O Estado das Coisas

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O Estado das Coisas

Sem Hammett e as chatices que o produtor Francis Ford Coppola deu a Wim Wenders durante a rodagem, o mais certo era O Estado das Coisas não existir, ou, a existir, ser muito diferente. Contudo, como diria o outro, ele vive. E não é só por ser a preto e branco, ou a direcção de fotografia ser de Henri Alekan, que é um petisco para cinéfilos.

Há mais de 30 anos, as coisas não corriam nada bem entre o realizador alemão e os seus produtores em Hollywood. Aproveitando um intervalo nas filmagens, Wenders vem para Portugal, instala-se na Praia Grande e (com uma passagem narrativa fundamental e conclusiva por Los Angeles) cria uma obra em que uma equipa de filmagens é forçada a parar tudo quando o dinheiro acaba e o fornecimento de película estanca no meio de uma disputa, digamos, conceptual, entre os produtores americano (Allen Goowitz) e europeu (Patrick Bauchau). O pretexto é como fazer uma versão de O Dia do Fim do Mundo, dirigido por Roger Corman em 1955 (que, para grande salivação cinéfila, terá o seu papel neste filme, assim como os realizadores Samuel Fuller e Artur Semedo, ou o argumentista Robert Kramer), mas em causa estão dois conceitos de cinema. Sem Os Sobreviventes para filmar, a equipa fala. Fala de cinema, no momento em que, quer o papel do autor, quer o da arte estavam definitivamente a ser postos em causa – ideológica e comercialmente – pelo desenvolvimento dos blockbusters e pela cada vez maior hegemonia de películas americanas na Europa. É, a esta distância, claro, uma conversa de fantasmas.

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