'O Pai é Top': o livro de Marcos Piangers mostrou à internet como é bom ser um pai empenhado

O que deve dizer um pai a uma filha que lhe conta que quer começar a ter sexo? Marcos Piangers não sabia, mas está a aprender com as duas fillhas e o feedback que recebe de 'O Pai é Top'. Marcos Piangers, fenómeno da internet, está de volta a Portugal

©Cláudio Fonseca

“Hoje você está de babá” foi uma das frases que Marcos Piangers mais ouviu de outros homens quando começou a passear as suas filhas, Anita e Aurora. Não era um comentário inocente, era malicioso. O jornalista brasileiro, que já trabalhou intensamente em televisão, jornais e rádio, decidiu dosear o seu trabalho para passar mais tempo com as filhas e reclama este lugar de cuidador que o Brasil parece querer manter colado à mãe. As histórias com as filhas não param de nascer e florescer. Começou a escrever sobre elas no Facebook, com muito humor; ganhou seguidores, tornou-se um fenómeno da internet e publicou um livro que juntou uma comunidade à volta da ideia de pai: uns foram abandonados pelo pai (como o autor), outras foram mães solteiras, outros ainda acham que o seu pai é o maior.

O livro que do outro lado do atlântico se chama O Papai é Pop chegou a Portugal com o nome O Pai é Top em Março de 2017. Na altura, Marcos Piangers explicou-nos como cada “abraço economiza fortunas que gastaria com psiquiatras”. Agora está de volta, para  conferência "Retrato de Família" (11 de Outubro no auditório do ISCTE, a propósito do 25 anos da revista Notícias Magazine).

O Pai é Top, o livro de Marcos Piangers em Portugal

Num dos teus textos falas sobre viajar sem as miúdas e como isso se tornou melhor para a educação delas porque ficaram com os avós, que lhes ensinaram coisas como pedir para ir à casa de banho e deixar de usar fralda. Tu e a tua mulher já conseguem viajar com elas e assumir todas as complicações?
É um aprendizado constante perceber que eu sinto falta delas quando viajo sem elas, que elas não sentem tanta falta minha como eu sinto delas, porque já são outras pessoas. A gente já viajou bastante com elas. A viagem mais complicada talvez tenha sido à Tailândia – 14 horas de voo e muita bagunça – viajámos para o Caribe, Uruguai e para os Estados Unidos. Mas as partes mais difíceis da criação de um filho são também as mais legais. São as que eu vou lembrar para o resto da vida – as noites em claro, os cocós mais complicados. Se for fácil alguma coisa está errado – ou tem uma babá que cuida de tudo ou está deixando o seu filho só no Netflix. Muitas das inseguranças dos pais são inseguranças próprias: ‘vou ter de levar a criança num parque para ela sair de casa num sábado...’. Para a criança, ela nem quer sair de casa, ela quer ficar com você, brincando de qualquer coisa. Todas as nossas ansiedades têm a ver connosco, a minha filha uma vez me disse isso, pode parecer mentira. Eu estava brigando com a minha filha Anita e ela vira para mim, muito pequena, e fala 'pai, você já percebeu que quando você briga comigo você está brigando com você mesmo quando você tinha a minha idade?'

Achas que ela ouviu isso em algum lado, num programa?
Eu não sei! Mas eu falei 'Wooow, é verdade', a forma dura como eu sou com ela é a forma como a minha mãe foi comigo ou aquilo em que eu acho que errei e ela pode fazer certo. Muitas das inseguranças acerca da escola – fico muito preocupado com bullying ou com drogas – são minhas com o meu colégio, com o que eu via acontecer na época.

Escreves muitas vezes que a melhor coisa de ter filhos é passar tempo com eles e não a casa onde vivem ou o colégio. O que fazem quando passam tempo juntos?
De momento a brincadeira favorita da minha filha que tem quatro anos é uma brincadeira que não existe: eu me deito na cama, levanto ela com os pés e a gente passeia pelo espaço, e ela fica perguntando 'o que é aquilo?'. Eu digo que é uma estrela, explico o que é o sol, os buracos negros, a vida extraterrestre. Ficamos muitas horas brincando disso. Eventualmente ela encosta num buraco negro e entra numa outra dimensão – cai e eu cubro ela com o lençol. A gente com o dia-a-dia descobre caminhos para as coisas que eles gostam de verdade e não que vocês acham que eles gostam.

O mercado oferece muitas coisas que tentam adivinhar o que os miúdos vão gostar – livros, passeios, brinquedos. Quais dessas coisas acertaram com as tuas filhas?
Nada... Não há nenhum brinquedo que dure até hoje, com que elas tenham brincado muito tempo; nada foi assim tão transformador como conversar com elas, explicar as coisas. Com a minha primeira filha eu achava que a gente tinha o tempo todo que fazer alguma coisa – levar no parque, no shopping, no teatro infantil, entregar coisas para ela. Depois de um tempo eu percebi que era para mim que eu estava fazendo aquilo. Ela achava o teatro horrível, achava os parques muito lotados, tudo era muito caro, ela não gostava dos filmes e pedia para sair a meio. Quanto mais tempo você passa com os seus filhos você percebe que ela é outra pessoa diferente de você.

Há uma grande preocupação com a educação dos miúdos: serem os mais inteligentes, os melhores possível. Tens essa preocupação?
Sim, existe isso no Brasil. A impressão que eu tenho é que a gente está trabalhando demais, não tem tempo para nada e a gente pensa 'todo o tempinho que eu tiver vai ter de ser como cachoeira de conhecimento para o meu filho’. O que está errado é um passo antes: ter mais tempo para seu filho. Não há como tornar ele mais inteligente com uma hora por dia. Não tem de fazer o seu filho aprender tudo, ele nem quer. Tem um valor em não fazer nada, em deixar o seu filho fazer o que ele quiser, brincar com coisas analógicas que não são caras. Tem um mercado construído para que você entre nessa roda de consumo. Eu prefiro ficar meio longe.

Sempre quiseste ter filhos?
Fui pai aos 24 anos. Morava com a minha actual esposa há um ano, mais ou menos, e quando ela descobriu que estava grávida, com a mesma idade, ficou muito assustada. Como eu não tive pai, quanto mais filhos mais legal, eu queria bastantes crianças fazendo xixi e cocó no chão, queria ter bagunça dentro de casa. Mas ela ficou muito nervosa e eu entendi depois que para a mulher é muito brutal, é muito assustador.

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É pelo menos uma coisa muito mais física.
Muda completamente o corpo, muito para além do peito. Ela desenvolveu um chulé absurdo, eu fiquei... ‘meu deus, tomara que isso não seja hereditário, que não passe para a minha filha’. Profissionalmente teve de parar de fazer tudo o que estava a fazer, nenhuma das amigas dela tinha filhos... Eu vi que na vida dela a mudança foi muito mais assustadora. É muito mais complicado para a mulher ter filhos do que para um homem. Para a gente é fácil: meu chefe bateu nas minhas costas e disse que agora eu ia ser mais responsável. Não existe uma cobrança, existe inclusive a possibilidade de um homem fugir, não é? Tem muito homem que abandona a mulher, no Brasil é um problema crónico.

Os filhos são sempre vistos como um assunto feminino. Achas que isso é opressivo também para os homens?
O que eu acho mais interessante de olhar é que as mulheres entraram no mercado de trabalho, a gente não vive mais nos anos 50, não estão em casa levando louça e passando o aspirador de pó. Porque é que o homem também não fez esse caminho inverso e não optou por participar mais da vida dos filhos, dos trabalhos escolares, das discussões fisiológicas complicadas? Existe uma responsabilidade que o homem pode ocupar. Quando eu lancei o livro no Brasil [2015] a impressão que eu tinha era essa. Mas aconteceu um fenómeno tão grande que homens começaram a me escrever. Porque o que falta aos homens é referencial, a gente não sabe que isso é possível, a gente tem um pouco de vergonha de passar com os filhos porque os nossos amigos dizem 'ai, você hoje está de babá'. Não! Eu sou pai, eu participei de tudo e quero ter pelo menos o direito de poder trocar a fralda dos meus filhos, de dar banho, botar para dormir. Apesar de parecer um dever é um direito, é uma capacidade de se deslumbrar nesse dia-a-dia. Vários homens me escrevem dizendo 'não imaginava que havia essa possibilidade, queria ser isso mas não sabia que podia, nunca tinha visto'.

Tu também não tinhas esse referencial. Como é que o descobriste?
Com vergonha! Várias vezes eu estava passando com as minhas filhas e encontrava amigos que me diziam 'que careta, o que é isso? que feminino, a sua mulher manda em você?' Não! sou eu quero encher a minha cara de xixi – é horrível, mas é divertido também. É divertido quando você dá banho na sua filha e se atrapalha, ou quando põe uma roupa ao contrário, é engraçado. Os homens excluem-se dessa relação por medo e vergonha. Está na hora e já há vários homens a fazerem esse caminho inverso.

São mais homens que te escrevem?
Muito mais mulheres.

E dizem o quê?
São muito legais porque elas adoram a temática, muitas se identificam com história da minha mãe, que é mãe solteira e me criou sozinha – no Brasil isso é muito crónico e então muitas mulheres me escrevem dizendo 'também fui abandonada, sou grávida solteira'; muitas pessoas (mulheres e homens) me escrevem dizendo que não conhecem os pais, que os pais os abandonaram; e muitos me escrevem dizendo que pai é a pessoa mais incrível do mundo: 'meu pai era bem assim como você está descrevendo', 'o meu pai participou, meu pai era meu maior confidente'. Algumas meninas me escrevem dizendo 'quando eu menstruei eu liguei para o meu pai e não para a minha mãe'. É um bolo de audiência que o livro encontrou que está também tentando entender essa nova configuração familiar.

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Como é que decidiste organizar a tua vida para tratares das tuas filhas?
O que fui fazendo – e talvez até seja objecto de um próximo livro – foi desenhar a minha vida profissional para periodizar a minha felicidade, que é estar perto das minhas filhas. Felicidade é você poder realizar-se profissionalmente e ao mesmo tempo poder ter uma vida social e familiar interessante. Fiz esta mudança em 2013: percebi que a minha vida familiar não estava perfeita. A minha filha mais nova tinha um ano, a minha esposa estava cuidando mais dela do que eu, eu participei mais da primeira filha do que da segunda, estava trabalhando muito. Comecei a fazer uma linha reversa para entender quais são as poucas coisas que eu posso fazer para ganhar mais e conseguir ficar mais tempo com elas. Esse design da vida familiar me possibilita tomar café da manhã com elas, sentar para contar histórias, jantar. Porque todos os dias eles nos falam coisas novas e interessantes.

Como por exemplo?
A minha filha mais nova, de quatro, está superfalante, inventando piada. Conta umas piadas que ela inventou na cabeça dela.

Que tu usas. Ela é que faz todo o teu trabalho.  
Elas fazem todo o trabalho, eu só fico quieto, ouvindo elas falando e 'woow', rindo muito, é muito divertido.


Quando é que tu percebeste que isto era bom material?
Desde 2006, mais ou menos, a minha primeira filha tinha um ano, comecei a anotar histórias – a minha relação com o parto, pequenas frases. Só que as crianças vão crescendo e vão falando coisas muito legais. A minha filha mais velha quando era pequena falava coisas que eu morria de rir: ela queria trabalhar no Big (um supermercado brasileiro), em que os atendentes usam patins – ‘meu sonho de vida é ser patinadora do supermercado porque vou ganhar dinheiro e ficar patinando o dia todo’. Nunca pensei em publicar, só que os amigos leram as anotações, vi outras pessoas fazendo.

Isto acaba por resultar num manual: ensinas alguma coisa, mas também deves aprender com o que te escrevem.
Sempre. No outro dia um pai falou a coisa mais brutal que eu já ouvi. A filha falou para ele que queria fazer sexo pela primeira vez com o namorado. Ele falou para ela 'olha vou-te explicar que existe uma opção: masturbação. O chuveirinho e tal... você pode usar no banheiro'. E aí eu fiquei chocado! WOW, cara, já me ajuda para daqui a uns quatro anos, quando a minha filha vier falar comigo. Fico o tempo todo ouvindo histórias e dizendo ‘tem pessoas muito melhores do que eu, mais resolvidas, mais tranquilas para falar de outros assuntos'. O tempo todo eu estou tentando ser um pai melhor. Eu é que tenho de agradecer por estar no centro desse furacão cheio de troca de experiências.

Criaram as vossas filhas em Porto Alegre. Como é que é a relação delas com a cidade?
Tem 3 milhões de habitantes, tem muitos parques, andámos muito de bicicleta, a pé, mas agora está uma cidade muito violenta, é uma cidade que perdeu o controlo da violência. Estamos a mudar-nos para Curitiba, que é muito parecida: também tem três milhões de habitantes e a possibilidade de andar a pé. Valorizo muito a possibilidade de ir de mão dada até ao colégio, conversando. Aprendo muito nesses momentos. Estamos buscando essa possibilidade de sair de casa sem medo de morrer ou ser assaltado; está mais perigoso do que São Paulo. Mas é isso, novamente, estamos a organizar a nossa vida de maneira a passar tempo com elas. Não é a escola mais cara, o tempo da escola não é toda a educação, o mais importante é a gente estar conversando.

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Já estiveste em Lisboa. Identificaste alguns pontos de terror para um pai ou uma mãe na cidade?
Lembro-me de estar no Bairro Alto tomando cerveja e ver crianças de madrugada na rua – no Brasil isso é impensável. Vi aquelas crianças com ténis caros, fones de ouvido, iPad e iPhone na mão e pensava ‘esses caras vão ser assaltados, vão ser sequestrados, o que vai acontecer com essas pessoas?’. Crianças de 15 anos andando de madrugada assim na rua é impensável para brasileiros. Para experiência das crianças deve ser muito libertador, poder sair com os seus amigos aos 15 anos à noite, num bairro boémio, é deslumbrante para a gente. Vocês nem sabem que é libertador. E enfim, tem comida boa.

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