Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right 13 mutações surpreendentes de êxitos do metal

13 mutações surpreendentes de êxitos do metal

Cantores de casino e orquestras de câmara viram pelo avesso conhecidas canções de bandas metálicas.

Por José Carlos Fernandes |
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Metallica

O metal viveu durante muito tempo como um género hermético e codificado, sobre o qual pairava mesmo uma aura de interdição, mas há cada vez mais músicos a apropriarem-se das suas canções e levá-las para lugares inesperados.

Uma das primeiras incursões neste terreno teve lugar em 1997, quando Pat Boone, um veterano do show biz, então com 63 anos de idade e 43 anos de carreira, saiu do seu território de canções melosas para lançar um álbum inteiramente preenchido por êxitos do metal. É difícil apurar se o insólito disco de Boone foi animado pelo espírito da zombaria ou se foi uma tentativa para salvar uma carreira em acentuado declínio, tirando partido do sucesso comercial que as bandas de sonoridade pesada e agressiva conheceram em meados da década de 1990. Mas desde então, têm-se multiplicado as propostas para reciclar o metal em algo de completamente diferente.

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13 mutações surpreendentes de êxitos do metal

“Enter Sandman”, dos Metallica, por Pat Boone

No início do verão de 1991, os Metallica não eram propriamente desconhecidos – tinham lançado quatro álbuns e o terceiro, Master of Puppets (1986), tornara-se num dos mais influentes (e imitados) álbuns de metal de sempre – mas o single “Enter Sandman”, que se pauta por um som menos complexo e mais acessível, vendeu um milhão de exemplares só nos EUA, e o álbum Metallica, de onde foi extraído, chegou aos 30 milhões de exemplares, fazendo a banda extravasar o círculo restrito da comunidade metálica e projectando-a para o estrelato global.

Embora seja frequentemente traduzido como “João Pestana”, a figura de Sandman faz parte do imaginário popular a Europa Setentrional: é uma criatura que, ao polvilhar os olhos das crianças, à noite, faz chegar o sono e os sonhos. A sua natureza é usualmente vista como benigna, mas por vezes – é o caso de um conto de E.T.A. Hoffmann – também lhe é conferida uma aura sinistra. Inevitavelmente, o Sandman dos Metallica não tem nada de amável e evoca um mundo de terrores nocturnos e monstros ocultos nas sombras (tudo ao nível do teatrinho infantil, claro, que o grupo não é dado a elucubrações profundas).

[versão original]

Pat Boone tinha feito furor na década de 1950 como cantor de rhythm’n’blues, só sendo superado em popularidade por Elvis Presley, e ainda é o detentor do recorde de 220 semanas consecutivas com uma ou mais canções no top de vendas da Billboard. As suas convicções cristãs e conservadoras fizeram-no enveredar na década de 1960 pelo gospel – através do grupo The Pat Boone Family – e, depois, pelo country e a sua popularidade foi desvanecendo-se progressivamente. Era já uma figura do passado quando em 1997 lançou um álbum com um título que é todo um programa – In a Metal Mood: No More Mr. Nice Guy – preenchido com versões de clássicos do metal. Não só o género estava nos antípodas dos antecedentes musicais de Boone, como cantar canções de bandas associadas ao satanismo era uma reviravolta surpreendente numa figura que sempre fora associada a posições cristãs conservadoras e declinara canções ou papéis em filmes que não fossem compatíveis com a sua fé.

[“Enter Sandman” por Pat Boone]

A abordagem jazzística, exuberante e jovial, de Boone faz dissipar instantaneamente as sombras da versão original, enchendo tudo de luz e optimismo. Ficará ao critério de cada um decidir se Boone não percebeu o que estava a fazer ou se possui um refinado sentido de ironia.

“Enter Sandman”, dos Metallica, por Youn Sun Nah

Sendo o terror da versão original de “Enter Sandman” do nível casa dos sustos de parque de diversões, coube à cantora coreana Youn Sun Nah envolver a canção em sombras verdadeiramente inquietantes. A versão está incluída no sétimo álbum de Youn Sun Nah, Same Girl (2010), onde convivem, sem atrito, jazz standards, Randy Newman, Sérgio Mendes, música tradicional coreana e composições originais de Youn Sun Nah.

[versão ao vivo por Youn Sun Nah e Ulf Wakenius (guitarra)]

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“Killing in the Name”, dos Rage Against The Machine, pelos Three Fall

“Killing in the Name”, lançado em Novembro de 1992, foi o primeiro single do álbum de estreia, homónimo, do grupo de rap metal Rage Against The Machine, é talvez o mais popular tema da banda, apesar de esse disco conter pontos tão fortes como “Bullet in the Head” ou “Bombtrack”.

[Versão original]

O trio de jazz alemão Three Fall, formado por Lutz Streun (saxofone e clarinete baixo), Til Schneider (trombone) e Sebastian Winne (bateria) já tinha consagrado na íntegra o seu segundo álbum – On a Walkabout (2011) – a Red Hot Chili Peppers, pelo que não surpreende a aparição no terceiro, Realize! (2013), de “Killing in the Name” (bem como de temas de Nirvana e Coldplay).

[versão ao vivo dos Three Fall]

“Killing in the Name”, dos Rage Against The Machine, pela Metamorphestra

A Metamorphestra, fundada em 2016 pelo maestro e arranjador Nick Proch, é, como o nome sugere, uma orquestra especializada em operar metamorfoses. O carácter musculado, anguloso e vociferante de “Killing in the Name” está nos antípodas das sonoridades que associamos a uma orquestra clássica, mas são esses os desafios que mais valem a pena. A Metamorphestra editou recentemente o seu primeiro álbum, The Ship of Theseus, com versões de System of a Down, Muse, Lady Gaga, The Mars Volta, Weezer e Florence & The Machine.

[versão da Metamorphestra]

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“Bulls on Parade”, dos Rage Against The Machine, pela Metamorphestra

O segundo álbum dos Rage Against The Machine, Evil Empire (1996) manteve o ímpeto avassalador e o feroz discurso anti-sistema do disco de estreia (eis uma banda que nenhum presidente americano convidaria para abrilhantar a sua cerimónia de tomada de posse) e o seu tema mais popular foi “Bulls on Parade”, que também viria a ser apropriado pela Metamorphestra.

[versão original]

[versão da Metamorphestra]

“B.Y.O.B”, dos System of a Down, pelos Break of Reality

Quando no convite para uma festa se especifica “B.Y.O.B.” isso significa que o convidado deverá trazer a sua própria bebida (Bring Your Own Booze). O grupo de metal arménio-americano System of a Down subverteu esta expressão, fazendo-a significar “Bring Your Own Bombs”, para exprimir desaprovação pela Guerra do Iraque, então em curso. Os System of a Down venderam até agora 40 milhões de discos, mas “B.Y.O.B.”, extraído do seu quarto álbum, Mesmerize (2005), foi o único single da banda a entrar no top 40 e o seu maior êxito de sempre.

[versão original]

A maioria da discografia dos Break of Reality, um quarteto formado por três violoncelos (Patrick Laird, Laura Metcalf e Adrian Daurov) e percussão (Ivan Trevino), consiste em material original, mas o seu quarto álbum, Covers, de 2012, é preenchido com versões, que vão de Bach e Villa-Lobos à pop de José González e Radiohead, passando pelo prog metal dos Karnivool e dos Tool e por “B.Y.O.B” dos System of a Down.

[versão pelos Break of Reality]

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“Nothing Else Matters”, dos Metallica, pelo Brooklyn Duo

“Nothing Else Matters” foi outro dos singles de sucesso do álbum Metallica (1991) e continua a ser, com “Enter Sandman” (ver acima), uma das mais populares canções da banda.

[versão original]

É uma daquelas azeiteiras baladas metálicas na linha de “Stairway to Heaven” e ganha bastante em ser transposta para violoncelo e piano pelo Brooklyn Duo. O casal Patrick Laird (que é também membro dos Break of Reality) e Marnie Laird não ganhou grande projecção com o repertório clássico, mas uma versão colocada no YouTube de “Empire”, de Shakira, catapultou-os para a fama e para uma nova carreira, em que fazem versões de Fall Out Boy e Taylor Swift.

[versão pelo Brooklyn Duo]

“Hurt”, dos Nine Inch Nails, por Johnny Cash

Os Nine Inch Nails (isto é, Trent Reznor) não são, se quisermos ser taxonomicamente rigorosos, “metálicos”, sendo usualmente classificados no rock industrial, mas a agressividade, a aspereza e o imaginário soturno da sua música fazem deles parentes próximos do metal. E se o álbum de estreia, Pretty Hate Machine (1989) soa como pop electrónica pós-industrial, o segundo, The Downward Spiral (1994), junta-lhe alguns elementos de metal. O disco, de atmosfera uniformemente densa, atormentada e opressiva, encerra com “Hurt”, que traz algum desanuviamento em termos sonoros, ainda que a letra não deixe qualquer margem para esperanças: é a visão de quem se volta para trás para deitar contas à vida e vê uma paisagem devastada.

[versão original]

Pode parecer inesperado que, em 2002, Johnny Cash, um músico de outra geração e com background musical completamente alheio ao universo dos Nine Inch Nails, tenha incluído uma versão de “Hurt” no seu álbum American Recordings IV: The Man Comes Around, mas quando se ouve o resultado percebe-se que Cash viu espelhada na canção as suas dolorosas experiências pessoais. Quando ouviu a versão de Cash, Trent Reznor reconheceu que se sentiu como “se outro tivesse ficado com a sua namorada, pois a canção deixou de ser minha”.

[versão de Johnny Cash]

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“Hurt”, dos Nine Inch Nails, por Youn Sun Nah

Reznor seria espoliado uma segunda vez de “Hurt” quando a inclassificável cantora coreana Youn Sun Nah incluiu uma versão da canção no seu oitavo álbum, Lento (2013): sem o histrionismo de Reznor e reduzindo o acompanhamento a uma guitarra, a voz clara e perfeitamente articulada de Youn Sun Nah dá às palavras de Reznor uma expressividade inaudita.

[versão ao vivo por Youn Sun Nah e Ulf Wakenius (guitarra), no Festival de Jazz de Montréal 2013]

“Lateralus”, dos Tool, por um ensemble de koto

“Lateralus” faz parte do álbum homónimo de 2002 (o terceiro) da banda de prog metal Tool e marca uma evolução em direcção a uma maior complexidade e uma aproximação ao rock progressivo – não foi por acaso que durante a promoção de Lateralus fizeram uma tournée com os King Crimson, pioneiros do prog rock.

[versão original]

Brett Larner, um americano que foi para o Japão estudar koto, instrumento tradicional japonês de 13 cordas, que são beliscadas por plectros, adaptou, em 2009, a canção para um ensemble de oito kotos.

[versão para ensemble de kotos]

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“Schism”, dos Tool, pela Metamorphestra

A elaboração que a música dos Tool começou a evidenciar por alturas do álbum Lateralus está mesmo a pedir arranjos orquestrais e foi isso que a Metamorphestra fez com a faixa “Schism”.

[versão original]

[versão da Metamorphestra]

“Payback”, dos Slayer, por Sarah Longfield

Os Slayer são, há mis de três décadas, uma das figurantes dominantes do thrash metal. A banda nasceu em 1981, ascendeu à fama com Reign of Blood (1986) e vendeu quase 5 milhões de álbuns entre 1991 e 2013, só nos EUA. “Payback” faz parte de God Hates Us All (2001) e tem a subtileza de um rolo compressor e o charme de uma mofeta atropelada por um camião, “qualidades” que marcam toda a produção da banda (a estes thrashers não os apanharão a fazer baladas xaorposas como “Nothing Else Matters”).

[versão ao vivo pelos Slayer, em Hultsfred, em 2002]

“Payback” ganhou, portanto, imenso ao ser adaptada a cavaquinho por Sarah Longfield, líder da banda de progressive metal The Fine Constant.

[versão de Sarah Longfield, em cavaquinho]

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“Crazy Train”, de Ozzy Osbourne, por Pat Boone

“Crazy Train” foi o single de apresentação de Blizzard of Ozz (1980), o primeiro álbum a solo de Ozzy Osbourne, vocalista dos Black Sabbath e pai fundador do heavy metal, visto como uma espécie de Anticristo rock e uma influência negativa nos jovens por, entre muitos outros actos e palavras pouco cristãos, ter repetidamente proclamado que a sua música era feita para glorificar Satanás.

[versão ao vivo, por Ozzy Osbourne, a 12 de Junho de 1982, no Irvine Meadows Amphiteatre, na Califórnia, concerto de onde seria extraído o material para o álbum Speak of the Devil (que, sendo constituído exclusivamente por canções dos Black Sabbath, não inclui “Crazy Train”)]

Todavia, o cristianíssimo Pat Boone não teve pruridos em incluir o clássico “Crazy Train” no seu álbum In a Metal Mood: No More Mr. Nice Guy (1997). Afinal de contas, Ozzy e Pat foram, durante algum tempo, vizinhos em Beverly Hills e está por apurar o que é mais grotesco, postiço e ridículo: o acetinado e algo senil metal de casino de Boone ou o histriónico e pueril circo rock de Osbourne.

[versão de Pat Boone]

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