10 momentos electrizantes ao vivo

A atmosfera carregada de electricidade de um concerto ao vivo permite que ocorram reacções químicas que não podem dar-se quando se ouve música “enlatada”. Eis uma selecção de 10 momentos especiais, com músicos de diversas áreas e gerações
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@Jesse Dylan Tom Waits
Por José Carlos Fernandes |
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A música gravada em estúdio é polida e imaculada. Os músicos podem repetir as takes as vezes que forem precisas, podem recortar e colar cirurgicamente as melhores partes de cada take para construir uma take virtual irrepreensível, podem gastar semanas a burilar pacientemente uma canção de três minutos até a levarem à perfeição. Mas, apesar de todos estes afãs, nem sempre a emoção passa integralmente para o registo final. E é no concerto ao vivo, com todas as inevitáveis imperfeições, que, muitas vezes, a ligação emocional entre quem toca e canta e quem ouve se estabelece em pleno, criando aqueles momentos que deixam toda a plateia com pele de galinha. Os registos vídeo dos concertos ao vivo permitem reviver, ainda que sob forma parcial e atenuada, esses momentos. Aqui ficam 10 que fazem pensar “o que eu teria dado para lá ter estado”.

10 momentos electrizantes ao vivo

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“Cortez the Killer”, por Neil Young & Crazy Horse

“Cortez the Killer” surgiu em 1975 no álbum Zuma e tornou-se numa peça central no repertório de Neil Young. O músico passou por uma fase de discos inconsequentes nos anos 80, mas na viragem das décadas de 80/90 regressou à melhor forma, com os álbuns Freedom e Ragged Glory e a tournée de promoção deste último revelou-o em estado de graça, com versões intensas e eriçadas de electricidade de material recente e antigo, que ficaram imortalizadas no duplo álbum ao vivo Weld (1991, Reprise). Uma dessas canções é “Cortez the Killer”, e os solos de Young nela bastariam, por si só, para justificar a invenção da guitarra eléctrica.

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“Starless”, pelos King Crimson

Os King Crimson, que Robert Fripp (no vídeo abaixo, é o cavalheiro com ar de professor de Literatura Inglesa que toca guitarra sentado, à direita) tem mantido, intermitentemente e com substanciais mudanças de estética e formação, desde 1968, são uma das bandas mais originais e camaleónicas da história do rock. Em 2015, Fripp voltou a activar os King Crimson para uma tournée mundial preenchida essencialmente com repertório do período 1969-74, que há muito não era apresentado ao vivo. Rodeou-se para o efeito de uma superbanda, com dois colaboradores de longa data – Mel Collins (saxofone), e Tony Levin (baixo e stick bass) –, o vocalista e guitarrista Jakko Jakszyk e três-bateristas-três (Pat Mastelotto, Bill Rieflin e Gavin Harrison). A tournée está documentada na caixa Radical Action to Unseat the Hold of Monkey Mind (2016, DGM), que contém DVD + 3 CDs (na edição padrão; há uma edição DeLuxe com 2 DVDs + 6 CDs), maioritariamente gravada em Takamatsu, no Japão, a 19 de Dezembro de 2015. “Starless” é uma das mais belas canções de sempre e provém do álbum Red (1974, Island), o derradeiro da primeira fase da banda. Não só não ganhou uma ruga – as composições dos King Crimson são intemporais – como a nova versão faz empalidecer a (excelente) versão original (e Jakszyk até evoca convincentemente a voz de John Wetton, o vocalista no disco de 1974).

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“Jubilee Street”, por Nick Cave and the Bad Seeds

A versão de estúdio de “Jubilee Street” vem de Push the Sky Away (2013, Bad Seed) e esta versão ao vivo na Sydney Opera House faz parte do documentário 20.000 Days on Earth (2014), de Iain Forsyth & Jane Pollard e inclui brevíssimas interpolações de imagens de actuações ao vivo da carreira de Cave. Embora a letra de “Jubilee Street” tenha assunto bem diverso, é interessante aproximar a parte final, obsessivamente repetida – “I’m transforming, I’m vibrating, I’m glowing/ I’m flying, look at me now” – da metamorfose que ocorre em palco em momentos como este. Também Cave deixa por instantes de ser um mero mortal e vibra, irradia luz e torna-se capaz de voar. Não seria preciso que Cave pedisse “look at me now” – não há forma de não o fazer, tal é o feitiço que lançou sobre nós.

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“16 Shells From a Thirty-Ought-Six”, por Tom Waits

Em 1987, Tom Waits realizou uma tournée mundial com material de Swordfish Trombones (1983), Rain Dogs (1985) e Frank’s Wild Years (1987), os três discos que fizeram a ruptura com a sua carreira anterior e inflectiram pela experimentação, pela desconstrução e recombinação de géneros e por uma teatralidade que misturava film noir, humor negro e bizarrias surreais. A tournée, em que Waits foi acompanhado por uma banda de luxo com músicos da área do jazz (o guitarrista Marc Ribot, o contrabaixista Greg Cohen) e da música clássica (o percussionista Michael Blair), deu origem a um CD e a um DVD que combina registos ao vivo no Warfield Theatre de São Francisco e no Wiltern Theatre de Los Angeles, a que posteriormente foram adicionados breves episódios burlescos que ajudam a ilustrar as mirabolantes histórias congeminadas por Waits. “16 Shells From a Thirty-Ought-Six”, de Swordfish Trombones, é uma das mais alucinadas peças da sua produção.

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“Darshan (The Road to Graceland)”, por David Sylvian & Robert Fripp

Sim, Robert Fripp é reincidente nesta lista, mas não há forma de deixar de fora esta versão ao vivo de “Darshan (The Road to Graceland)”, uma das peças centrais de The First Day (1993, Virgin), o álbum de Fripp com David Sylvian. A versão provém de um concerto em Tóquio a 26 de Outubro de 1993, que foi editado em VHS como The Road to Graceland ’93 Tour (Live in Japan), em 1995. Sylvian e Fripp são acompanhados por um dream team formado por Michael Brook (guitarra) Trey Gunn (stick bass) e Pat Mastelotto (bateria) e os 11 minutos da peça, além de poderem funcionar como masterclass de guitarra (Fripp faz desfilar mais ideias brilhantes durante a canção do que a maioria dos guitarristas produz em toda a carreira), são também uma masterclass em hipnose. “Darshan” é um sonho de que não queremos acordar.

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“Aura”, por The Church

“Aura” é a mesmerizante faixa de abertura de Priest=Aura (1992, Arista), o oitavo álbum dos australianos The Church, uma banda que tem sabido renovar-se sem atraiçoar a sua matriz, ao longo de uma carreira iniciada em 1980. Esta versão provém de um concerto que reproduz na íntegra o álbum Priest=Aura e que teve lugar no Enmore Theatre, em Sydney, a 17 de Dezembro de 2011. O que a voz de Steve Kilbey perdeu em amplitude com o passar dos anos é mais do que compensado pela expressividade acrescida e por uma aura xamânica e sombria: o Steve Kilbey da meia-idade não é um cantor, é um encantador. Os anos deixaram marca em Marty Wilson-Piper (o guitarrista no extremo direito do palco), mas os seus solos estão melhores do que nunca.

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“Past and Language”, pelos Toe

Todos os anos, dezenas de milhões de pessoas acorrem a estádios e festivais de Verão para serem sovados por uma massa sonora ribombante, confusa e abrutalhada e verem os seus ídolos em ecrãs gigantes enquanto no palco distante se agitam umas figurinhas minúsculas que, para todos os efeitos, bem poderiam ser os roadies da banda. OK, é o showbiz e não haveria outra forma de fazer circular pelo mundo estrelas rock com cachets astronómicos. Mas a verdadeira empatia entre artista e público requer escala mais humana e atmosfera mais intimista e é isso que o quarteto de math rock japonês Toe logra em concertos como o que é documentado no DVD RGB (2006), de onde provém esta versão de “Past and Language”, surgida originalmente no álbum The Book About My Idle Plot on a Vague Anxiety (2005, Macchu Picchu). Os benefícios são óbvios: os músicos deixam de ser semi-deuses sobranceiros e remotos, a electricidade flui livremente entre quem toca e quem ouve. Num mundo ideal, todos os concertos deveriam ser assim, com o público aninhado junto dos amplificadores das guitarras.

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“Neighborhood #1 (Tunnels)”, pelos Arcade Fire

Funeral, o álbum de estreia dos canadianos Arcade Fire saiu em 2004, mas passou despercebido em Portugal até à banda ter arrebatado o festival de Paredes de Coura de 2005 com uma actuação memorável. Os discos de estúdio dos Arcade Fire (os três primeiros, pelo menos) são estupendos, mas não dão ideia da energia que eles são capazes de gerar ao vivo. Pode obter-se um vislumbre do poder da banda através do registo, com realização do ex-Monty Python Terry Gilliam, de um épico concerto ao vivo no Madison Square Garden, em Nova Iorque, a 5 de Agosto de 2010. Quem fique enfeitiçado por esta versão de “Neighborhood #1 (Tunnels)”, uma das canções de Funeral, pode ver o concerto completo aqui.

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“Bloodbuzz Ohio”, por The National

“Bloodbuzz Ohio” é uma das grandes canções de High Violet (2010, 4AD), o quinto álbum dos The National, e poderia crer-se que não seria possível conferir-lhe mais ímpeto e inexorabilidade, mas é isso que acontece na versão do concerto de 15 de Maio de 2010, na Brooklyn Academy, em Nova Iorque. Com os metais a atirar carvão para a fornalha, a banda a puxar a tensão ao limite e Matt Berninger a salmodiar com a gravitas de um profeta apocalíptico, “Bloodbuzz Ohio” é uma locomotiva a correr para um precipício. Quando se detém e percebemos que escapámos sem um arranhão, até conseguimos ouvir o zumbido do sangue a correr-nos pelas veias.

[a canção começa aos 2’12; antes podem ver-se os bastidores a rodagem de uma das cenas do videoclip de Bloodbuzz Ohio” e Matt Berninger aproveita para tecer considerações sobre as letras das canções pop]

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“Hybrid”, pelos Lego Big Morl

Os Lego Big Morl nasceram em 2006, em Osaka, Japão, e lançaram o seu quinto álbum no início de 2017. A sua sonoridade tem vindo a deixar a ganhar sofisticação, um groove dançável e um sopro épico afim dos U2. As canções são sólidas e possuem sentido dramático, a voz de Takehiro Kanata é expressiva, as malhas de Hiroki Tanaka (o guitarrista da trunfa loura, no vídeo abaixo) nada ficam a dever às de The Edge, Shintaro Yamamoto (baixo) e Hiro Asakawa (bateria) são um poderoso gerador de ritmos contagiosos e enérgicos e a banda exibe em palco uma intensidade que faz parecer asténicos os U2 quando eram rapazes com sangue na guelra (por alturas de Live at Red Rocks, já lá vão 34 anos). Mas como o talento nem sempre é devidamente reconhecido, os Lego Big Morl ficam-se por um êxito modesto no seu país e são quase desconhecidos fora de fronteiras. “Hybrid”, uma faixa de New World (2014, A-Sketch), o quarto álbum, tem esta versão incendiária no DVD You+Our: New World, que documenta a tournée de 2014.

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