Beethoven e Stravinsky

Música, Clássica e ópera
Lorenzo Viotti

A Time Out diz

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O que poderá levar a emparelhar visões tão diversas da natureza quanto a ‘Sinfonia Pastoral’ de Beethoven e A’ Sagração da Primavera’, de Stravinsky?

Beethoven, Schubert e Mahler – três vienenses adoptivos – estão entre os compositores que não dispensavam o contacto regular com a natureza e que deixaram esta permear as suas obras. Beethoven costumava passar os verões no campo e, quando estava em Viena, tinha o hábito de fazer longos passeios pelos bosques, vinhedos e campos agrícolas que ficavam para lá das muralhas da cidade, e certamente que estas experiências inspiraram a sua Sinfonia n.º 6 que, curiosamente, foi composta em paralelo com a n.º 5, que tem carácter bem diverso. Beethoven raramente associou programas à sua música, mas na n.º 6 deu títulos a cada um dos andamentos: “Despertar de sentimentos joviais ao chegar ao campo”, “Cena junto ao ribeiro”, “Alegre ajuntamento das gentes do campo”, “Trovoada, tempestade” e “Canção dos pastores. Sentimentos de regozijo a gratidão após a tormenta”. Beethoven dá a ouvir cantos de aves (algumas indicadas explicitamente na partitura: rouxinol, codorniz, cuco), murmurar de ribeiros e gaitas de foles (instrumento classicamente associado aos pastores e camponeses) e pinta um quadro bucólico e amável, que é desfeito pela violenta tempestade que rebenta no IV andamento; depois, as nuvens afastam-se e os rústicos, cujas danças tinham sido interrompidas pela tormenta, entoam um hino de acção de graças.

Esta visão amável da vida no campo contrasta com a da Sagração da Primavera, o terceiro bailado que Igor Stravinsky compôs, entre 1911 e 1913, para os Ballets Russes, de Sergei Diaghilev. A paisagem humanizada e “domesticada” da Europa Central dá lugar às desoladas e improdutivas estepes russas, em que homens e animais têm de suportar um Inverno tão inclemente que chegam a recear que o sol os tenha deixado para sempre – assim, quando, na Primavera, surgem os primeiros sinais de renascimento da natureza, as tribos sentem-se obrigadas a dar graças às divindades por ter sobrevivido a mais um período de gelo e trevas, sacrificando uma donzela num ritual cruel. A expressão musical de cenas ou situações violentas não era nova na música – bastará recordar a tempestade da Pastoral – mas até então ninguém tinha ousado representá-las de forma tão selvagem, crua e acutilante como Stravinsky o fez. O que é curioso é que Stravinsky, embora sendo russo, nascera numa família aristocrática e pouco ou nenhum conhecimento teria da estepe russa e dos rituais e modos de vida ancestrais das suas tribos – embora se tenha aconselhado com o etnógrafo e arqueólogo Nicholas Roerich – nem sequer tinha grande apreço pelo contacto com a natureza. Stravinsky era uma criatura urbana, meticulosa e hipocondríaca e o tumulto e selvajaria da Sagração foram essencialmente criados num quartinho minúsculo e sumariamente mobilado com um piano vertical, num chalet em Clarens, na Suíça. O que desiludirá provavelmente os que crêem que a arte pode ser explicada pela vida dos artistas, mas não belisca o valor da obra.

A interpretação destas duas visões das relações entre o homem e a natureza será da Orquestra Gulbenkian, com direcção de Lorenzo Viotti.

Por José Carlos Fernandes

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