EDPCOOLJAZZ: Van Morrison

Música
Van Morrison
Photograph: Courtesy Shore Fire Media

No último ano – em bom rigor, nos últimos nove meses – Van Morrison, que sábado toca em Cascais, lançou três discos. Isto, em si, já diria muito sobre o fulgor actual de um músico com mais de cinco décadas de carreira, sete de vida e mais de meia centena de discos gravados. Mas a apreciação quantitativa – três discos em nove meses – diz pouco e poderia até ser depreciativa, quando se nos apresentam três gravações que, como de costume com Van Morrison, estão uns bons furos acima da mediania e são, elas próprias, reveladoras do percurso e da marca que este irlandês do mundo deixa na música.

Os três discos organizam-se em torno da matriz de que é composto o seu estilo interpretativo muito peculiar. O primeiro, Roll With The Punches, vai às raízes blues da América, a que não falta uma mão cheia de temas assinados pelo próprio. Versatile foca-se nos standards (Porter, Gershwin), não faltando, mais uma vez, uma boa quantidade de canções assinadas pelo cantor. Finalmente, You’re Driving Me Crazy é um exercício jazzístico, beneficiando da colaboração com o organista e trompetista Joey DeFrancesco e, adivinharam, mais uma vez com metade das canções assinadas pelo próprio, desta vez algumas que já haviam surgido noutros discos. Para que a palete de que se compõe o estilo Morrison ficasse completa ficam a faltar dois discos: um de música celta, outro com canções country.

Essa marca Morrison, por espantoso que hoje nos pareça, surge logo nos primeiros discos a que este natural de Belfast dá voz, com os Them, em 1965, data da perene “Gloria”. E é ainda com os Them que cunha os primeiros sucessos, sejam eles originais (“Mystic Eyes”, “Here Comes The Night”) ou versões (“Baby, Please Don’t Go”).

Os seus primeiros discos a solo (Astral Weeks, de 1968, e Moondance, de 1970) são obrigatórios em qualquer enciclopédia da música pop-rock e consolidam de vez um estilo inconfundível: uma voz bailarina, frequentemente usada como um instrumento em vocalizos improvisados; um acompanhamento instrumental diversificado, quase sempre devedor dos blues, e em que pontificam metais, órgão e guitarras e, novamente, o improviso. Essa sonoridade própria, estável mas sempre inquieta, em busca de nuances, é a base sobre a qual o músico desenvolve uma postura por vezes acentuadamente mística, conferindo à sua música um carácter espiritual, não confundível com qualquer opção religiosa.

A sua longa carreira acabou por se desenvolver nesse registo, sempre com essas constantes estilísticas, mas também sempre em movimento: discos de versões, discos celtas, discos de jazz, discos mais místicos, discos de duetos... E depois os concertos. É ao vivo que a música de Van Morrison encontra o ambiente propício a revelar todas as suas texturas sonoras, na liberdade dos improvisos de palco e da inspiração do momento. É disso testemunha It’s Too Late to Stop Now, um duplo álbum de 1974 reeditado em 2016 numa edição vitaminada e expandida – ouça-se, por exemplo, “Listen To The Lion”... Não admira que os concertos que tem vindo a realizar nos últimos anos esgotem sempre, um sucesso que contrasta com a modesta performance comercial dos seus discos.

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