10 canções para ouvir ao volante

Carros e rock’n’roll andam juntos desde que o segundo nasceu. Pode mesmo dizer-se que começou a conduzir antes de saber andar. Hoje, o rock já se deixou de Cadillacs cor-de-rosa e anda quase sempre de Uber e as canções ganharam imenso com a mudança

©DR

10 canções para ouvir ao volante

“Drive My Car”, dos Beatles

Ano: 1965

Rubber Soul representou um apreciável salto qualitativo no songwriting dos Beatles, mas a sua faixa de abertura, “Drive My Car”, imputável essencialmente a Paul McCartney, não acompanhou esse progresso. A música, ainda que “orelhuda”, está longe de ser uma obra-prima e a letra é indigente e foi isso que Lennon disse a McCartney quando este lhe mostrou a canção. Na verdade disse pior: usou a expressão “crap” e convenceu McCartney a alterar alguns versos – desgraçadamente “Beep beep’m beep beep yeah!” ficou. A proposta que a rapariga faz ao rapaz de ser ele a conduzir-lhe o carro (“Baby you can drive my car”) tem óbvia conotação sexual e deve ter feito aparecer um brilho maroto nos olhos de muitos adolescentes que a cantarolaram naquele distante e sexualmente repressivo ano de 1965.

Como a multinacional que actualmente detém os direitos das canções dos Beatles removeu estas do YouTube (com raras excepções), teremos de ficar com um sucedâneo: a versão de Paul McCartney, ao vivo na cidade de Québec, em 2008. Se a inanidade de “Drive My Car” é compreensível no incipiente estado de desenvolvimento da pop em 1965, é mais difícil perceber que McCartney faça questão de regressar a ela 43 anos depois – mas a verdade é que boa parte do que McCartney escreveu após o fim dos Beatles não é melhor.

“Ford Mustang”, de Serge Gainsbourg

Ano: 1968

Uma celebração (irónica) de um ícone americano – o Ford Mustang – e do imaginário pop americano. A letra é, essencialmente, uma lista que inclui uma Coca Cola, um isqueiro Zippo, um número da revista Super-Homem, uma foto de Marilyn Monroe, uma embalagem de aspirinas, uma barra de chocolate e uma compilação de Edgar Allan Poe (“Edgard Poe”). Será o inventário do conteúdo do porta-luvas do Mustang? Pouco importa desde que “Marilyn” rime com “aspirine”, e “Mustang” rime com “langues”, o que se verifica se se adoptar a pronúncia francesa. Acontece é que a conversa fiada distrai da estrada e “bang!” o Mustang acaba abraçado a um plátano.

A canção faz parte do oitavo álbum de Gainsbourg, Initials B.B. B.B. é Brigitte Bardot, com quem Gainsbourg tivera um ardente envolvimento amoroso no final de 1967 e que empresta a sua voz à mais famosa canção do álbum “Bonnie and Clyde”. Em “Ford Mustang”, a voz feminina é de Madeline Bell.

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“Born To Run”, de Bruce Springsteen

Ano: 1975

Um hino ao roncar dos motores e ao brilho dos cromados. Uma afirmação de liberdade e do inalienável direito a queimar gasolina como se os poço dos Texas e do Golfo Pérsico não tivessem fundo. Uma visão do Sonho Americano com carburador duplo e suspensão rebaixada. Uma canção épica, capaz de comover todos os que vêm o tuning como uma forma de transcendência, adoram o cheiro a borracha queimada pela manhã e entendem que um “ratere” é tão belo como um madrigal de Monteverdi, o que há é pouca gente para dar por isso.

Após dois álbuns com vendas muito modestas, “Born to Run” foi a derradeira tentativa de Springsteen para escrever uma canção de sucesso. A sorte sorriu-lhe e o álbum Born to Run subiu ao 3.º lugar do top, puxado em boa parte pelo single com a canção homónima e pelos mecânicos e garagistas de toda a América. A autobiografia que, 41 anos depois, Springsteen escreveu, só poderia ter um título Born to Run.

“2CV”, de Lloyd Cole & The Commotions

Ano: 1984

Não poderíamos estar mais longe do mundo viril e com mãos sujas de óleo dos hot rods de Bruce Springsteen: aqui é ela que conduz e o carro é o Citroën 2CV da mãe. É a história de um inconsequente amor de Verão, em que os amantes buscam um quarto para fazer amor apenas para estarem a salvo do “cruel sol londrino” – na verdade, admite Lloyd Cole, nada os une excepto o gosto em roupas. A canção faz parte de Rattlesnakes, o álbum que anunciou a chegada ao mundo de um songwriter culto, cool, perspicaz, irónico e sofisticado como poucos.

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“Drive, She Said”, de Stan Ridgway

Ano: 1986

É como se Raymond Chandler tivesse regressado nos anos 80 como songwriter: o narrador é condutor de táxi e recolhe uma passageira enigmática que não lhe fornece nenhum endereço. Quando ele lhe diz que não pode continuar a andar às voltas, sem destino, ela responde-lhe “Cala-te e não tires os olhos da estrada”; e quando ele faz uma pergunta indiscreta, ela tira uma pistola da bolsa: “Cala-te e não tires as mãos no volante”. Pelo espelho retrovisor ele distingue no saco que ela tem no regaço o nome de um banco da baixa e, por momentos, sonha com um idílio a dois, numa remota ilha tropical, mas o final tem o sabor amargo e cínico típico do film noir.

Esta ficção musical faz parte do primeiro álbum a solo de Ridgway, após o fim dos Wall of Voodoo, cujo título, The Big Heat, foi pedido emprestado a um clássico do film noir dirigido por Fritz Lang e surgido em 1953.

“Cars and Girls”, dos Prefab Sprout

Ano: 1988

A letra de Paddy McAloon – um dos raros songwriters capazes de rivalizar com Lloyd Cole em cultura, coolness, perspicácia, ironia e sofisticação – fala em carros, miúdas, motores e estradas que se estendem até ao horizonte, por isso muitos pensam que esta canção é um “Born to Run” em versão estival, arejada, luminosa e descontraída – em termos automobilísticos, um cabriolet em vez de um hot rod.

Nada de mais errado: a canção é um remoque a Bruce Springsteen e ao seu limitado imaginário como letrista: “Brucie sonha que a vida é uma auto-estrada”, mas “há coisas que magoam muito mais do carros e miúdas”. A crítica à mundividência springsteeneana é, todavia, feita com elegância, e McAloon até aceita que ela possa ter coisas boas: “Talvez este mundo precise do seu lote de sonhadores, possam eles nunca despertar”. “Cars and Girls” foi o primeiro single do terceiro álbum da banda, From Langley Park to Memphis.

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“Stay in the Car”, dos Girls Against Boys

Ano: 1990

É a canção de abertura do EP de estreia da banda, Nineties vs. Eighties, e nesta apresentação já estão patentes os ingredientes que definiriam o som dos GVsB: grooves obsessivos resultantes da demoníaca articulação de bateria e dois baixos (um deles distorcido), uma guitarra monocórdica e venenosa, a voz carismática de Scott McCloud repetindo palavras de ordem enigmáticas. Alguém diz que “precisamos de algum controle de armas, precisamos do homem da Marlboro” e há um presidente que distribui palmadas nas costas. Aconteça o que acontecer, não saiam do carro.

“Be Quiet And Drive (Far Away)”, dos Deftones

Ano: 1997

Embora costumem ser arrolados no nu-metal, os Deftones exibem por vezes influências que extravasam as deste género. É o caso desta canção do seu segundo álbum, Around the Fur, cuja melodia vocal lamentosa e guitarras pesadas mas atmosféricas remetem para o shoegaze e para a dream pop. A letra é enigmática e só é inequívoco o desejo de conduzir para longe daquela cidade – para esquecer uma relação amorosa que acabou mal? –, não importa para onde, desde que seja para longe.

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“Passenger Seat”, dos Death Cab For Cutie

Ano: 2003

Uma viagem nocturna, não ao volante mas como passageiro. E em vez da vertigem e tensão usualmente associadas às “canções de estrada”, uma imperturbável serenidade: uma sombria estrada rural, o aroma forte dos pinheiros, as estrelas e os satélites lá muito em cima, a descontracção de quem se deixa conduzir por outrem, os pés em cima do tablier, a cabeça perdida numa divagação sonolenta.

A canção faz parte do quarto álbum da banda, Transatlanticism, que é unificado pelo temas das viagens e das relações entre amor e distância.

“In the Backseat”, dos Arcade Fire

Ano: 2004

Mais uma canção do ponto de vista do passageiro, agora no banco de trás: “Gosto da tranquilidade do banco de trás, não tenho de conduzir, não tenho de falar, posso contemplar a paisagem, posso adormecer”. Mas ao contrário de “Passenger Seat”, dos Death Cab For Cutie, cujo tom é apaziguado, há uma tensão latente na música de “in the Backseat” e na menção à “árvore familiar que está a perder todas as suas folhas” – acontece que vários familiares de membros da banda faleceram quando o álbum de estreia estava a ser concebido e gravado, daí o título que lhe deram, Funeral. O refrão fala de toda uma vida passada a aprender a conduzir – uma metáfora para a chegada a uma idade em que temos de abandonar o banco de trás e pegar no volante, isto é, tomar decisões e assumir responsabilidade por elas. Um fecho soberbo para um álbum de uma intensidade e beleza arrepiantes.

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