10 De Profundis para rogar misericórdia

A Fundação Gulbenkian dá a ouvir o De Profundis de um dos mais notáveis compositores portugueses do nosso tempo, António Pinho Vargas. É ocasião para recordar outros compositores que colocaram em música as mesmas palavras

São Francisco em meditação, por Francisco de Zurbarán, 1639

“Das profundezas clamo a ti, ó Senhor/ Senhor, escuta a minha voz, estejam os teus ouvidos atentos à voz das minhas súplicas/ Se tu, Senhor, observares as iniquidade, quem subsistirá?”. O Salmo 130 (129 na numeração da Septuaginta), o n.º 6 dos Salmos Penitenciais, instaura um clima de desolação e angústia, em que o pecador clama pela atenção de Deus. Todavia, à consciência da gravidade das suas “iniquidades”, o pecador alia a fé na ilimitada misericórdia divina, pelo que o salmo termina num tom redentor. Muitos têm sido os compositores que compuseram De Profundis, quase sempre para cerimónias fúnebres e por vezes em complemento a um Requiem.

Pinho Vargas na Fundação Gulbenkian
Neste concerto do ciclo Ciclo Música em S. Roque, o Coro Gulbenkian e o maestro Paulo Lourenço apresentam um programa que, cronologicamente, parte da Renascença (Miserere, de Gregorio Allegri), passa pelo Barroco (Crucifixus, de Antonio Lotti) e pelo Romantismo (Ave Maria, de Giuseppe Verdi) e tem a sua parte mais substancial no nosso tempo (De Profundis, de Pinho Vargas, Missa Sine Nomine, de Eurico Carrapatoso, Magnificat, de Eriks Esenvalds e Virgem Mãe de Deus, de Arvo Pärt).

Igreja de São Roque, Sexta 20, 21.30.

10 De Profundis para rogar misericórdia

Josquin

O franco-flamengo Josquin Desprez (c.1450-1521) foi o mais afamado compositor da sua geração e a sua influência estendeu-se bem para lá da sua morte. Chegaram até nós três centenas de peças em seu nome, das quais uma centena é de atribuição certa. Uma delas é um De Profundis a cinco vozes, de grande elaboração contrapontística (uma mesma melodia é cantada, desfasada no tempo, por três vozes – superius, tenor e contratenor). A data e finalidade da obra têm sido objecto de debate, com diferentes musicólogos a propor vínculos à morte de Filipe o Belo (ocorrida em 1506), de Luís XII (em 1515) e de Ana da Bretanha (em 1514).

[Pelo Hilliard Ensemble (Virgin/Erato)]

Lassus

Orlandus Lassus (c.1532-1594) nasceu em Mons, no que é hoje a Bélgica, e foi adoptando diferentes nomes ao longo da sua carreira internacional, o que explica que seja também conhecido como Roland de Lassus e Orlando di Lasso. Em 1556, após ter desempenhado prestigiados cargos em Mântua, Milão, Nápoles e Roma, tornou-se músico da corte dos duques da Baviera, em Munique, assumindo em 1563 o posto de mestre de capela, lugar que manteria até à morte. Pouco depois de ter entrado ao serviço de duque Albrecht V – estima-se que por volta de 1559 – compôs sete Salmos Penitenciais, que nos chegaram através de um sumptuoso manuscrito, profusamente ilustrado pelo pintor da corte, Hans Mielich. Esta música destinava-se ao deleite exclusivo de Albrecht V e só em 1584, após a morte do duque, Lassus fez publicar a obra. Entre estes Salmos Penitenciais, de grande sofisticação composicional e intensa expressividade, está o De Profundis.

[Pelo ensemble Cinquecento, ao vivo em Maastricht, 2015]

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Sweelinck

O holandês Jan Pieterszoon Sweelinck (1562-1621), cuja reputação lhe valeu o epíteto de “Orfeu de Amesterdão”, compôs música em francês para o culto protestante – Psaumes de David, editados entre 1604 e 1621 – e em latim para o culto católico – as Cantiones Sacrae publicadas em Antuérpia em 1619. Entre as segundas está um De Profundis, que se inicia no extremo grave e se ergue num clímax no versículo final, que assegura a Israel que a “benignidade” do Senhor “remirá a Israel todas as suas iniquidades”.

[Pelo ensemble ColVoc, gravação de 1995]

Lully

Jean-Baptiste Lully (1632-1687) foi a figura mais importante do barroco francês, graças ao seu indiscutível talento, à sua desmedida ambição e ao generoso apoio de Luís XIV, que só se esbateu no fim da vida de Lully, quando os rumores sobre a vida dissoluta do compositor suscitaram o desagrado do Rei Sol. Entre as atribuições de Lully como superintendente da música na corte francesa estava a composição de música para os ofícios religiosos a que o rei assistia. O seu Miserere de 1664 definiu o modelo do “Grand Motet”, imponente e requerendo vasto efectivo vocal e instrumental, que pode ser visto como o equivalente francês da cantata dos compositores alemães ou do salmo dos italianos. Um desses Grands Motets é o De Profundis composto em 1683 para as exéquias da rainha Maria Teresa.

[Excerto, pelo Coro de Câmara de Namur, ensemble Millenium e Cappella Mediterranea, com direcção de Leonardo García Alarcón]

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Delalande

Michel Richard Delalande (1657-1726) passou boa parte da carreira ao serviço da corte francesa. A primeira oportunidade surgiu em 1678, num concurso para organista da Chapelle Royale, mas apesar de Delaland ter mostrado aptidões musicais para o posto, foi rejeitado por Luís XIV (1638-1715), que entendeu que ele era jovem demais (tinha 21 anos). Acabaria porém por tornar-se professor de cravo das filhas do rei e em 1683 Luís XIV designou-o como um dos quatro vice-mestres da Capela Real e, perante a pouca competência dos três colegas, acabou, pouco a pouco, por ir assumindo as suas funções. Luís XIV via nele um digno continuador de Lully e conferiu-lhe, a partir de 1689, a responsabilidade pela música de câmara. Só em 1722, com a perda de capacidades, Delalande se viu forçado a renunciar a boa parte das suas obrigações. O domínio em que Delalande mais se distinguiu foi o “Grand Motet”, sendo um dos mais célebres o De Profundis composto em 1689 e revisto em 1720.

[I, VII e IV andamentos, por Gillian Fisher (soprano, andamento IV), Charles Daniels (tenor, andamento VII), Stephen Varcoe (barítono, andamento I) e Choir of the New College Oxford, com direcção de Edward Higginbottom (Erato)]

Bach

Martinho Lutero transpôs o De Profundis para língua alemã como Aus Tiefer Not Schrei Ich Zu Dir, um texto que foi musicado por muitos compositores barrocos. Bach compôs duas cantatas sobre ele, a BWV 38 (1724) e a BWV 131 (c.1707). A BWV 131 é talvez a mais antiga cantata de Bach que chegou aos nosso dias e data do seu período em Mühlhausen, em 1707-8 (do período de Bach em Arnstadt, em 1703-7, não sobreviveram obras sacras). Alguns estudiosos sugerem que a cantata terá sido composta para uma cerimónia em homenagem aos mortos de um incêndio que devastou a cidade a 30 de Maio de 1707.

[A partir de 3’52, I andamento da Cantata BWV 131, precedido por apresentação de Ton Koopman; pelo Coro & Orquestra Barroca de Amesterdão, com direcção de Ton Koopman]

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Zelenka

O que separa os compositores consagrados dos quase desconhecidos? Quantas vezes a popularidade ou o olvido não decorrem de uma conjugação de acasos? O boémio Jan Dismas Zelenka (1679-1745) entrou ao serviço da corte de Dresden em 1710-11, como contrabaixista e compositor e, durante alguns anos desempenhou (embora sem reconhecimento formal) as funções de Kapellmeister, devido à prolongada doença do titular, Johann David Heinichen. Legou-nos substancial obra sacra, entre a qual estão quatro De Profundis. O ZWV 96, em dó menor, composto por volta de 1727, rivaliza com o que de mais inspirado Bach, Handel ou Vivaldi compuseram.

[De Profundis ZWV 96, por Gabriela Eibenová (sorpano), Filipo Mineccia (contratenor), Tobiás Hunger (tenor), marián Krejcik (baixo), Prage Baroque Soloists, com direcção de Adam Viktora, do CD Psalmi Vespertini II (Nibiru)]

Porpora

O hoje muito esquecido Nicola Porpora (1686-1768) foi uma das figuras mais influentes do Barroco, quer como compositor de óperas (foi autor de mais de 60) e música sacra, quer como professor de canto – os castrati Farinelli e Caffarelli foram seus alunos – e de composição – Haydn foi o seu aluno mais famoso. A sua carreira passou por Nápoles, Roma, Dresden, Londres, Veneza e Viena e teve um fim infeliz, pois nos seus últimos anos foi atormentado por problemas de saúde e o seu estilo deixara de estar em voga junto dos apreciadores de ópera. Porpora manteve uma ligação intermitente com Veneza, para cujos Ospedali (conservatórios destinados exclusivamente a raparigas) trabalhou como professor e compositor. Foi para uma dessas instituições, o Ospedale dei Poveri Derelitti (também conhecido como Ospedale ai SS. Giovanni e Paolo ou Ospedaletto) que compôs em 1744 um De Profundis, em que Porpora exibe a escrita vocal floreada e virtuosística que lhe deu fama como compositor de ópera. Claro que Porpora apostou neste registo porque sabia que os Ospedali tinham à sua disposição cantoras à altura dos desafios.

[“Sustinuit Anima Mea”, por Emanuela Galli (soprano) e Dresdner Instrumental-Concert, com direcção de Peter Kopp, do CD Le Grazie Veneziane: Music from the Ospedali (Carus)]

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Pärt

No final dos anos 70 e início dos anos 80, Arvo Pärt (n. 1935) afirmou-se como uma nova voz na música sacra, com obras que rejeitavam a maior parte dos desenvolvimentos surgidos no século XX e combinavam influências medievais e renascentistas, um registo minimal, solene e encantatório, e uma intensa espiritualidade. Uma das composições que ajudou a firmar a reputação de Pärt foi o De Profundis que compôs em 1980, pouco depois de ter abandonado a Estónia natal (então parte da URSS) para viver no Ocidente.

[Pelo Coro de Câmara Filarmónico Estónio e Christopher Bowers-Broadbent (órgão), com direcção de Tonu Kaljuste; gravação realizada sob a supervisão do compositor (Virgin/Erato)]

Pinho Vargas

António Pinho Vargas (n. 1951) já tinha apreciável experiência de composição noutros domínios quando se estreou na música coral em 2002, com a oratória Judas (2002), uma obra de notável poder dramático. O Requiem (2012), o Magnificat (2013), o De Profundis (2014) e o Stabat Mater (2015) confirmaram o invulgar talento de Pinho Vargas neste domínio. A produção de música coral de Pinho Vargas tem decorrido em estreita associação com o Coro Gulbenkian e o maestro Paulo Lourenço, que realizaram a gravação do Requiem e de Judas para a Naxos (surgida em 2014), e do Magnificat e De Profundis para a Warner (em 2017).

[I andamento, pelo Coro Gulbenkian, com direcção de Paulo Lourenço]

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