Dia da Mulher: seis senhoras que dão lições a muito guitar hero

O rock tem sido, essencialmente, um assunto de rapazes e a guitarra solista, então, é um clube exclusivo para machos. Mas a hegemonia masculina tem os dias contados

©Fred Von LohmannAnnie Clark/St. Vincent

A igualdade de género tem vindo a fazer o seu caminho e nos últimos tempos surgiu em Portugal legislação que impõe quotas para mulheres nas listas de candidatos políticos e, em breve, também para os conselhos de administração das empresas públicas e cotadas em bolsa.

Há, todavia, actividades em que a representação feminina é bem inferior à que se tem registado na vida política e empresarial, sem que ninguém estranhe o facto. Veja-se o caso do rock: há uma longa e honorável tradição de singer-songwriters femininas, mas que se confina a atmosferas folk e a toadas serenas e intimistas; na pop também se admitem raparigas, mas quase sempre como vocalistas ou teclistas; quando se chega ao rock a representação feminina diminui substancialmente, sendo tanto mais notória quanto mais áspera e agressiva for a música e tendendo a confinar-se à voz a e ao baixo.

Claro que há bandas rock com mulheres nas guitarras ou com elenco inteiramente feminino, como as riot grrls, de inspiração punk, que emergiram na Costa Oeste dos EUA no início da década de 1990 (Bikini Kill, Sleater-Kinney), e as bandas femininas de inspiração grunge, surgidas pela mesma altura (Hole, L7, Babes In Toyland). E temos também P.J. Harvey e as Savages e bandas mistas lideradas por raparigas, como The Breeders, Throwing Muses e Belly, e ainda raparigas em bandas rock maioritariamente masculinas, como Kim Gordon nos Sonic Youth, Kim Deal nos Pixies, ou D’arcy nos Smashing Pumpkins. Mas não pode escamotear-se que as três últimas são baixistas – as guitarras e, em particular, os números de bravura na guitarra solista, têm sido assunto de rapazes. São eles quem, tradicionalmente, se ocupa da parafernália dos pedais de efeitos (uma manifestação da mais vasta obsessão masculina com gadgets) e é claro que foram também eles quem instituiu o manuseio da guitarra eléctrica como símbolo fálico. Mas isso acabou.

Dia da Mulher: seis senhoras que dão lições a muito guitar hero

Annie Clark

Annie Clark fez parte dos Polyphonic Spree, da orquestra de guitarras de Glenn Branca e da banda de Sufjan Stevens – tudo antecedentes recomendáveis – antes de, em 2006, iniciar carreira a solo sob o nome de St. Vincent. Marry Me, de 2007, atestou quão sensata foi a decisão de deixar de ser um elemento ao serviço de outros criadores e fazer ouvir a sua voz – e a sua guitarra, na qual demonstrou possuir dotes extraordinários, que tinham passado despercebidas nos anteriores projectos musicais.

[“Rattlesnake”, do álbum St. Vincent (2014), ao vivo no David Letterman Show, em 2014]

O reconhecimento alcançado por Annie Clark como guitarrista justificou que o fabricante de guitarras Ernie Ball Music Man lançasse uma guitarra por ela concebida e a que foi dado o nome de St. Vincent. Está disponível em cinco cores e nenhuma delas é o rosa. Os meninos também podem usar.

[Excertos de concerto de Annie Clark/St. Vincent no Outside Lands Fest, Golden Gate Park, São Francisco, 2015]

Yvette Young

Yvette Young é o dínamo criativo dos Covet, um trio de math rock de Oakland, Califórnia. Os Covet têm uma história breve e apenas um EP, Currents (2015), no curriculum, mas Young tem antecedentes a solo, graças ao seu prodigioso domínio da técnica de finger-tapping (que ela atribui à independência entre mãos que os estudos de piano, iniciados aos quatro anos de idade, lhe conferiram).

[“Sea Dragon”, uma faixa do EP Currents, ao vivo nos Spirit Vision Studios]

[Yvette Young toca a parte de guitarra de “Hydra”, outra faixa do EP Currents, ao vivo na EMGtv]

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Sarah Longfield

Sarah Longfield tem em comum com Yvette Young um domínio sobrenatural da técnica de finger-tapping e a liderança de uma banda que combina math rock e prog rock. A banda de Longfield, os The Fine Constant (de Madison, Wisconsin) tem, porém um som mais agressivo (com afinidades com os Animals As Leaders), o que os torna catalogáveis no progressive metal. O grupo auto-editou dois álbuns, Myriad (2012) e Woven in Light (2015) e Longfield tem ainda vários discos em nome próprio.

[“Quiescent”, do álbum Woven in Light]

[“Inevitable Disconnect”, do álbum Myriad, revela o lado mais metálico e ameaçador dos The Fine Constant]

Mary Halvorson

Halvorson nasceu, em 1980, em Brookline, Massachusetts, mas é natural que se tenha mudado para um lugar quase homógrafo, mas mais propício a quem queira fazer carreira no jazz de vanguarda: Brooklyn. Após estudar com Anthony Braxton e de ter colaborado nalguns dos seus projectos, lançou-se como líder e conta com uma vintena de discos em nome próprio.

[Concerto em trio, com John Hébert (contrabaixo) e Ches Smith (bateria), no Saalfelden Jazz Festival, Áustria, 2010]

Lidera um trio, um quinteto, um septeto e um octeto, mantém duos com Jessica Pavone, Sylvie Courvoisier e Noël Akchoté, faz parte dos colectivos People, Reverse Blue, Thumbscrew e Secret Keeper e integra bandas lideradas por Taylor Ho Bynum, Curtis Hasselbring, Trevor Dunn, Thomas Fujiwara, Ingrid Laubrock, Tom Rainey, Mike Reed, Marc Ribot e Ches Smith, para lá do já mencionado Anthony Braxton. Dragon’s Head (2008), a sua estreia como líder (em trio), arrancou superlativos à crítica: “provavelmente a mais original guitarrista de jazz a surgir nesta década “ (Peter Margasak, Chicago Reader); “[está] anos-luz à frente dos seus pares [...] a mais impressionante guitarrista da sua geração. O futuro da guitarra jazz começa aqui” (Troy Collins, All About Jazz).

[Concerto a solo no Ottobar, Baltimore, EUA, 17 de Julho de 2014]

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Hedvig Mollestad

A guitarrista norueguesa Hedvig Mollestad tem formação e experiência na área do jazz – tocou com o guitarrista Jon Arild Eberson, os cantores Hilde Marie Kjersem e Jarle Bernoft e a Trondheim Jazz Orchestra, foi eleita “jovem talento jazz do ano” na edição de 2009 do festival de jazz de Molde – mas o som do Hedvig Mollestad Trio enraíza-se firmemente no hard rock, ainda que lhe acrescente condimentos jazzísticos e psicadélicos. O trio, com a baixista Ellen Brekken e o baterista Ivar Loe Bjornstad, define-se a si mesmo como “outgoing & progressive instrumental rock” e estreou-se em 2011 com Shoot! , tendo lançado mais quatro discos, sempre na Rune Grammofon.

[“La Boule Noire”, do álbum Enfant terrible (2014), ao vivo no Parkteatret, em Oslo, 11 de Abril de 2014]

Ava Mendoza

O trio Unnatural Ways nasceu em Oakland, Califórnia, mas só quando a guitarrista Ava Mendoza mudou a sua base de operações para Brooklyn e reformulou a banda com um novo baixista (Tim Dahl) e um novo baterista (Sam Ospovat) é que as coisas se tornaram sérias. John Zorn convidou-a a gravar na sua editora, a Tzadik, e o resultado, We Aliens, foi uma das revelações discográficas de 2016.

[“Draw the Line”, ao vivo em 2016, no A38, um navio convertido em sala de concertos, ancorado no Danúbio, em Budapeste]

Em We Aliens convivem a terrosidade dos blues, os golpes certeiros do math rock, a abrasão do metal, a experimentação sónica do noise, a improvisação do jazz e um destemor e uma intensidade que fazem dos Unnatural Ways um dos mais excitantes power trios do momento.

[“Alien Goo”, uma faixa de We Aliens, no mesmo concerto]

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