o pirómano Ape. E aqui voltou há dois anos com o ensaio sobre a paranóia do vígaro retratado em Buzzard. Pois, desta vez, não será diferente. Ou seja, será melhor, pois – como dizer? – The Alchemist Cookbook ainda é mais dado à psicopatia que os anteriores, principalmente para quem a inclinação pelos seus filmes vem precisamente dessa atracção pelo desastre psicológico que o realizador encena igualmente nesta sua versão, digamos, de O Aprendiz de Feiticeiro.

Terça, 9, 23.00, Ideal

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Minute Bodies: The Intimate World of F. Percy Smith

Entre os argumentos da secção Director's Cut está o documentário de Stuart A. Staples (sim, esse que foi dos Tindersticks), no qual o músico mostra como os seus interesses vão, pelo menos, um pouco mais além do que a música. No caso deste documentário recuando até à figura do pioneiro do micro-cinema, F. Percy Smith, e as suas deslumbrantes observações do mundo celular, protozoário, através da vida oculta de plantas e insectos, transpostas em imagens fascinantes, aqui acompanhadas por uma apropriada banda sonora a dar para o hipnótico.

Quarta, 10, 21.30, Cinemateca – Sala Félix Ribeiro

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Werewolf

É de outra intimidade, por assim dizer, que trata este filme presente na competição internacional desta edição. Escrito e dirigido por Ashley McKenzie, a película, com Andrew Gillis, Bhreagh MacNeil e Mark Woodland, apresenta Blaise e Nessa, que ganham algum dinheiro cortando relva com um cortador que funciona a gasolina roubada de carros estacionados. Não têm casa. Estão no programa de metadona local e, de certo modo, é esta miséria física que os mantém juntos. Contudo…

Quinta, 11, 21.30, Culturgest – Grande Auditório

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Ghost Hunting

Esta sessão especial do festival dedica-se a um filme também ele particular. Aqui encontramos a história do realizador palestiniano Raed Andoni que, há 30 anos, foi preso pelo exército israelita e, agora, decidiu reconstruir a sua memória da passagem pelo centro de detenção de Jerusalém, Al-Moskobiya, através dos testemunhos de sobreviventes. Mas, também e principalmente, replicando salas de interrogatório e celas, e encenando episódios de humilhação a que foram sujeitos, do que resultou uma espécie de expiação colectiva merecedora do Urso de Prata para Melhor Documentário no Festival de Berlim.

Sexta, 12, 21.30, Culturgest – Grande Auditório

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