Benjamin Clementine
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Benjamin Clementine: “Um dia vamos morrer, e as canções vão continuar a existir”

O cantor/compositor britânico lançou o álbum ‘And I Have Been’, no ano passado, após cinco anos de silêncio. Falámos antes dos concertos de apresentação em Portugal.

Luís Filipe Rodrigues
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Há cinco anos que Benjamin Clementine não nos dava música quando, em 2022, nos presenteou com o terceiro álbum, And I Have Been. E daqui a uma semana, depois de quatro anos afastado dos palcos portugueses pela pandemia, o cantor e compositor britânico passeia a sua pop sofisticada e meio barroca pelos palcos do Sagres Campo Pequeno, em Lisboa, e da Super Bock Arena, no Porto. Antes, conversámos sobre a sua carreira e desconversámos sobre o mérito artístico do sampling.

Estavas há cinco anos sem lançar um disco quando o And I Have Been saiu, em 2022. O que andaste a fazer?
Tornei-me um pai de família. E a pandemia atrasou um bocado as coisas. Mas teve um lado positivo, que foi forçar-me a abrandar o passo e passar mais tempo a pensar e a escrever. Este disco é apenas a primeira parte de uma trilogia. O segundo deveria ter saído este ano, mas já só deve chegar no início do próximo.

Esses discos já estão gravados, ou ainda estás a fazê-los?
Ainda os estou a acabar, não gravei nada. Mas mudei o meu processo de composição. Dantes começava por escrever, e criava a música depois. Agora faço o oposto: primeiro componho e penso nos arranjos, e só a seguir é que vejo onde se encaixam as palavras.

Mas já tens pelo menos nomes para os discos?
Ainda estou a pensar nisso. Mas se calhar vou chamar-lhes And I Have Been 2 e And I Have Been 3. Versam sobre ter-me tornado pai e marido, sobre a tentativa de equilibrar isso e a minha carreira.

Por falar nisso, editaste um single com a tua mulher, a cantora Flo Morrissey, como The Clementines. Estás a pensar continuar a tocar com ela, ou foi um caso isolado?
A pandemia impediu-nos de fazer muitas coisas. Quando comecei a gravar com a Flo, tínhamos planeado fazer uma digressão juntos. Mas depois fechou tudo. Ao fim de algum tempo, concordámos que era melhor fazermos agora a nossa música sozinhos, e voltarmos a trabalhar juntos depois disso. Até porque as canções já estão prontas, só precisamos de tempo e disponibilidade para as tocar.

Já estão gravadas?
Sim. Íamos editar um disco juntos. Só que a pandemia virou tudo do avesso.

Não tens medo que quando voltarem a pegar nelas já seja tarde? Que já não se revejam no que escreveram?
Não. As canções têm uma vida própria. Às vezes os artistas são demasiado possessivos e egoístas. É verdade que nós escrevemos as canções, mas quando as lançamos elas passam a ter a sua própria vida, deixamos de poder controlá-las. Existem para além de nós e não há nada que possamos fazer. Um dia vamos morrer, e elas vão continuar a existir.

Como te sentes quando alguém pega na tua música e faz uma versão ou a sampla?
Se o fizerem legalmente, está tudo bem. Mas não é algo que me interesse.

Já te pediram para samplar algo teu?
Sim. Disse sempre que não, apesar de o sampling ser uma prática artística. Pelo menos, acho que é.

Isso nem se discute.
Também é uma prática preguiçosa.

A sério?
Claro que sim, meu. Vá lá.

Não concordo nada. Da mesma maneira que umas pessoas usam uma guitarra ou um piano para fazer música, outras podem simplesmente misturar e combinar coisas que já existiam para fazer algo completamente novo. É a mesma coisa.
É preguiça.

Não acho que seja.
Claro que é. É óbvio que toda a gente é influenciada por algo ou alguém, mas isso não é o mesmo que simplesmente copiar algo que já foi feito. Pensa num livro, por exemplo O Código de Da Vinci do Dan Brown. 

Sim…
Imagina que pegas no O Código de Da Vinci, usas um programa para baralhar as palavras e metê-las em sítios diferentes, e depois chamas-lhe A Chave de Da Vinci

Seria bem interessante alguém limitar-se a usar aquelas palavras, o mesmo número de palavras, metê-las noutros sítios, e sair daí algo coerente. Gostava de ler isso.
Mas isso seria muito preguiçoso. Se uma pessoa se inspirasse no livro e fizesse algo novo, chamado por exemplo A Chave de Caravaggio, já era outra coisa. Mas limitar-se a mudar as palavras de sítio não passa de preguiça.

Não é, de todo.
Não digo que não seja arte, atenção. Mas não deixa de ser preguiçoso.

Vamos ter de concordar em discordar.
Mas não percebes o que quero dizer?

Percebo e discordo. Mas não vale a pena perder mais tempo com isto, tens a tua opinião, eu tenho a minha. Siga. Estreaste-te como actor na adaptação de Duna, do Villeneuve, e li que também entraste ou vais entrar num filme do Steve McQueen.
Já o filmei.

É algo que esperas continuar a fazer?
Sem dúvida. É um novo desafio, diferente, mas que tem muito em comum com a música. 

Achas?
Sim, a componente performativa. É muito semelhante. É verdade que não estou a actuar em frente do público, apenas para a câmara. Mas consigo imaginar que está muita gente a ver-me quando filmo uma cena. 

Onde é que arranjas tempo para isso tudo? Para a carreira musical a solo, o duo com a tua mulher, a representação, a família…
Ao longo da minha carreira, aliás, da vida, o instrumento que mais treinei foi a paciência. Portanto, se tiver de levar dez anos a fazer tudo e a chegar onde pretendo, não faz mal.

Sagres Campo Pequeno (Lisboa). 22 Set (Sex). 21.30. 20€-60€

O discurso continua directo

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