Quem tem medo dos Gremlins?

São danados para a brincadeira e marcaram a carreira de Zach Galligan, o actor que interpretou Billy Peltzer na saga Gremlins e que passou por Lisboa para responder às perguntas dos fãs na última Sessão de Culto no Espaço Nimas.

Fotografia: Arlindo Camacho

Sem quebrar nenhuma regra também respondeu às nossas e garante que o terceiro filme está a caminho. Hoje o actor passa pela Comic Con Portugal, em Matosinhos, num painel sobre o primeiro Gremlins antes de uma emissão especial deste filme tão natalício, com direito a Branca de Neve e motosserras.

Já passaram mais de 30 anos desde o início. Os Gremlins são fantasmas que te perseguem por todo o lado ou uma espécie de anjos da guarda?

Gosto de me referir aos Gremlins como uma dádiva que não se esgota. Todos os anos acho que vai tornar-se menos importante, mas parece que se torna cada vez maior. Posso dar alguns exemplos. O ano passado fizeram uma figura de acção minha, nunca pensei ter uma. Exemplo nº 2: estou em Las Vegas a trabalhar e num casino, encostadas à parede, estavam três slot machines gigantes. Uma do Feiticeiro de Oz, outra do Senhor dos Anéis e a outra era dos Gremlins. É tão chocante, porque quando fiz o filme pensei que as pessoas iam gostar, mas acabou por atingir um nível que muitos filmes não alcançam.

Porque achas que as pessoas continuam a falar dos Gremlins? A internet terá ajudado.

Acho que há um par de razões. Acho que tens razão quanto à internet, porque permite às pessoas descobrir o filme. Há dois temas nos Gremlins que penso terem marcado as pessoas. Uma é que existe o bem e o mal em todos nós, temos o lado bom como o Gizmo e o lado destructivo como os Gremlins. Outra é sobre seguir as regras. É um filme simples, certo? Um rapaz recebe um presente, não pode quebrar as três regras, quebra-as, o caos acontece e qual é a moral da história? Sigam as regras. Em todas as sociedades no mundo somos ensinados a seguir as regras e claro que as pessoas às vezes não querem fazer isso. O filme é sobre a luta entre seguir as regras da sociedade ou não.

És um seguidor de regras?

Agora sou. Quando és novo pensas que as regras são estúpidas. Pelo menos eu pensava que as regras eram feitas para serem quebradas. Mas quando envelheces apercebes-te que até fazem sentido.

Porque senão acontecem os gremlins?

Se não forem eles, é o equivalente. Algumas regras são más e essas devem ser mudadas. Mas as regras permitem a convivência entre biliões de seres humanos quando nem sempre pensam, sentem ou querem as mesmas coisas. E enterrado dentro de um filme muito divertido encontras todo o tipo de ideias e conceitos interessantes.

Como os gremlins, os maus da fita, que te fazem rir.

São maliciosamente divertidos. O que também te mostra que o lado mau não tem de ser muito negro. Pode ser maroto. O que também é interessante é que os gremlins cometem assassinato!

É verdade...

Alerta de spoilers, eles matam a Sra. Deagle. E a audiência ri, porque ela voa pela janela fora e eles riem-se. Isso é um bom argumento e uma grande performance da actriz que interpreta um ser humano terrível. Só se preocupa com dinheiro, não quer saber das pessoas. É o pior que um ser humano pode ser. Por isso quando ela morre, pensamos: “que bom, quero ver-me livre de ti, és a antítese daquilo com que nos preocupamos”.

Há sempre diferentes tons de maldade.

Sim. E o oposto dela é meu personagem, o rapaz mais querido e simpático. Ama a sua mãe, tem consideração por toda a gente, é respeitoso. Tal como a Dorothy! É uma versão masculina da Dorothy.

Achas? Nunca tinha pensado nisso assim.

Sim, mais ou menos. A Sra. Deagle é a bruxa e ele é tipo “there’s no place like home”.

Imagina que estamos em 1984. O que dirias às pessoas para as convenceres a irem ver o filme?

Precisam de ir ver este filme, porque, na minha opinião, tem a coisa mais fofa que alguma vez foi criada na história do cinema.

E não és tu.

E não sou eu. E 32 anos depois ainda nada o superou em fofura. Há coisas que podem ser tão fofas como ele, mas não consegues dizer “ah isso é muito mais fofo que o Gizmo”. Gizmo é a criação mais fofa, adorável e encantadora.

Adoptarias um?

Como é que sabes que não adoptei um? Como é que sabes que o Gizmo não vive comigo?

É um Gizmo velhinho...

Está definitivamente mais velho, mais grisalho. Mas ainda tem de ficar no armário, onde está escuro e seco. Tenho de ter muito cuidado na alimentação.

Aprendeste a tua lição. Duas vezes!

Duas vezes!

Quanto ao primeiro filme, qual é a tua cena preferida? Sei que última cena com a motosserra foi um bocado perigosa.

As cenas são como meus filhos, não consigo escolher só uma. Não que eu tenha filhos, de qualquer forma, pelo menos que eu tenha conhecimento. Sabes que as minhas cenas preferidas vão mudando. Gosto dessa cena na loja com o bastão de baseball e as lâminas da motosserra a aproximarem-se da minha cabeça. É a chance do Billy de ser um bocadinho machão e lutar contra ao vilão. Gosto dessa sequência toda até à cena da fonte.

Li que tentaste afastar-te um pouco de Hollywood e ainda estudaste História na Columbia University. Mas voltaste e no teu currículo tens mais de 60 filmes e séries. Ainda estás a tentar encontrar outro Billy? Não necessariamente o mesmo tipo de personagem, mas com a mesma dimensão.

Repara, às vezes tens um sucesso tarde na vida, às vezes cedo e às vezes a meio da tua vida. Eu tive o meu no início da minha vida. O que interessa é que tens de te sentir agradecido de teres tido de todo um êxito na tua vida. Uma vez tive uma conversa com um actor, que não vou dizer quem é, que tem uma carreira muito melhor que a minha, com vinte filmes que as pessoas conhecem. E ele disse-me “sim, mas tu tiveste um hit”. Porque ele sabe que daqui a trinta anos ninguém vai falar desses filmes. Mais vale cedo ou tarde do que nunca.

Os fãs querem o terceiro filme e já há rumores por aí sobre o Steven Spielberg e o Chris Columbus estarem envolvidos na produção.

E vão tê-lo.

Será que o Billy vai voltar?

Juro que não sei. Nem sabia que ia entrar no segundo filme até três ou quatro meses antes de o começarem a filmar. Podem trazer o meu personagem de volta ou não.

Mas gostavas de voltar a estar com o teu amigo Gizmo no grande ecrã?

Ia adorar. Ele é o meu companheiro e acho que combinamos muito bem.

Os fãs também.

Não acho que o queiram sem mim, mas posso estar errado. Pode ser só a minha vaidade a falar.

Tens planos ou resoluções para 2017?

Deixei Nova Iorque e mudei-me para Atlanta. É um modo de vida muito diferente, que eu adoro. Gosto de cidades, mas precisava de me mudar para o campo, com árvores e coisas do género. Estou numa fase diferente da minha vida. Já não sou o rapaz que ia aos clubs todos de Nova Iorque e Los Angeles, que bebia a toda a hora e andava atrás de raparigas.

Mas vais continuar a filmar?

Sim. Em Atlanta é um ambiente completamente novo e há uma série de coisas a serem filmadas lá. Como o The Walking Dead, The Vampire Diaries, Sleepy Hollow, Stranger Things... e mesmo grandes filmes. O Sully e o Fast and Furious 7, foram filmados lá. Estou entusiasmado em estar numa cidade nova com muita coisa a acontecer.

Seria mesmo muito fixe que entrasses no Stranger Things.

Não era? Seria perfeito.

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