Gabrieli, Gubaidulina, Stravinsky

Música, Clássica e ópera
Geir Draugsvoll
©DR Geir Draugsvoll

A Time Out diz

Se Goethe definiu uma 
vez a arquitectura como “música congelada”, é legítimo inverter os termos e descrever a música como “arquitectura em movimento”. As relações entre as duas disciplinas têm sido exploradas por vários compositores – nomeadamente por Iannis Xenakis – e uma das manifestações dessa afinidade está presente em Fachwerk, obra de 2009 para bayan e orquestra de Sofia Gubaidulina (n.1931). “Fachwerk” é uma expressão alemã que designa a construção tradicional com vigas de madeira à vista nas fachadas, que foi comum no final da Idade Média e ainda pode ser vista em muitas cidades da Baviera, Saxónia
 e Turíngia. Gubaidulina, que ficou fascinada com a palavra, pelo seu significado e pela sua sonoridade, adicionou a esta obra uma originalidade: dar o papel solista ao bayan, variante russa do acordeão, que tem vindo a ser resgatado ao nicho da “música tradicional” e a entrar nas salas de concerto – transição em que foi decisivo o compositor russo Vladislav Zolotaryov (1942-1975),
 um notável executante do instrumento (poderá dizer-se “bayanista”?).

Gubaidulina não toca bayan, mas tem-lhe dado papel de relevo, e dedicou Fachwek a Geir Draugsvoll, que estreou
 a obra. Draugsvoll é um dos grandes virtuosos do bayan, tem colaborado com maestros como Valery Gergiev, Yuri Bashmet ou Vasily Petrenko e tem estreado e gravado obras para bayan de compositores como Gunnar Valkare ou Anatolijus Senderovas. O CD com a primeira gravação de Fachwerk, por Draugsvoll com a Sinfónica de Trondheim, editado pela Naxos, foi aclamado como um dos melhores de 2011.

Não poderá encontrar-se melhor solista para este programa
da Orquestra Sinfónica Portuguesa, com direcção de Joana Carneiro, e em que Fachwerk terá a companhia de obras bem diversas – a mais próxima, na cronologia e na nacionalidade, é o bailado A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, estreado há mais
de um século em Paris e que chocou o público de então com o seu tumultuoso retrato sonoro de rituais cruentos das tribos das estepes russas. Bem mais distantes estão as Canzoni VII e VIII Toni e a Sonata Pian’e Forte, de Giovanni Gabrieli, compostas para a Basílica de São Marcos, em Veneza, há mais de cinco séculos.

Por José Carlos Fernandes

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