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Mama Shelter

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  • Avenida da Liberdade/Príncipe Real
  • 3/5 estrelas
Mama Shelter
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A Time Out diz

3/5 estrelas

O campeonato dos restaurantes para comer e ser comido ganhou um novo player. Alfredo Lacerda tirou uma selfie, não se alimentou mal e saiu ileso.

Às 22.40 de uma sexta-feira ainda há fila. “A sua mesa é só às 23.00. Pode ir ao rooftop, enquanto espera”, diz-nos a recepcionista. E nós vamos. O elevador sobe e a música ressoa cada vez mais alta. A meio, fazemos uma paragem para entrar um hóspede. Que tipo de pessoa se aloja num sítio com Dua Lipa aos gritos até de madrugada? Olho para o homem, a pele dourada, reluzente, uns 40 anos, a camisa florida aberta. Está sozinho. Mas poderá não ser por muito tempo.

No bar do rooftop, um oitavo andar, sente-se uma agitação movida a testosterona e álcool. Os barmen e as barwomen desdobram-se em cocktails e imperiais (5€, cada). Há cantadas de Tinder, amigos em ambiente de balneário de rugby, amigas em ambiente de provador da Gucci. Três em cada dez serão estrangeiros – de Luanda a Moscovo, dos EUA à China –, mas a maioria serão autóctones bem na vida, voyeurs do social, donos de contas de Instagram com “k”, solteiros e solteiras.

Às 23.00, o rooftop encerra. Cá em baixo, o restaurante é um prolongamento da festa, um turbilhão de gente em movimento. Pergunto-me para onde irão. A sala prolonga-se para lá do bar, em open space, cheia de gente sentada e de pé. O cenário é o de um caleidoscópio marinho: peixes no tecto, peixes pendentes, peixes de louça encastrados. Nas paredes, azulejos, painéis dourados, uma profusão de cores, estilos e padrões; nas colunas, um disco electrónico que obriga as pessoas a falarem ao ouvido, como num bar; no tecto, luzes baixas, só o suficiente para reconhecermos o Pedro Lamy, na mesa ao lado, e para se apreciarem decotes e modelitos.

Já quem quiser ver de que é feito o ceviche, tem de ligar a lanterna do telemóvel. “Mas depois vai-se a bateria e falha-se a selfie no Mama” – dirão. Errado. “Temos um carregador na recepção, à disposição dos clientes”, acode a empregada de mesa (“Maria”), extraordinária de simpatia e rapidez.

O Mama zela pelos nossos telemóveis, porque sabe que as redes sociais lhe são essenciais. A questão é: com esta luz tão baixa, onde se tira uma selfie para o Instagram? Onde se faz um Tik Tok? A resposta aparece já no fim do jantar, depois de termos despachado o tártaro de novilho (bem bom), o hummus (razoável), o polvo grelhado (bom), o ceviche de salmão (insosso e esbardalhado, com milho frito rançoso) e o tiramisù (óptimo, a bater-se com os melhores da cidade).

Numa ida à casa de banho, de uma assentada, esclareço duas das interrogações. As pessoas em movimento estão a ir ou a vir das casas de banho. E é lá, também, o posto oficial da selfie. Para lá chegar, é preciso descer um lanço de escadas, e passar por um segurança, estacionado no corredor das casas de banho. O que raio faz um segurança à porta de uma casa de banho é algo que me inquieta, mas não às trintonas artilhadas para o Instagram, que se revezam em fotos ao espelho, em risadas e comentários às “mamas boas” e à “lingerie”. Na casa de banho dos Homens (sim, tem género), percebo que o espelho já vem com legenda: “Toilet selfie”, lê-se, a um canto.

No fim, pouco sobra para dizer sobre a comida. No Mama Shelter não se vê comida. Não cheira a comida. Tudo parece feito para nos distrair da comida. Sendo um restaurante, não existe fundamentalmente para comer. Sendo um hotel, não existe fundamentalmente para dormir.

Para que existe, então, afinal?

À saída, já depois da uma da manhã (com muita gente ainda lá dentro), passo na recepção, que partilha entrada com o restaurante, e pergunto se os hóspedes não protestam do barulho. O recepcionista é muito eloquente: “Quem nos procura já sabe ao que vem.”

Em casa, investigo a marca e a oferta de quartos. O Mama Shelter, uma cadeia já com umas dezenas de hotéis espalhados pelo mundo, foi ideia dos ex-donos do Club Med, mas o gigante Accor adquiriu-o, entretanto.

Um quarto pequeno, por estes dias, começa nos 130€, mas escala facilmente, de acordo com o pacote de extras. De série, já vem com filmes pornográficos gratuitos, mas se o nosso amigo hóspede do elevador quiser elevar a experiência, também poderá adquirir a caixa Sexy Mama, “um pacote travesso, incluindo um espanador de penas macio, um vibrador, um masturbador, lubrificante, óleo de massagem e 2 preservativos”. São 39 euros. Um pouco mais do custo médio de um jantar.

Alfredo Lacerda
Escrito por
Alfredo Lacerda

Detalhes

Endereço
Rua do Vale de Pereiro 19
Lisboa
1250-189
Horário
Dom-Qua 12.00-15.00 e das 19.00-23.00. Qui-Sáb 12.00-15.00 e das 19.00-00.00
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