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As músicas favoritas dos grandes líderes mundiais

Os gostos musicais de um líder político não dizem muito sobre a sua ideologia e capacidades, nem permitem prever a sua actuação – a não ser que demos crédito a Woody Allen quando diz que sempre que ouve Wagner sente vontade de invadir a Polónia

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As preferências musicais dos líderes políticos poderiam revelar, se fossem sinceras, o seu lado mais íntimo e humano. Porém, nada nos garante que os políticos, que tantas vezes mentem ou se ficam pela meia-verdade sobre assuntos sérios, de importância capital e de interesse nacional, não falseiem as suas inclinações mais íntimas e subjectivas. Muitos são os factores que podem convidar à distorção: uns pretendem mostrar-se mais cultos e sofisticados do que realmente são e afectam conhecimentos e familiaridades que não possuem (ficaram famosos os “concertos para violino de Chopin” de um certo secretário de Estado da Cultura); pelo contrário, outros, receando intimidar o cidadão comum ao denunciar um gosto demasiado “intelectual”, fingirão ser adeptos de artistas populares; muitos privilegiarão os artistas nacionais, como se isso revelasse um mais firme empenhamento no serviço da nação; outros cingirão as escolhas a artistas no mesmo comprimento de onda ideológico; outros delegarão a elaboração da playlist oficial a uma equipa de assessores e consultores de imagem, que farão a selecção regendo-se por sondagens e estudos de opinião, de forma a projectar uma imagem pública do líder tão consensual e abrangente quanto possível, de modo a não alienar potenciais eleitores; e quase todos simularão uma paixão pela música muito mais intensa do que a real.

É com estas reservas em mente que deveremos tomar as listas de músicas favoritas que, de vez em quando, surgem na imprensa.

As músicas favoritas dos grandes líderes mundiais

Theresa May, primeira-ministra do Reino Unido

A lista de favoritos revelada por May inclui “Walk Like a Man”, de Frankie Valli & The Four Seasons, “Dancing Queen”, dos ABBA; a ária da Rainha da Noite de A Flauta Mágica, de Mozart; o Rondo da música de cena de Purcell para a peça Abdelazer; e o Concerto para violoncelo de Elgar.

Se fosse Margaret Thatcher a escolher “Walk Like a Man”, de Frankie Valli & The Four Seasons, seria compreensível. Mas enquanto Thatcher nasceu em 1925, Theresa May nasceu em 1956, pelo que tinha sete anos quando esta melosa cançoneta andou pelos tops. Talvez a escolha revele saudades pelo ano de 1963, quando a Grã-Bretanha era homogeneamente branca, ainda estavam por chegar os condutores de autocarros paquistaneses, as upper classes podiam fazer caçadas à raposa sem serem importunadas, as relações homossexuais entre consenting adults eram crime, os jardins das moradias de tijolo estavam esmeradamente cuidados, as televisões não passavam filmes indecorosos e tudo era medido em jardas, furlongs e hundredweights (mas, desgraçadamente, já tinha sido levantada, três anos antes, a interdição à publicação de O Amante de Lady Chatterley, sinal ominoso da dissolução dos costumes que aí vinha). 


[“Walk Like a Man”, de Frankie Valli & The Four Seasons] 

As referências à tradição erudita britânica – Purcell e Elgar – soam a vénia patriótica, e quanto à ária da Rainha da Noite, espera-se que não seja o modelo a nortear o Brexit, senão este será não só hard como não se fará sem gerar hard feelings do lado de quem fica e de quem sai da UE. 


[“Der Hölle Rache”, a célebre ária da Rainha da Noite, de A Flauta Mágica. Diana Damrau é a Rainha da Noite nesta versão de 2003 com a Orquestra da Royal Opera House de Londres dirigida por Colin Davis; encenação de David McVicar]

François Hollande, presidente de França

A playlist de Hollande apurada por L’Express em 2012 incluía canções de Jean-Louis Aubert, Leo Ferré, Alex Beaupain, Zaz, Yannick Noah, Adele e Olivia Ruiz. Que não se tirem ilações sobre o funcionamento do eixo Paris-Berlim a partir da presença na playlist de François Hollande de “Angela”, do ex-tenista Yannick Noah: esta Angela não é Merkel mas sim Davis, a activista do Partido Comunista Americano, que se distinguiu na luta dos afro-americanos pelos Direitos Civis, na década de 1960, e que manteve relações próximas com os Black Panther. Independentemente da simpatia ou antipatia que possa sentir-se por Angela Davis, a canção é uma confirmação de que as vedetas do desporto devem consagrar a sua reforma a promover o desporto juvenil e causas humanitárias e, em caso algum, deverão abraçar carreiras musicais. 


[“Angela”, de Yannick Noah]

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Angela Merkel, chanceler da Alemanha

Merkel revelou que em adolescente era fã dos Beatles e dos Rolling Stones, que ouvia nas rádios ocidentais e que aproveitou a primeira visita a Moscovo para comprar o álbum Yellow Submarine (não é uma grande escolha, mas imagina-se que a oferta de discos de Beatles em Moscovo nos anos 70 não fosse muito vasta). “Angie”, dos Stones, serviu para sonorizar a saída de palco de Merkel em comícios da campanha eleitoral de 2005, mas a banda protestou e a música deixou de ser usada. Resta saber se a escolha se deveu à menção do nome próprio da chanceler ou a afecto especial pela canção.

Seja como for, Merkel declara que é , como o marido, “apreciadora de música clássica, especialmente ópera” e, com efeito, não tem falhado uma edição do Festival de Bayreuth, que, como é sabido, é integralmente dedicado a Wagner. Não há, até agora, indícios de que tal constitua motivo para perturbar o sono dos polacos. 


[“A Cavalgada das Valquírias”, de A Valquíria, de Wagner, na versão registada em 1991-92, na Festspielhaus de Bayreuth, com direcção de Daniel Barenboim e encenação de Harry Kupfer]

Kim Jong-un, líder supremo da Coreia do Norte

A banda favorita são as Moranbong e era uma escolha inevitável, pois os elementos, todos femininos, da banda Moranbong foram seleccionados pelo próprio Kim Jong-un. Por mais que sejam doutrinados, os jovens de todo o mundo aspiram a algo mais do que arrebatados hinos patrióticos e sisudas marchas militares, pelo que o Líder Supremo decidiu corresponder ao natural anseio por música pop da juventude norte-coreana providenciando não o acesso às decadentes bandas do mundo capitalista, mas a um produto conforme aos preceitos da juche – a ideologia/filosofia de estado da Coreia do Norte. Ninguém esperaria que, num país em que o Estado se ocupa dos mais ínfimos detalhes da vida dos cidadãos, se pudesse deixar a música pop ao sabor do acaso, da iniciativa e talento dos músicos, da diligência dos empresários e da escolha popular.

As Moranbong têm sobre qualquer outra banda do mundo, uma vantagem única: nunca receberão uma crítica menos favorável, pois a imprensa e, logo, a crítica musical, também estão sob estrito controlo do regime. 


[“O Meu País é o Melhor!”, cantam as Moranbong – e alguém duvida?]

O recurso a violinos e violoncelos levou a que a se empregasse o adjectivo “sinfónico” em relação à música das Moranbong – bem, digamos que é “sinfónico” no sentido em que o Festival da Eurovisão entende tal palavra.

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Joko Widodo, presidente da Indonésia

Atendendo ao apetite de Kim Jong-un por brinquedos nucleares, e presumindo que os gostos musicais deixam antever os recantos íntimos de uma personalidade, o mundo pode dormir mais descansado se Kim Jong-un tiver as Moranbong como ideal musical do que se partilhar o gosto musical de Joko Widodo, que é fã de Led Zeppelin, Judas Priest, Deep Purple, Iron Maiden, Metallica, Megadeth e até de bandas tão radicais quanto Napalm Death, Morbid Angel e Lamb of God


[“When All Is Said and Done”, dos Napalm Death]

Ao contrário de outros líderes cujos gostos musicais parecem ser vagos, frouxos e circunstanciais, Widodo parece ter genuíno interesse por metal, que ouve desde os 14 anos. Quando era governador de Jakarta, chegou a ser fotografado com um baixo eléctrico autografado que lhe terá sido oferecido por Robert Trujillo, dos Metallica, mas o instrumento acabou por ser confiscado por uma comissão de luta anticorrupção, por, alegadamente, ter sido aproveitado por um promotor de concertos de Jakarta para fazer uma proposta de suborno a Widodo. De qualquer modo, na Indonésia os funcionários da administração pública e do governo estão proibidos de aceitar ofertas que ultrapassem o valor de 300.000 rupias indonésias (cerca de 21 euros).


[“Ruin”, dos Lamb of God]

Vladimir Putin, presidente da Federação Russa

Putin tem sido evasivo quanto às suas preferências musicais, respondendo quase sempre com um vago “gosto de música russa”, mas sabe-se que a sua banda favorita são os Lyube, que existem desde 1989 e já editaram 16 álbuns e cujo frontman é Nikolay Rostarguyev. As canções dos Lyube têm raízes no folclore russo e elegem temas patrióticos e militares, mas na vertente sentimental, não na bélica. Não são uma fabricação do regime, como as Moranbong, mas têm a sua aprovação – em 2001 foram os Lyube os escolhidos para actuar nas comemorações do Dia da Vitória, na Praça Vermelha, e nesse mesmo dia Rostarguyev foi nomeado conselheiro cultural do governo russo; em 2007, Putin condecorou-o com a Ordem de Serviço da Mãe-Pátria e em 2010 foi nomeado para um lugar na câmara baixa do parlamento russo.



[“Ty Nesi Menja Reka”, uma canção de 2002 dos Lyube]

A ouvidos ocidentais soa como o tipo de banda capaz de levar às lágrimas toda uma casa de repouso para veteranos de guerra do Afeganistão e de ser o ponto alto do equivalente russo do Natal dos Hospitais; mas é possível que meia garrafa de vodka torne a apreciação dos Lyube menos severa.

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Donald Trump, presidente dos EUA

Neil Young, Rolling Stones, Queen, Elton John e Twisted Sister estão entre os músicos favoritos de Trump indicados pelos mass media com base no facto de terem sido usados frequentemente nos comícios da campanha presidencial de Trump. Porém, nada nos diz que não tenham sido escolhidos apenas por os estrategas da campanha terem calculado que iriam agradar ao público.

Alguns dos músicos sentiram-se incomodados e pediram que as suas canções não voltassem a ser usadas para esse fim. Um deles foi Neil Young (um imigrante canadiano, note-se), que não gostou que “Rockin’ in the Free World” tivesse sido usada num comício de Trump, mas acabou por admitir que depois de uma música ser lançada no espaço público, qualquer um a pode usar.


[“Rockin’ in the Free World”: Neil Young ao vivo em 1989]

Não é difícil adivinhar as razões de desagrado de Young, empenhado activista ambiental e apoiante de Bernie Sanders. Para mais a letra de “Rockin’ in the Free World” retrata uma América de sem-abrigo, de ruas esconsas e sórdidas, de mães toxicodependentes que desleixam o cuidado dos filhos, de crianças que nunca terão uma educação digna, de “gente que dorme nos seus sapatos”, em contraste com a abundância de “centros comerciais e papel higiénico”, de “combustível para queimar e estradas para o fazer” e de uma indústria indiferente à poluição que gera, o que faz com que o refrão “Keep on Rockin’ in the Free World” acabe por ganhar um sabor sarcástico: de que nos servem então a liberdade e a democracia?

Trump, ou os seus estrategas, não perceberam nada: esta canção é contra tudo o que eles representam.

Nas entrevistas que concedeu em 2014 a Michael D’Antonio, autor da biografia Never enough: Donald Trump and the pursuit of success (também editada sob o título The Truth about Trump), Trump revela que a sua canção favorita é “Is That All There Is?”, celebrizada por Peggy Lee em 1969, no álbum homónimo. É uma canção retintamente cínica e até nihilista, cujo “narrador”, à medida que vai passando por novas experiências, algumas das quais deveriam ser as mais marcantes e intensas da sua vida (a primeira ida a um circo, o primeiro amor), acaba sempre a perguntar: “Afinal era só isto?”. Sob a sua aparência inócua, é uma canção que se debruça à beira de um abismo sem fundo.


[“Is That All There Is?”, de Jerry Leiber & Mike Stoller, por Peggy Lee]

Como narcisista impenitente que é, o apreço de Trump por “Is That All There Is?” resulta menos de considerações estéticas que de ver espelhada na canção a sua vida – disse ele a D’Antonio que “É uma grande canção porque eu tenho alcançado êxitos tremendos e depois parto para algo de novo. É como se [depois de os obter] concluísse: ‘Afinal era só isto?’”.

Não é, pois, improvável que, após quatro anos de comportamento prepotente, caprichoso, grosseiro, destemperado, pueril e arrogante e de ter feito do seu país e do mundo lugares bem piores do que eram quando tomou posse, Trump olhe para o seu mandato como presidente dos EUA e se interrogue “Afinal era só isto?” e se desinteresse do cargo como um miúdo perante um brinquedo que perdeu a novidade e parta em busca de novas sensações.

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