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Dez peças clássicas associadas a filmes famosos

Se sempre quis saber os nomes daquelas músicas clássicas fantásticas que passam nos filmes, então não vai querer perder esta lista

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A maioria dos filmes não é capaz de dispensar da música e algumas obras de compositores clássicos, umas já célebres, outras obscuras, têm sido chamadas a complementar as imagens, acabando, por vezes, por ficar associadas para sempre às películas.

10 peças clássicas associadas a filmes famosos

Concerto para piano n.º 2 (1901), de Rachmaninov

Filme: O Pecado Mora ao Lado (1955), de Billy Wilder

Este é um caso especial, pois a música não se limita a fazer parte da banda sonora, nem sequer se limita a ser “diegética”, um palavrão que significa que emana de uma fonte intrínseca ao ambiente do filme e que as personagens estão também a ouvi-la, ao contrário da maioria dos casos, em que apenas o espectador pode ouvir a música. Em O Pecado Mora ao Lado (The Seven Year Itch), o Concerto para piano n.º 2 de Sergei Rachmaninov está imbricado na própria intriga. Richard Sherman (Tom Ewell) é um publicitário em crise de meia-idade e possui uma imaginação que costuma tomar o freio nos dentes. A partida da mulher e do filho para férias deixou-o só no seu apartamento em Nova Iorque e descobre que uma loura deslumbrante e de uma ingenuidade desarmante (Marilyn Monroe) acabou de mudar-se para o andar de cima (não do lado). A imaginação febril de Sherman constrói, num ápice, a fantasia de que a vizinha de cima é uma femme fatale e que a sua interpretação do dito concerto (que é tido como um paradigma do arrebatamento romântico) a deixa completamente inebriada (depois perceber-se-á que os gostos musicais da vizinha são bem mais prosaicos). É, graças ao overacting ostensivamente afectado de Ewell e Monroe, um dos momentos mais hilariantes de um dos filmes mais geniais de sempre.

Adagietto da Sinfonia n.º 5 (1902), de Mahler

Filme: Morte em Veneza (1971), de Lucchino Visconti

Na novela de 1912 de Thomas Mann que serviu de base ao argumento, a personagem de Gustav von Aschenbach (Dirk Bogarde) é um escritor, mas é apropriado, atendendo ao papel que a banda sonora desempenha no filme, que Visconti o tenha convertido num compositor. O intenso fascínio – que nunca passa do plano platónico – de Aschenbach por um rapaz polaco, Tadzio (Björn Andrésen), que está hospedado no mesmo hotel no Lido, em Veneza, é veiculado através do letargicamente voluptuoso Adagietto da Sinfonia n.º 5 de Gustav Mahler. O Adagietto terá sido concebido por Mahler como um poema de amor, tendo por musa e destinatária a sua esposa, Alma Mahler. Diga-se de passagem que o Rondo-Finale que se segue soa estridente e vulgar após a beleza etérea e a suspensão do tempo do Adagietto. No início da década de 1970, a música de Mahler ainda não gozava de grande popularidade e o filme de Visconti (que também emprega excertos da Sinfonia n.º 3) contribuiu decisivamente para dar a conhecê-la.

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Concerto para piano n.º 21 (1785), de Mozart

Filme: Elvira Madigan (1967), de Bo Widerberg

Hoje já poucos se lembram de Elvira Madigan, mas o filme gozou de suficiente voga na época para que o seu nome se colasse ao Concerto para piano n.º 21 de Mozart, cujo II andamento, na interpretação de Geza Anda e da Camerata Academica do Mozarteum de Salzburg, surge por várias vezes na banda sonora. O filme trata do amor trágico entre Hedvig Jensen (Pia Degermark), uma acrobata que usa o nome artístico de Elvira Madigan, e Sixten Spare (Thommy Berggren), um tenente de uma família aristocrática. Elvira deixa o circo do padrasto e foge com Sixten, que abandona mulher e filhos, mas os dois amantes acabam por não conseguir resistir à perseguição que a sociedade lhes move.

A Cavalgada das Valquírias, da ópera A Valquíria (1870), de Wagner

Filme: Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola

O que faz uma ópera inspirada na mitologia nórdica, envolvendo deuses, dragões, gigantes, nibelungos, valquírias, heróis, anéis mágicos e maldições, na Guerra do Vietnam, circa 1969? Acontece que o tenente-coronel Bill Kilgore (Robert Duvall) não é um vulgar oficial de cavalaria e, além de apreciar o cheiro do napalm logo pela manhã, é um entusiasta de Wagner (e de surf), pelo que equipou os helicópteros da sua unidade com altifalantes que espalham pelos ares “A cavalgada das valquírias” (em versão instrumental – o original tem as vozes de oito valquírias, que se juntam no grito de combate “Ho-jo-to-ho!”) enquanto as metralhadoras, os canhões e os rockets dos helicópteros semeiam a destruição entre os vietcongs. Explica Kilgore: “Usamos Wagner. Os meus rapazes adoram. E faz os vietcongs borrarem-se de medo”. Na mitologia nórdica as valquírias tinham por missão escolher quem, numa batalha, morre ou vive e levar os corpos dos caídos para o Valhalla.

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Adagio para cordas (1936), de Barber

Filme: Platoon (1986), de Oliver Stone

O Adagio para cordas não só é a mais célebre peça de Barber como é mais ouvida do que toda a sua restante obra junta. A composição nasceu como II andamento do Quarteto de cordas op. 11, mas ganhou vida autónoma na versão orquestral e tem sido usada no cinema e televisão de cada vez que é preciso insuflar pathos numa cena. O Adagio é melhor na versão original para quarteto, pois o arranjo orquestral limita-se a ser pesado e enfático. Oliver Stone, que é um realizador talentoso mas nada subtil, escolheu-o para sublinhar a traço grosso a cena da morte do sargento Gordon Elias (Willem Dafoe), durante a Guerra do Vietnam, já de si excessivamente teatral e enfática, de forma que o resultado é menos pathos do que náusea. Mas muitas pessoas descobriram o Adagio de Barber graças a Platoon.

Vltava (1874), de Má Vlast, de Smetana

Filme: A Árvore da Vida (2011), de Terrence Malick

“Vltava” é o nome que os checos dão ao rio que os alemães conhecem como Moldau (e em português costuma ser designado por Moldava). É o “rio nacional” dos checos e é natural que o compositor Bedrich Smetana, um dos expoentes do nacionalismo checo, o tenha elegido como um dos assuntos do poema sinfónico Má Vlast (A Minha Pátria), composto entre 1874 e 1879. Vltava pretende descrever em música o curso do rio, desde a nascente até que desagua no Rio Elba, mas como a música instrumental tem uma qualidade abstracta, Terrence Malick escolheu-o para algo completamente diferente: transmitir a vibrante alegria de viver de três rapazinhos cheios de energia que crescem numa cidade americana, nos anos 50. A Árvore da Vida é um filme desequilibradíssimo, mas este trecho impulsionado pela rotação vertiginosa da música de Smetana é um dos seus bons momentos.

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Requiem (1965), de Ligeti

Filme: 2001– Uma Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick

A banda sonora de 2001– Uma Odisseia no Espaço recorre a duas peças clássicas famosas – a abertura do poema sinfónico Assim falava Zaratustra (Also sprach Zarathustra), de Richard Strauss, e a valsa O Danúbio azul (An der schönen blauen Donau), de Johann Strauss – mas a peça mais marcante do filme é o Requiem de György Ligeti, cujo Kyrie se ouve de cada uma das três vezes em que surge um monolito negro, aparições que desempenham papel crucial no desenrolar da intriga e estão associadas a saltos na evolução humana. A aparição dos monolitos está envolta numa aura de mistério e terror perante o desconhecido e nada melhor para a intensificar do que a arrepiante e alienígena música do Requiem de Ligeti.

Allegretto da Sinfonia n.º 7 (1812), de Beethoven

Filme: Irréversible (2002), de Gaspar Noé

Uma vez que as 13 cenas de Irréversible estão montadas por ordem cronológica inversa, a que está no link abaixo, sendo a que encerra o filme, é a primeira. Quando a sinfonia estreou em Viena em 1813, foi muito bem acolhida e o público exigiu que o Allegretto, o II andamento, fosse repetido. O andamento tem uma qualidade hipnótica, com o seu ritmo constante e as melodias a serem passadas de uns instrumentos para os outros, criando uma sensação de progressão inexorável muito adequado a um filme sobre a passagem do tempo. Irréversible é seriamente prejudicado pela obsessão de Noé por sordidez e violência gratuita e crua, a raiar o repugnante, mas também é uma obra conceptualmente ousada e de assombroso virtuosismo técnico.

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Sinfonia n.º 9 (1824), de Beethoven

Filme: Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick

Irréversible não foi o primeiro filme ultra-violento em que a música de Beethoven desempenha o papel central: antes houve Laranja Mecânica (A Clockwork Orange), adaptado do romance homónimo de Anthony Burgess. Alex DeLarge (Malcolm McDowell) é um jovem sociopata cujos interesses se repartem pela música de Beethoven e pela violência, física e sexual, mais brutal e gratuita que possa imaginar-se. A carreira de delinquente de Alex acaba com a sua condenação a 14 anos de prisão, pena durante a qual é submetido a uma inovadora técnica de reabilitação de criminosos através de condicionamento psicológico: é forçado a ver cenas de violência ao som do seu amado Beethoven, o que faz com que passe a detestar a sua música.

Ária 'Erbarme dich' da Paixão segundo S. Mateus (1727), de Bach

Filme: O Sacrifício (1986), de Andrei Tarkovsky

O Sacrifício foi o derradeiro filme de Andrei Tarkovsky e centra-se em Alexander, um homem atormentado pelo rumo que o mundo leva e dominado pelo receio de um holocausto nuclear iminente. Como usual nos filmes de Tarkovsky, o recurso a música é esparso, mas quando surge tem um impacto emocional esmagador. Bach é compositor recorrente nos filmes de Tarkovsky e para a cena final de O Sacrifício, em que o filho de Alexander rega uma árvore morta plantada pelo pai, escolheu 'Erbarme dich, mein Gott' ('Tende piedade de mim, meu Deus'), da Paixão segundo S. Mateus, uma ária que funciona como comentário ao arrependimento que toma conta de Pedro quando compreende que traiu Cristo, negando-o três vezes antes de o galo cantar, como aquele vaticinara. É um dos momentos mais pungentes da história da música – e também da história do cinema.

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